ALEGRIA E DOR NOS CALENDÁRIOS

Por DEONÍSIO DA SILVA *

Publicado em O Globo, em 21 de janeiro de 2017.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda.

A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis.

Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas.

O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro.

Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc.

Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos.

Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do Latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação.

As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor.

tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar.

O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday.

Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo Latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender.

Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”.

A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos.

DOIS ALIENISTAS: um em brasília, outro nos eua

Os presidentes do Brasil e dos EUA parecem o personagem Simão Bacamarte de O Alienista, de Machado de Assis. O médico, referência solar desta narrativa curta, muda radicalmente de opinião ao correr dos acontecimentos. Primeiramente, interna todos os habitantes na Casa Verde, o hospício de Itaguaí, porque a seu juízo todos estão loucos. No desfecho, dá alta a todos e vai ele para o lugar dos doidos:

“Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo”.

O PRIMEIRO ACIDENTE DE TRÂNSITO FOI OBRA DE ESCRITORES

LÍNGUA PORTUGUESA

“Flores e desastres do português”, copyright Jornal do Brasil, 25/05/03

“Nossa língua portuguesa foi concebida em célebre poema de Olavo Bilac como a “última flor do Lácio, inculta e bela” e “ouro nativo”, além de “esplendor e sepultura”.

Pasquale Cipro Neto, dedicado professor e homem de letras, mantém coluna semanal sobre temas e problemas de nosso idioma, ensinando a norma culta em espaço semelhante a este nosso Língua Viva. Lá, Inculta e bela. Não somos concorrentes e nem adversários. Somos aliados. E estamos interessados em atingir objetivos semelhantes, cada qual ao seu estilo e à luz das especificidades de nossos respectivos ofícios.

Semana passada, aliás, na Bienal do Livro, no Rio, os organizadores puseram-nos frente ao distinto público de um Café Literário, de que participaram também Reinaldo Pimenta e Sérgio Nogueira. Tivemos todos um agradável convívio, à entrada e à saída dos debates, o que, convenhamos, não é muito usual entre intelectuais e professores.

Embora nosso preparo físico fosse ligeiramente superior ao dos ministros do presidente Lula, alguns dos quais marcam passo e dão maus passes nas peladas do paço, foi-nos providenciado um veículo pequeno que vem substituindo a maca nos campos de futebol e em recintos reservados a eventos, como era o caso.

Ainda assim, pareceu-me que já chegávamos estropiados, precisando de maca, palavra de origem controversa, provavelmente com raízes no baixo alemão Hangmat, que na língua culta equivaleria a Hängematte, tapete suspenso. Fez escala no espanhol hamaca, rede estendida entre duas árvores. Tendo servido de cama, passou depois a ser utilizada como veículo para transporte de doentes e feridos. Nos países tropicais, a maca é a liteira dos pobres. É muito conhecida nos campos de futebol, servindo para retirar o atleta que, machucado, não pode locomover-se por seus próprios meios. Jogadores fingidos, quando postos sobre a maca motorizada, parecem à beira da morte. Uma vez retirados do gramado, saltitam alegremente, pois foram curados no trajeto. Pois nós também saltamos, recebemos alta daquela ambulância e fomos ao trabalho.

Nosso tema era a origem de palavras e de expressões que se consolidaram de tal modo em nossa língua, a ponto de algumas delas servirem de vinhetas na imprensa, de que é exemplo o famoso verso “última flor do Lácio, inculta e bela”.

As vinhetas são assim chamadas porque os monges medievais enfeitavam seus escritos com desenhos de folhas e de cachos de videiras. No latim, videira é vinea. No francês, filho do latim, vinea tornou-se vigne. E a pequena vigne, vignette, que se tornou vinheta, no português. As vinhetas, antes de migrarem para a escrita, estavam em móveis e louças, onde, aliás, ainda permanecem.

