IONESCO E A ARTE MALANDRA DE ENGANAR OS OUTROS

por DEONÍSIO DA SILVA *

Nesses dias estive relendo O RINOCERONTE, do romeno Eugène Ionesco. Era professor de francês (professor doutor) e achava absurdas as frases para se aprender uma nova língua. Abominava também o teatro: “Fingimos todos os dias em todas as situações, para que fingir no palco também?”.

Um dia, em 1949, ele estava com 39 anos, tudo mudou. Tirou frases de seu primeiro livro, “Inglês Sem Dor” (Anglais Sons Peine), mostrando como eram absurdas, ao levá-las para seu primeiro texto de teatro, “A Cantora Careca” (La Cantatrice Chauve, 1950).

O Sr. e a Sra. Smith, principais personagens da peça, conversam assim: “Quantos são os dias da semana? Os dias da semana são sete”. “E como se chamam?” “Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira,
sábado e domingo”. “Que coisa inacreditável!”

Frequentemente, Ionesco ia aos jornais defender sua própria obra, coisa que não fazemos diante dos absurdos da mídia BRASILEIRA, que há mais de vinte anos nos apresenta autores medíocres como se fossem gênios e colunistas que não seriam aceitos por nossos editores de revistas de grêmios literários por não saberem PORTUGUÊS.

Se você escreve, o requisito é dominar a língua, assim como para pintar deve saber manejar pincéis e tintas, e para filmar entender de câmera, enfim as coisas tão óbvias foram esquecidas, chegando ao ponto de nas UNIVERSIDADES um grupo de atores cutucar o fiofó uns dos outros e chamar isso de teatro, arte e outras coisas dignas e elevadas nas quais a Humanidade se esmera há milhares de anos.

Se você, porém, manifesta esta inconformidade básica, passa a ser suspeito para essa “burritzia” encastelada em seus costumeiros tugúrios, que dominam há décadas e ampliaram muito com as redes sociais.

Eles dividiram nosso mundo, repleto de complexas sutilezas, em dois: o deles e os mundos dos outros, para eles todos agrupados num só: são aqueles contra os quais eles se insurgem, sentados, manipulando teclados como se tivessem o poder de antigos feitores e tivessem na mão chicotes e não teclados.

Os caras se orgulham de ter milhares de seguidores. O Brasil inteiro não tem em leitores o número de seguidores de um único “youtuber”. Usar esse critério seria como você escolher mel pela quantidade de abelhas que te deram ferroadas. Mas, como ensina o Talmud, nunca se esqueça de que a abelha tem mel e ferrão. E nós também!

Mas, lembrai-vos, nem sempre foi assim…E provavelmente depois do coronavírus jamais será.

* escritor e professor, autor de “Stefan Zweig deve morrer” e “Avante, soldados: para trás”, entre outros livros.

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