IRACEMA E CAPITU

DEONÍSIO DA SILVA *

Olhem só como escreviam de modo diferente dois escritores clássicos. Um, fala de Iracema; outro, de Capitu.

Das personagens femininas do cearense, mirantes privilegiados para avaliarmos o desempenho narrativo dos romancistas do período, guardamos dotes físicos, de que é exemplo referencial a sua Iracema: “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.” (Deixemos de lado a polêmica: “além daquela serra”, ficaria o Piauí, não o Ceará, tese defendida da tribuna do Senado há alguns anos!)

Tomemos agora o caso do carioca. Sua personagem mais lembrada é Capitu. E que guardamos dela? Sim, sabemos que Capitu é morena, tem apenas catorze anos nos primeiros capítulos, é “alta, forte e cheia”, parece “apertada em um vestido de chita, meio desbotado”, tem “cabelos grossos, feitos em duas tranças”, “olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, boca fina e queixo largo” e que “as mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula”. Todavia o que guardaremos para sempre é que tinha “olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada.”

* escritor e professor, Doutor em Letras pela USP.

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