NOSSA OUTRA LÍNGUA

HISTÓRIA DE CADA UM

Como as palavras, cada um de nós tem sua história. Pergunto a cada leitor: qual é a sua?

Quanto a mim, tudo começou em Siderópolis (SC), que mudou de nome. Chamou-se originalmente Nova Belluno. Os imigrantes italianos, saudosos da terra natal, davam o nome da localidade de onde tinham vindo, acrescentando o adjetivo “nova” na frente do nome. E assim sugiram Nova Trento, Nova Veneza etc. E Nova Belluno.

Belluno é uma palavra de origem etrusca. Virou “Béllum” (guerra), em Latim, depois “bellúm” no Latim vulgar, e “Bellún” no dialeto Vêneto. Província e cidade têm o mesmo nome. A cidade fica a 100 km de Veneza e tem hoje 36 mil habitantes.

Quando o governo Getúlio Vargas instalou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Nova Belluno, os engenheiros mudaram o nome do então distrito de Urussanga para Siderópolis, do mesmo étimo de siderurgia, o Grego “síderos”, ferro.

Urussanga veio do Tupi-guarani, uma junção de muitas línguas indígenas, e quer dizer Riacho dos Pássaros.

Acontece que ao passar para o Latim, “sideris”, declinação de “sidus”, ferro, ensejou novo significado, como é fácil comprovar na expressão “espaço sideral”.

Quando os meteoritos conseguem chegar à Terra e são encontrados – podemos ver isso em museus -, comprovamos que eles são feitos de ferro.

Meu pai, um Correia da Silva, cujos ancestrais eram de Canela (RS), que se casara com uma Da Boit, família italiana, chegou a Siderópolis, ex-Nova Belluno, atraído pelas novas oportunidades de trabalho da CSN.

Eu fui o primeiro de seus filhos a nascer ali. Fui batizado pelo padre Agenor Neves Marques (morreu em 2006), autor do livro “Catequista Ideal”.

Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 24 de agosto de 1954, nós já morávamos em Jacinto Machado, o novo nome que Volta Grande recebera para homenagear o brigadeiro Jacinto Machado Bittencourt, comandante militar que lutara na Guerra do Paraguai.

Lá ficamos sabendo que padre Agenor tinha sido denunciado ao arcebispo de Florianópolis, Dom Joaquim Domingues de Oliveira (morreu em 1967), como incitador das greves e revoltas dos mineiros na terna luta capital x trabalho.

A denúncia: “é elemento perigosíssimo à ordem pública, com palavra fácil e fluente, tem grandes recursos oratórios, é arrojado e de fértil fantasia”.

Dom Joaquim pediu explicações a padre Agenor, que assim respondeu: “Serei sempre revolucionário do bem, enquanto não vir o respeito dos fortes para com os fracos, a condescendência dos poderosos para com os humildes, a complacência dos ricos para com os pobres, a paz dos perseguidos contra a fúria dos perseguidores. Serei sempre revolucionário, enquanto houver na minha paróquia o ódio e a vingança, a perseguição e a calúnia, o orgulho e a prepotência!”.

Foram sermões desse padre que o menino Deonísio ouviu muitas vezes no colo de seus pais. E certamente o padre e todo o contexto lhe influenciaram o destino! (fim)

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