CENSURA NA GLOBO

Na noite de 27 fevereiro de 2020, na Globonews, Miriam Leitão entrevistou a escritora Nélida Piñon. A conversa deu-se na sede da Academia Brasileira de Letras, que já elegeu censores para seus pares, mas este pormenor continua tabu. Entretanto, um dos eleitos assinou o AI-5. Todavia registre-se o papel sempre diplomático, produtivo e polido da escritora, que, como todos sabem, é afável no trato, sem jamais ter perdido a firmeza com que abraçou sempre as boas causas.

Um dos assuntos do bate-papo foi o Manifesto dos 1046 Intelectuais contra a Censura, uma obra coletiva a ser mais estudada.

Sou autor de três livros referenciais sobre a censura, como é público: O CASO RUBEM FONSECA, NOS BASTIDORES DA CENSURA, RUBEM FONSECA: PROIBIDO E CONSAGRADO.

E por isso venho ponderar; na verdade, reiterar, tanto já escrevi sobre o tema, acrescentando às importantes declarações de nossa querida Nélida Piñon mais o seguinte:

  1. O Rio é muito importante, mas não é o Brasil. Daquelas 1046 assinaturas, cerca de 400 (quatrocentas) foram obtidas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Eu sei porque coordenei a coleta nesses três Estados, foi trabalho difícil, o medo era grande.
  2. A lista foi entregue ao ministério da Justiça, mas as escritoras Lygia Fagundes Telles e Anna Maria Martins, que moram em São Paulo desde sempre, devem ter ainda uma cópia com todas as assinaturas. Foi apenas com elas que vi e li a lista completa, não com Ednalva Tavares e com José Loureiro, da coordenação nacional dessa lista.
  3. Rubem Fonseca não foi mais um caso da censura, ele foi o único dos 508 autores de livros proibidos que recorreu ao Judiciário e ganhou a questão por 2 x 1, no TFR, em 1989.
  4. Na verdade, Chico Buarque também recorreu, mas desistiu no meio do caminho.
  5. Quando defendi a dissertação de mestrado sobre a censura, na UFRGS, e a de doutorado na USP, nos anos 70 e 80, Rubem Fonseca ainda continuava proibido. Ele foi liberado dias depois de eu defender a tese na USP. Boris Schnaiderman, José Carlos Garbuglio, Flávio Aguiar (os três, da USP), Jesus Durigan e Marisa Lajolo (ambos da UNICAMP) estavam na banca.
  6. Meu conto de estreia, em 1974, rendeu-me condenação a dois anos de prisão em 1975, cumpridos “sub sursis”. Perdi o recurso no TJ do PR, em Curitiba. Tenho na memória os nomes daqueles que me condenaram porque perdoar é humano, mas esquecer é demoníaco. E a falta de leitura e de memória os males do Brasil são. Pouca saúde e muita saúva também, claro. Digo isso porque uma coisa é você estudar a censura e outra é senti-la. Como se sabe, a palavra sentença tem o mesmo étimo do verbo sentir. E condenar, o de dano e danar. Meu pedido de anistia nunca foi examinado. A indenização solicitada é que seja reconhecido o erro praticado, pois o MEC premiou o então jovem autor que o Judiciário proibiu.
    Celso Arnaldo Araujo
    Betty Milan
    Antonio Carlos Secchin
    Salomao Antonio Ribas Jr.
    Dante Mendonça
    Ernani Buchmann
    Brasigois Felicio Felicio
    Raimundo Carrero
    Raimundo Martins
    Raimundo Gadelha
    Márcio Souza

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