TRIO ELÉTRICO VERBAL

Deonísio Da Silva *

A habilidade verbal é marca registrada do brasileiro. Gostamos de conversar, a boa prosa nos fascina.

De repente, porém, a infantaria da língua portuguesa começou a sofrer ataques maciços de uma estranha e abrutalhada cavalaria que arrasa a beleza e a cordialidade de nossas conversas ao telefone.

O tormento atual é um insólito gerúndio acoplado ao indicativo e ao infinitivo.

Mas os abusos começaram antes.

Depois de insondáveis diálogos com uma gravação, o cliente ouve, enfim: ‘digite nove para falar com um de nossos atendentes’. ‘Pois não’. ‘Preciso falar com quem decide’. ‘Quem gostaria?’ ‘Como, gostaria?’ ‘É, o senhor, enquanto cliente, gostaria de falar com quem?’ ‘Enquanto ainda nos entendemos, quero dizer que sou cliente de vocês há décadas, mas já faz bastante tempo que não consigo falar com ninguém. Quem sempre me atende é uma gravação. E se eu fizer o mesmo quando vocês ligarem para mim? Deixaremos as máquinas conversando isoladas em seus solilóquios?’

‘Desculpe, senhor, o senhor quer falar com quem?’ ‘Com quem decide. Com o chefe, o gerente, o supervisor, o capataz’.

O cliente sabe que muitas empresas brasileiras não substituíram o capitão do mato. Substituíram seu instrumento de castigo. Em vez do chicote, o computador ou o telefone, quando não os dois combinados.

‘E quem gostaria de falar com ele, por favor?’ ‘João.’ ‘João de onde?’ ‘De São Paulo’. ‘Um momento, por favor, que eu vou estar encaminhando a sua ligação.’

A mão de obra é um dos grandes problemas nacionais. E nesses tempos em que as empresas transformaram o telefone em ferramenta de trabalho, as deficiências no domínio da língua portuguesa irritam demais os cidadãos.

A culpa é do invento de Graham Bell? Não. O brasileiro e o telefone se entendiam bem, desde que Dom Pedro II experimentou o aparelho apresentado pelo célebre físico e professor de surdos-mudos.

É uma pena que não tenhamos gravado certas conversas. Não a do alto funcionário do Palácio do Planalto com o famoso bicheiro cujo nome o humor de Elio Gaspari transformou no neologismo ‘Charlie Waterfall’ (Carlinhos Cachoeira), mas a prosa amena que poderia levar a certas antologias.

Não seria delicioso ouvir os melhores telefonemas de Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende, por exemplo? A tarefa poderia ter sido atribuída à escritora Edla van Steen, responsável por antológicas coleções de contos, poemas e crônicas.

A utilidade e o prazer da conversa ao telefone viraram um tormento. Por que perder tempo em indagar de onde a pessoa ligou, ainda mais nesses tempos em que a ligação é indexada e o destinatário, ainda antes de atender, sabe, não apenas a localidade, mas também o número do telefone de quem ligou?

Este tipo de sigilo tornou-se impossível. O número é identificado assim que o telefone toca.

Atendentes de diversas empresas e, o que é mais grave, funcionários públicos, amontoam numa única sentença o presente do indicativo, o infinitivo e o gerúndio para formar este inusitado trio elétrico verbal que dá choques incríveis no interlocutor.

A atendente ‘vai estar encaminhando a reclamação’ de João, ‘enquanto cliente’ e ‘a nível de diretoria’. Mas assim que abre a boca, põe o gerúndio em má companhia.

O escritor Eliziário Goulart Rocha foi um dos primeiros a registrar a perplexidade. ‘Num mero pedido de pizza, ouvimos: vamos estar entregando’.

Se a língua portuguesa for eliminatória para candidatos a algum emprego que requer o uso do telefone, haverá menos trabalho para excluir os despreparados.

Se acoplarem indicativo, infinitivo e gerúndio numa frase só, o examinador ‘vai estar mandando os candidatos de volta para a escola’.”

* Publicado no Observatório da Imprensa.

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