Os leitores, repartidos, detestam ou veneram Olavo Bilac. Integro o segundo lote. Textos de pouca ou nenhuma isenção ideológica lembram com surpreendente obsessão que o conhecido escritor brasileiro inventou o livro didático e o serviço militar, ambos obrigatórios, ainda que o primeiro apenas para os homens. Mais cívicos, outros lembram que é autor de nosso Hino à Bandeira. A Bíblia já avisou que o justo sofre na boca dos ímpios. Mas os tempos mudam e quem hoje é ímpio, amanhã pode ser considerado justo e vice-versa. De todo modo, os ímpios hodiernos, quando referem Olavo Bilac, dão-no apenas como o autor do primeiro desastre de automóvel no Brasil.

E eis um caminho que se bifurca. Desastre veio do provençal antigo desastre, passando pelo francês désastre e pelo italiano disastro. Em todas as línguas citadas, designava originalmente desvio da rota do astro ou ?contra os astros?, dada a enorme influência da astrologia em tempos remotos. Os antigos pensavam que as grandes desgraças e calamidades decorriam de desordens entre os astros, impedidos momentaneamente de zelar pelas coisas terrenas. E não recolhiam impostos para tais proteções. É, mas não vivemos no Céu. Vivemos na Terra. E aqui há impostos e desastres. Não deixa, porém, de ser poética a designação de desastre.

Uma curiosidade marca o primeiro deles no Brasil, envolvendo dois escritores: o poeta Olavo Bilac pediu emprestado o automóvel de José do Patrocínio e destruiu o carro do célebre orador abolicionista numa batida antológica. Ora, o chofer barbeiro – chofer passou a motorista – era poeta dos bons e seu nome completo formava um decassílabo: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. E a última flor é a língua portuguesa, a última das filhas do latim. É inculta por descuido de seus filhos, mas é bela porque todos reconhecem a delicadeza de suas expressões, principalmente na fala, dadas as contribuições que recebeu dos novos falantes de além-mar, no Brasil, como na África e na Ásia.

A região do Lácio, localizada às margens do mar Tirreno, na Itália, foi subjugada pelos romanos no século IV a.C. Uma boa mostra de quanto a última flor do Lácio continua inculta são os programas apresentados no rádio e na televisão no horário eleitoral gratuito, no varejo e no atacado. E outros exemplos – no caso, maus exemplos – procedem de muitos de nossos parlamentares, desde há alguns anos cada vez mais expostos em programas de televisão de responsabilidade de assembleias estaduais e de câmaras de vereadores. E principalmente na TV Senado! Não será o caso de estipular algum tipo de sanção para a falta de decoro no trato com o instrumento por excelência do exercício de suas funções? Afinal, além de maltratar a língua-mãe, cometendo crimes de lesa-língua, fazem isso impunemente, em nome de milhões de brasileiros, a quem representam nos parlamentos.”

Artigo: O vírus que veio de longe

Epidemias, pandemias e democracias são periódicas no Brasil e no mundo.

Por DEONÍSIO DA SILVA *

O Globo, 23.03.2020

Epidemia, pandemia, democracia. Não confundir a segunda e a terceira com pandemônio, palavra que o poeta inglês John Milton, secretário de Línguas Estrangeiras, criou no Século XVII para designar o Palácio de Satanás no famoso livro “Paraíso perdido”.

Epidemia afeta apenas algumas regiões. Pandemia afeta o mundo todo. Epidemias, pandemias e democracias são periódicas no Brasil e no mundo. Vão e voltam, às vezes muito disfarçadas e quase irreconhecíveis.

 Desta vez veio da China, com escalas em outros países antes de chegar ao Brasil, o vírus mais temido hoje no mundo, batizado pelos cientistas por Sars-CoV-2 (abreviação em inglês de Síndrome Respiratória Aguda Grave-Coronavírus-2), causa da doença designada por   Covid-19, abreviação em inglês de Coronavirus Disease 2019, ameaçando levar meio mundo para a cova. São velhos conhecidos dos cientistas, agora em edições  revistas e ampliadas

Também seu nome veio de longe. Somos filhos das antigas Grécia e Roma, não saímos do mundo greco-latino e ele não sai de nós. Corona e vírus são palavras latinas, coroa e coisa nociva, respectivamente, e disease, grega, significando doença, do latim vulgar dolentia, que dói, que o latim culto designava por morbus, e está  no português morbidez, mórbido. É do mesmo étimo de mordere, morder no sentido de matar, causar dano.

