Artigo: O vírus que veio de longe

Epidemias, pandemias e democracias são periódicas no Brasil e no mundo.

Por DEONÍSIO DA SILVA *

O Globo, 23.03.2020

Epidemia, pandemia, democracia. Não confundir a segunda e a terceira com pandemônio, palavra que o poeta inglês John Milton, secretário de Línguas Estrangeiras, criou no Século XVII para designar o Palácio de Satanás no famoso livro “Paraíso perdido”.

Epidemia afeta apenas algumas regiões. Pandemia afeta o mundo todo. Epidemias, pandemias e democracias são periódicas no Brasil e no mundo. Vão e voltam, às vezes muito disfarçadas e quase irreconhecíveis.

 Desta vez veio da China, com escalas em outros países antes de chegar ao Brasil, o vírus mais temido hoje no mundo, batizado pelos cientistas por Sars-CoV-2 (abreviação em inglês de Síndrome Respiratória Aguda Grave-Coronavírus-2), causa da doença designada por   Covid-19, abreviação em inglês de Coronavirus Disease 2019, ameaçando levar meio mundo para a cova. São velhos conhecidos dos cientistas, agora em edições  revistas e ampliadas

Também seu nome veio de longe. Somos filhos das antigas Grécia e Roma, não saímos do mundo greco-latino e ele não sai de nós. Corona e vírus são palavras latinas, coroa e coisa nociva, respectivamente, e disease, grega, significando doença, do latim vulgar dolentia, que dói, que o latim culto designava por morbus, e está  no português morbidez, mórbido. É do mesmo étimo de mordere, morder no sentido de matar, causar dano.

As palavras também têm suas biografias, autorizadas e não autorizadas, e ambas esclarecem muitas coisas. Vírus veio do latim virus, sumo de plantas prejudicial à saúde. Os antigos gregos o chamavam iós, veneno, e o tomaram da raiz indo-europeia weiss, fluir, escorrer.

Entre as voltas que as palavras dão, vírus já foi sumós, não um veneno, mas um caldo escuro, mélassumós, feito com carne de porco fervida no sangue do animal, temperada com azeite e vinagre. Muito apreciada pelos soldados espartanos, a sopa foi servida a seu senhor em Roma por um escravo que tinha sido cozinheiro em Esparta. “Agora sei por que eles não temiam a morte”, disse ele ao experimentá-la e cuspir.

Hoje, a ciência reina soberana, mas já houve muitas explicações estapafúrdias. Demócrito e Aristóteles, entre outros, defendiam a geração espontânea. Eles davam o exemplo da carne podre, de onde nasciam moscas. E a humanidade acreditou nos imaginosos gregos por dois milênios.

No Século XIV, ainda vigorava a crença popular de que árvores à margem de rios e lagos davam gansos, e outras à beira de pastos davam melões recheados de carneiros. No século XVI, o cientista Paracelso concluíra que sapos, ratos, enguias e tartarugas podiam nascer da água, de madeira podre, de montes de palha etc.

Entre os séculos XVI e XVII, o cientista holandês Jan Baptista van Helmont, contestando as dúvidas de Thomas Browne sobre a geração espontânea, deu até uma receita para produzir camundongos: manter num recipiente aberto uma camisa suja de suor e algumas sementes de trigo. Em três semanas nasceriam ratos.

Mas no século XVII o italiano Francesco Redi provou que os vermes só apareciam na carne podre se esta tivesse tido contato com moscas vivas. Quando o francês Louis Pasteur e o inglês Thomas Huxley, ambos no século XIX, pesquisavam a miúda bicharada das bactérias, já sabiam que era impossível a abiogênese: do Grego á, sem, + bíos, vida, + génesis, criação, então definida como um princípio ativo.

Ativos, de fato, eram e são os vírus. O vírus deixou de ser sumo, suco ou veneno depois que em 1892 o russo Dimitri Ivanovski mostrou que havia seres ainda menores do que as bactérias de Pasteur, por cujo filtro de porcelana eles passavam e se reproduziam nas células.

Pasteur adotara “bactérie”, bactéria, como a chamara em francês o alemão Christian Gottfried Ehrenberg, adaptando-a do grego bakteria e do latim bacterium, nessas duas línguas designando apenas bastonete, pela forma de bastão dos micro-organismos. Também o coronavírus recebeu seu nome pela aparência de coroa que o vírus tem.

Hoje, nem sopa nem veneno, os vírus parecem ter encontrado o eterno retorno e sempre voltam mudados e mais fortes. O mais terrível voltou rei: coronavírus. E já tem sucessor: o novo coronavírus. A vida é luta renhida contra ele, viver é lutar.

Deonísio da Silva é professor e escritor

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