O PRIMEIRO ACIDENTE DE TRÂNSITO FOI OBRA DE ESCRITORES

LÍNGUA PORTUGUESA

“Flores e desastres do português”, copyright Jornal do Brasil, 25/05/03

“Nossa língua portuguesa foi concebida em célebre poema de Olavo Bilac como a “última flor do Lácio, inculta e bela” e “ouro nativo”, além de “esplendor e sepultura”.

Pasquale Cipro Neto, dedicado professor e homem de letras, mantém coluna semanal sobre temas e problemas de nosso idioma, ensinando a norma culta em espaço semelhante a este nosso Língua Viva. Lá, Inculta e bela. Não somos concorrentes e nem adversários. Somos aliados. E estamos interessados em atingir objetivos semelhantes, cada qual ao seu estilo e à luz das especificidades de nossos respectivos ofícios.

Semana passada, aliás, na Bienal do Livro, no Rio, os organizadores puseram-nos frente ao distinto público de um Café Literário, de que participaram também Reinaldo Pimenta e Sérgio Nogueira. Tivemos todos um agradável convívio, à entrada e à saída dos debates, o que, convenhamos, não é muito usual entre intelectuais e professores.

Embora nosso preparo físico fosse ligeiramente superior ao dos ministros do presidente Lula, alguns dos quais marcam passo e dão maus passes nas peladas do paço, foi-nos providenciado um veículo pequeno que vem substituindo a maca nos campos de futebol e em recintos reservados a eventos, como era o caso.

Ainda assim, pareceu-me que já chegávamos estropiados, precisando de maca, palavra de origem controversa, provavelmente com raízes no baixo alemão Hangmat, que na língua culta equivaleria a Hängematte, tapete suspenso. Fez escala no espanhol hamaca, rede estendida entre duas árvores. Tendo servido de cama, passou depois a ser utilizada como veículo para transporte de doentes e feridos. Nos países tropicais, a maca é a liteira dos pobres. É muito conhecida nos campos de futebol, servindo para retirar o atleta que, machucado, não pode locomover-se por seus próprios meios. Jogadores fingidos, quando postos sobre a maca motorizada, parecem à beira da morte. Uma vez retirados do gramado, saltitam alegremente, pois foram curados no trajeto. Pois nós também saltamos, recebemos alta daquela ambulância e fomos ao trabalho.

Nosso tema era a origem de palavras e de expressões que se consolidaram de tal modo em nossa língua, a ponto de algumas delas servirem de vinhetas na imprensa, de que é exemplo o famoso verso “última flor do Lácio, inculta e bela”.

As vinhetas são assim chamadas porque os monges medievais enfeitavam seus escritos com desenhos de folhas e de cachos de videiras. No latim, videira é vinea. No francês, filho do latim, vinea tornou-se vigne. E a pequena vigne, vignette, que se tornou vinheta, no português. As vinhetas, antes de migrarem para a escrita, estavam em móveis e louças, onde, aliás, ainda permanecem.

Os leitores, repartidos, detestam ou veneram Olavo Bilac. Integro o segundo lote. Textos de pouca ou nenhuma isenção ideológica lembram com surpreendente obsessão que o conhecido escritor brasileiro inventou o livro didático e o serviço militar, ambos obrigatórios, ainda que o primeiro apenas para os homens. Mais cívicos, outros lembram que é autor de nosso Hino à Bandeira. A Bíblia já avisou que o justo sofre na boca dos ímpios. Mas os tempos mudam e quem hoje é ímpio, amanhã pode ser considerado justo e vice-versa. De todo modo, os ímpios hodiernos, quando referem Olavo Bilac, dão-no apenas como o autor do primeiro desastre de automóvel no Brasil.

E eis um caminho que se bifurca. Desastre veio do provençal antigo desastre, passando pelo francês désastre e pelo italiano disastro. Em todas as línguas citadas, designava originalmente desvio da rota do astro ou ?contra os astros?, dada a enorme influência da astrologia em tempos remotos. Os antigos pensavam que as grandes desgraças e calamidades decorriam de desordens entre os astros, impedidos momentaneamente de zelar pelas coisas terrenas. E não recolhiam impostos para tais proteções. É, mas não vivemos no Céu. Vivemos na Terra. E aqui há impostos e desastres. Não deixa, porém, de ser poética a designação de desastre.

Uma curiosidade marca o primeiro deles no Brasil, envolvendo dois escritores: o poeta Olavo Bilac pediu emprestado o automóvel de José do Patrocínio e destruiu o carro do célebre orador abolicionista numa batida antológica. Ora, o chofer barbeiro – chofer passou a motorista – era poeta dos bons e seu nome completo formava um decassílabo: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. E a última flor é a língua portuguesa, a última das filhas do latim. É inculta por descuido de seus filhos, mas é bela porque todos reconhecem a delicadeza de suas expressões, principalmente na fala, dadas as contribuições que recebeu dos novos falantes de além-mar, no Brasil, como na África e na Ásia.

A região do Lácio, localizada às margens do mar Tirreno, na Itália, foi subjugada pelos romanos no século IV a.C. Uma boa mostra de quanto a última flor do Lácio continua inculta são os programas apresentados no rádio e na televisão no horário eleitoral gratuito, no varejo e no atacado. E outros exemplos – no caso, maus exemplos – procedem de muitos de nossos parlamentares, desde há alguns anos cada vez mais expostos em programas de televisão de responsabilidade de assembleias estaduais e de câmaras de vereadores. E principalmente na TV Senado! Não será o caso de estipular algum tipo de sanção para a falta de decoro no trato com o instrumento por excelência do exercício de suas funções? Afinal, além de maltratar a língua-mãe, cometendo crimes de lesa-língua, fazem isso impunemente, em nome de milhões de brasileiros, a quem representam nos parlamentos.”

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