As palavras também têm suas biografias, autorizadas e não autorizadas, e ambas esclarecem muitas coisas. Vírus veio do latim virus, sumo de plantas prejudicial à saúde. Os antigos gregos o chamavam iós, veneno, e o tomaram da raiz indo-europeia weiss, fluir, escorrer.

Entre as voltas que as palavras dão, vírus já foi sumós, não um veneno, mas um caldo escuro, mélassumós, feito com carne de porco fervida no sangue do animal, temperada com azeite e vinagre. Muito apreciada pelos soldados espartanos, a sopa foi servida a seu senhor em Roma por um escravo que tinha sido cozinheiro em Esparta. “Agora sei por que eles não temiam a morte”, disse ele ao experimentá-la e cuspir.

Hoje, a ciência reina soberana, mas já houve muitas explicações estapafúrdias. Demócrito e Aristóteles, entre outros, defendiam a geração espontânea. Eles davam o exemplo da carne podre, de onde nasciam moscas. E a humanidade acreditou nos imaginosos gregos por dois milênios.

No Século XIV, ainda vigorava a crença popular de que árvores à margem de rios e lagos davam gansos, e outras à beira de pastos davam melões recheados de carneiros. No século XVI, o cientista Paracelso concluíra que sapos, ratos, enguias e tartarugas podiam nascer da água, de madeira podre, de montes de palha etc.

Entre os séculos XVI e XVII, o cientista holandês Jan Baptista van Helmont, contestando as dúvidas de Thomas Browne sobre a geração espontânea, deu até uma receita para produzir camundongos: manter num recipiente aberto uma camisa suja de suor e algumas sementes de trigo. Em três semanas nasceriam ratos.

Mas no século XVII o italiano Francesco Redi provou que os vermes só apareciam na carne podre se esta tivesse tido contato com moscas vivas. Quando o francês Louis Pasteur e o inglês Thomas Huxley, ambos no século XIX, pesquisavam a miúda bicharada das bactérias, já sabiam que era impossível a abiogênese: do Grego á, sem, + bíos, vida, + génesis, criação, então definida como um princípio ativo.

Ativos, de fato, eram e são os vírus. O vírus deixou de ser sumo, suco ou veneno depois que em 1892 o russo Dimitri Ivanovski mostrou que havia seres ainda menores do que as bactérias de Pasteur, por cujo filtro de porcelana eles passavam e se reproduziam nas células.

Pasteur adotara “bactérie”, bactéria, como a chamara em francês o alemão Christian Gottfried Ehrenberg, adaptando-a do grego bakteria e do latim bacterium, nessas duas línguas designando apenas bastonete, pela forma de bastão dos micro-organismos. Também o coronavírus recebeu seu nome pela aparência de coroa que o vírus tem.

Hoje, nem sopa nem veneno, os vírus parecem ter encontrado o eterno retorno e sempre voltam mudados e mais fortes. O mais terrível voltou rei: coronavírus. E já tem sucessor: o novo coronavírus. A vida é luta renhida contra ele, viver é lutar.

Deonísio da Silva é professor e escritor

UNIVERSIDADE SEM PORTUGUÊS

A Revolução Russa de 1917 abriu as portas da universidade a todos. Mas em menos de oito anos impôs uma espécie de vestibular, pois alunos despreparados faziam a universidade descer ladeira abaixo.

É um horror, mas já faz tempo que setores obscurantistas de nossas universidades ensinam a seus alunos que eles não precisam aprender a norma culta. Nem antes nem depois de entrar para a universidade.

Como todos os livros estão escritos em norma culta, eles não entendem o que leem. E não aprendem.

Para entrar para a universidade, há requisitos como este, que não estão sendo cumpridos.

IRACEMA E CAPITU

DEONÍSIO DA SILVA *

Olhem só como escreviam de modo diferente dois escritores clássicos. Um, fala de Iracema; outro, de Capitu.

