OS NOVOS JECA-TATUS

DEONÍSIO DA SILVA º

Jeca Tatu estreou sem hífen no jornal O Estado de São Paulo (edição de 23.12.1914) em narrativa curta de Monteiro Lobato intitulada Urupês, plural de urupê, nome dado pelos índios ao fungo orelha-de-pau, capaz de agarrar-se a uma árvore e matá-la.

Não confundir com orelha-de-burro, orelha-de-onça, orelha-de-cutia, orelha-de-gato, orelha-de-macaco, orelha-de-negro, orelha-de-porco, orelha-de-rato, orelha-de-urso, orelha-de-veado e orelha de onça, sem hífen (muda de café ainda nova).

Seu nome científico é “Polyporus sanguineus”. Sim, em latim, esta língua morta sem a qual não vivemos, assim como o grego clássico, igualmente morto. A vida inclui a morte. Você tem mortos queridos nos cemitérios, e nossas bibliotecas, filmotecas, discotecas, mapotecas, pinacotecas etc. estão repletas de outros mortos, alguns deles seus ancestrais, ainda que longínquos. Mas, você sabe, muitas coisas que vêm de longe nos afetam muito, não apenas os vírus. Com as duas línguas mortas, o Latim e o Grego, damos nomes ao COVID-19, aliás: “Coronavirus disease”.

José Bento Renato Monteiro Lobato (Hebraico e Latim no nome) trazia uma visão crítica e depreciativa do caboclo brasileiro, em tudo contrária à visão romântica e às vezes muito enganadora dos modernistas, que, sendo urbanos, desconheciam a realidade do interior do Brasil, na qual  Monteiro Lobato era doutor. Ele plantava, colhia, criava animais etc., pois era fazendeiro e agropecuarista. Mas gostava de escrever sobre o que conhecia e pagou caro por isso, uma vez que estava cercado de turbas de ignorantes.


Dali a quatro anos, em 1918, veio o livro com o mesmo titulo. E seu personagem principal, Jeca Tatu, foi parar nos dicionários onde está até hoje, com hífen, jeca-tatu, para designar o caboclo, que, reduzido para jeca, designa a pessoa grosseira, cafona, ridícula. De mau gosto, sobretudo no vestir.

Você sabe, no Brasil não ter biblioteca ou não comprar livros não é cafona, as pessoas, ricas ou pobres, gastam proporcionalmente muito na aparência e pouco na leitura. Mas nunca pedem ao governo para lhes dar roupa, calçado, rímel, batom, cosméticos etc. de graça ou subsidiá-los. Só querem quase de graça livro, teatro, cinema, shows etc. Isso, porém, é outro assunto.

Entre 1993 e 2000, dirigindo a Editora da UFSCar, encontrei uma aluna que tinha um exemplar do Almanaque do Jeca Tatu, que Monteiro Lobato elaborara em 1924 para que seu amigo, o farmacêutico Cândido Fontoura Silvestre, distribuísse gratuitamente junto com um vidro do fortificante Biotônico Fontoura, que ele inventara em 1910, aos 25 anos. Por problemas de copyright não conseguimos publicar uma nova edição do da obra, revista e comentada.

Monteiro Lobato foi perseguido, chegou a ser preso, bradava sempre “o petróleo é nosso”, para que, já independente politicamente, o Brasil obtivesse também sua independência econômica.

Já personalidade solar de nossas letras, com Urupês de obra de referência , foi candidato à Academia Brasileira de Letras e perdeu as eleições para Eduardo Ramos, que jamais publicara livro nenhum. A galeria dos escritores que lá não estão, por terem sido recusados ou por não querer de jeito nenhum entrar, resulta numa plêiade de autores de obra extraordinária, de que são exemplos Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Lima Barreto, Erico Verissimo, Mário Quintana, Salim Miguel, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Márcio Souza etc., sendo que este etc. pode incluir autores de obras de qualidade superior à da maioria dos que lá estão. Porque, como num hospício, muitos dos que lá estão não são, e outros, que são lá não estão.

No dia 4 de julho de 1948, quando os EUA celebravam mais uma vez sua independência, que lá foi também econômica, Monteiro Lo­ba­to morreu. Dois dias antes ele dera a última entrevista de sua vida, encerrando-a com o mesmo brado retumbante: “O pe­tróleo é nosso”! Já tivera tempo de reconhecer alguns de seus não menos famosos enganos, como convencer-se ou ser convencido de que o motivo profundo da inércia de seu Jeca Tatu não era a preguiça, era uma doença que podia ser curada.

A morte foi noticiada pelo Repórter Esso, na voz de He­ron Domingues: “E a­gora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande es­critor e patriota Monteiro Lobato!”.

Mais de 70 anos depois, os jeca-tatus tomaram conta do Brasil e vêm elegendo seus semelhantes. Ah, sim, e tomaram conta também das redes sociais. Exercem ademais um direito adicional curioso, além de votar, prática que talvez os ensine a escolher melhor os governantes, evitando ladrões e ignorantes nas esferas do poder.

Atualmente, os jeca-taus são eletrônicos, desprezam o campo, a pecuária, enfim, o agronegócio, e querem ensinar o que não sabem nas redes sociais, suas novas árvores repletas de urupês em cujos arredores eles fazem seus casebres, agora chamados perfis.

* professor e escritor, autor de “Avante, soldados: para trás”, “Stefan Zweig deve morrer” e “De onde vêm as palavras”, entre dezenas de outros livros.

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