Das personagens femininas do cearense, mirantes privilegiados para avaliarmos o desempenho narrativo dos romancistas do período, guardamos dotes físicos, de que é exemplo referencial a sua Iracema: “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.” (Deixemos de lado a polêmica: “além daquela serra”, ficaria o Piauí, não o Ceará, tese defendida da tribuna do Senado há alguns anos!)

Tomemos agora o caso do carioca. Sua personagem mais lembrada é Capitu. E que guardamos dela? Sim, sabemos que Capitu é morena, tem apenas catorze anos nos primeiros capítulos, é “alta, forte e cheia”, parece “apertada em um vestido de chita, meio desbotado”, tem “cabelos grossos, feitos em duas tranças”, “olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, boca fina e queixo largo” e que “as mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula”. Todavia o que guardaremos para sempre é que tinha “olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada.”

* escritor e professor, Doutor em Letras pela USP.

NA BATATA: BATATA E BATATA-BAROA

DEONISIO DA SILVA *

A batata-baroa foi trazida dos Andes e cultivada pela primeira vez em terras que tinham pertencido a Antônio Clemente Pinto (1795-1869), o Barão de Nova Friburgo, um dos homens mais ricos do Império.

De “batata do barão” passou a “batata da baroa”, feminino pouco usado de baronesa, consolidando-se como batata-baroa. Mas é uma mandioquinha.

Batata serve também para ofender os alemães no Sul: “alemão batata”.

A palavra “batata” foi registrada pela primeira vez no século XVI, ouvida da boca de habitantes do Haiti que falavam o Taíno. Os ingleses, que também levaram o tubérculo para a Europa registraram “potato”.

O mistério de sua origem e a controvérsia sobre a denominação persistem porque a batata é originária dos Andes, onde diversas nacionalidades indígenas a cultivavam, especialmente os incas, que conheciam mais de duzentas espécies.

No Brasil, entre as mais comuns estão a batata-inglesa, assim chamada porque os ingleses a levaram para a Europa e para suas colônias; a batata-doce e a batata-baroa, sendo esta última conhecida também por mandioquinha.

A batata substituiu a bola em diversos jogos, donde “acertar na batata”, à qual foi comparada também o relógio de pulso, séculos mais tarde.

A batata era alimento tão importante para os povos da cordilheira dos Andes que os incas incluíram este alimento em sua principal oração.

No Peru, eles rezavam uma oração semelhante ao pai-nosso, em que a batata substituía o pão: “Multiplicai as batatas para que os homens não padeçam de fome nem de miséria”.

* escritor e professor.

OS NOVOS JECA-TATUS

DEONÍSIO DA SILVA º

Jeca Tatu estreou sem hífen no jornal O Estado de São Paulo (edição de 23.12.1914) em narrativa curta de Monteiro Lobato intitulada Urupês, plural de urupê, nome dado pelos índios ao fungo orelha-de-pau, capaz de agarrar-se a uma árvore e matá-la.

Não confundir com orelha-de-burro, orelha-de-onça, orelha-de-cutia, orelha-de-gato, orelha-de-macaco, orelha-de-negro, orelha-de-porco, orelha-de-rato, orelha-de-urso, orelha-de-veado e orelha de onça, sem hífen (muda de café ainda nova).

Seu nome científico é “Polyporus sanguineus”. Sim, em latim, esta língua morta sem a qual não vivemos, assim como o grego clássico, igualmente morto. A vida inclui a morte. Você tem mortos queridos nos cemitérios, e nossas bibliotecas, filmotecas, discotecas, mapotecas, pinacotecas etc. estão repletas de outros mortos, alguns deles seus ancestrais, ainda que longínquos. Mas, você sabe, muitas coisas que vêm de longe nos afetam muito, não apenas os vírus. Com as duas línguas mortas, o Latim e o Grego, damos nomes ao COVID-19, aliás: “Coronavirus disease”.

José Bento Renato Monteiro Lobato (Hebraico e Latim no nome) trazia uma visão crítica e depreciativa do caboclo brasileiro, em tudo contrária à visão romântica e às vezes muito enganadora dos modernistas, que, sendo urbanos, desconheciam a realidade do interior do Brasil, na qual  Monteiro Lobato era doutor. Ele plantava, colhia, criava animais etc., pois era fazendeiro e agropecuarista. Mas gostava de escrever sobre o que conhecia e pagou caro por isso, uma vez que estava cercado de turbas de ignorantes.


Dali a quatro anos, em 1918, veio o livro com o mesmo titulo. E seu personagem principal, Jeca Tatu, foi parar nos dicionários onde está até hoje, com hífen, jeca-tatu, para designar o caboclo, que, reduzido para jeca, designa a pessoa grosseira, cafona, ridícula. De mau gosto, sobretudo no vestir.

Você sabe, no Brasil não ter biblioteca ou não comprar livros não é cafona, as pessoas, ricas ou pobres, gastam proporcionalmente muito na aparência e pouco na leitura. Mas nunca pedem ao governo para lhes dar roupa, calçado, rímel, batom, cosméticos etc. de graça ou subsidiá-los. Só querem quase de graça livro, teatro, cinema, shows etc. Isso, porém, é outro assunto.

Entre 1993 e 2000, dirigindo a Editora da UFSCar, encontrei uma aluna que tinha um exemplar do Almanaque do Jeca Tatu, que Monteiro Lobato elaborara em 1924 para que seu amigo, o farmacêutico Cândido Fontoura Silvestre, distribuísse gratuitamente junto com um vidro do fortificante Biotônico Fontoura, que ele inventara em 1910, aos 25 anos. Por problemas de copyright não conseguimos publicar uma nova edição do da obra, revista e comentada.

Monteiro Lobato foi perseguido, chegou a ser preso, bradava sempre “o petróleo é nosso”, para que, já independente politicamente, o Brasil obtivesse também sua independência econômica.

Já personalidade solar de nossas letras, com Urupês de obra de referência , foi candidato à Academia Brasileira de Letras e perdeu as eleições para Eduardo Ramos, que jamais publicara livro nenhum. A galeria dos escritores que lá não estão, por terem sido recusados ou por não querer de jeito nenhum entrar, resulta numa plêiade de autores de obra extraordinária, de que são exemplos Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Lima Barreto, Erico Verissimo, Mário Quintana, Salim Miguel, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Márcio Souza etc., sendo que este etc. pode incluir autores de obras de qualidade superior à da maioria dos que lá estão. Porque, como num hospício, muitos dos que lá estão não são, e outros, que são lá não estão.

No dia 4 de julho de 1948, quando os EUA celebravam mais uma vez sua independência, que lá foi também econômica, Monteiro Lo­ba­to morreu. Dois dias antes ele dera a última entrevista de sua vida, encerrando-a com o mesmo brado retumbante: “O pe­tróleo é nosso”! Já tivera tempo de reconhecer alguns de seus não menos famosos enganos, como convencer-se ou ser convencido de que o motivo profundo da inércia de seu Jeca Tatu não era a preguiça, era uma doença que podia ser curada.

A morte foi noticiada pelo Repórter Esso, na voz de He­ron Domingues: “E a­gora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande es­critor e patriota Monteiro Lobato!”.

Mais de 70 anos depois, os jeca-tatus tomaram conta do Brasil e vêm elegendo seus semelhantes. Ah, sim, e tomaram conta também das redes sociais. Exercem ademais um direito adicional curioso, além de votar, prática que talvez os ensine a escolher melhor os governantes, evitando ladrões e ignorantes nas esferas do poder.

Atualmente, os jeca-taus são eletrônicos, desprezam o campo, a pecuária, enfim, o agronegócio, e querem ensinar o que não sabem nas redes sociais, suas novas árvores repletas de urupês em cujos arredores eles fazem seus casebres, agora chamados perfis.

* professor e escritor, autor de “Avante, soldados: para trás”, “Stefan Zweig deve morrer” e “De onde vêm as palavras”, entre dezenas de outros livros.

BENJAMIM NA TOMADA ELÉTRICA

Há algum tempo venho pesquisando por que razão chamamos benjamim o plugue que nos permite ligar mais do que um aparelho na mesma tomada.

As versões predominantes são que o nome é homenagem ao célebre inventor Benjamin Franklin, que o teria usado a primeira vez acoplado ao soquete de uma lâmpada.

Mas quem patenteou o plugue teria sido Reuben Berkley Benjamin, em 1898, em Chicago, nos EUA. Ele passou a comercializá-lo numa empresa que fundou com a esposa. Curiosidade: na América espanhola, o benjamim e conhecido por ladrón (ladrão), que para nós é palavra que designa, entre outras coisas, uma calha para esvaziar reservatórios d´água.

Glauco Ortolano, você, que anda pelo mundo, tem um saber de coisas práticas que vai muito além dos dicionários. Como é chamado o benjamin na linguagem do cotidiano desses países onde você tem morado ou visitado? No Inglês é adaptor, plug etc. Mas no dia a dia?

NOSSA OUTRA LÍNGUA

HISTÓRIA DE CADA UM

Como as palavras, cada um de nós tem sua história. Pergunto a cada leitor: qual é a sua?

Quanto a mim, tudo começou em Siderópolis (SC), que mudou de nome. Chamou-se originalmente Nova Belluno. Os imigrantes italianos, saudosos da terra natal, davam o nome da localidade de onde tinham vindo, acrescentando o adjetivo “nova” na frente do nome. E assim sugiram Nova Trento, Nova Veneza etc. E Nova Belluno.

Belluno é uma palavra de origem etrusca. Virou “Béllum” (guerra), em Latim, depois “bellúm” no Latim vulgar, e “Bellún” no dialeto Vêneto. Província e cidade têm o mesmo nome. A cidade fica a 100 km de Veneza e tem hoje 36 mil habitantes.

Quando o governo Getúlio Vargas instalou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Nova Belluno, os engenheiros mudaram o nome do então distrito de Urussanga para Siderópolis, do mesmo étimo de siderurgia, o Grego “síderos”, ferro.

Urussanga veio do Tupi-guarani, uma junção de muitas línguas indígenas, e quer dizer Riacho dos Pássaros.

Acontece que ao passar para o Latim, “sideris”, declinação de “sidus”, ferro, ensejou novo significado, como é fácil comprovar na expressão “espaço sideral”.

Quando os meteoritos conseguem chegar à Terra e são encontrados – podemos ver isso em museus -, comprovamos que eles são feitos de ferro.

Meu pai, um Correia da Silva, cujos ancestrais eram de Canela (RS), que se casara com uma Da Boit, família italiana, chegou a Siderópolis, ex-Nova Belluno, atraído pelas novas oportunidades de trabalho da CSN.

Eu fui o primeiro de seus filhos a nascer ali. Fui batizado pelo padre Agenor Neves Marques (morreu em 2006), autor do livro “Catequista Ideal”.

Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 24 de agosto de 1954, nós já morávamos em Jacinto Machado, o novo nome que Volta Grande recebera para homenagear o brigadeiro Jacinto Machado Bittencourt, comandante militar que lutara na Guerra do Paraguai.

Lá ficamos sabendo que padre Agenor tinha sido denunciado ao arcebispo de Florianópolis, Dom Joaquim Domingues de Oliveira (morreu em 1967), como incitador das greves e revoltas dos mineiros na terna luta capital x trabalho.

A denúncia: “é elemento perigosíssimo à ordem pública, com palavra fácil e fluente, tem grandes recursos oratórios, é arrojado e de fértil fantasia”.

Dom Joaquim pediu explicações a padre Agenor, que assim respondeu: “Serei sempre revolucionário do bem, enquanto não vir o respeito dos fortes para com os fracos, a condescendência dos poderosos para com os humildes, a complacência dos ricos para com os pobres, a paz dos perseguidos contra a fúria dos perseguidores. Serei sempre revolucionário, enquanto houver na minha paróquia o ódio e a vingança, a perseguição e a calúnia, o orgulho e a prepotência!”.

Foram sermões desse padre que o menino Deonísio ouviu muitas vezes no colo de seus pais. E certamente o padre e todo o contexto lhe influenciaram o destino! (fim)