O BUCENTAURO DA DOGARESSA

Em Portugal, algumas palavras que aqui não são palavrões, lá são. E outras que aqui são, lá não são.

Certa vez fui comprar um casaco para a minha mulher em Lisboa e a vendedora ofereceu-se para experimentá-lo, perguntando se seu corpo era parecido com o de minha então esposa.

Concordei. Ela ainda perguntou: “de bóias também somos parecidas?”. Devo ter dado ares de ignorar a palavra. Ela esclareceu: “como sua esposa é de catarinas?”.

A dona resolveu ajudar: “as tetinas de sua esposa são menores, maiores ou mais pequenas do que as da rapariga que está a experimentar o cabedal?”.

Arregalei os olhos e a simpática atendente ainda disse: “As maminhas dela são mais ou menos assim?” – e tomou os próprios seios nas mãos para explicar.

Assenti e balbuciei um duplo “sim”, já meio envergonhado. Ela vestiu o casaco, olhou-se de perfil no espelho e, virando a cabeça para mim, puxou a parte de trás da veste e deu o fecho final no diálogo: “Este lhe cairá bem, pois cobre-lhe bem o rabo”.

Este diálogo seria impossível sem risos no Brasil. Mas eis que, para ilustrar palavras de uso frequente no Português e outras de uso raro, numa recente aula à distância recorri a dois escritores e jornalistas que sempre tiveram notável domínio de nossa língua.

Um deles é Carlos Menezes, já falecido, autor de “Elesbão, o bleso”, que escrevia em “O Globo”. “Elesbão sofria de ofíase e criava em casa um gimnuro”.

Outro é Carlos Heitor Cony, que escreveu muitos anos na “Folha”.

Era cheio de verve e tínhamos vários pontos em comum, entre os quais os anos de seminário. Dele reli recentemente “O harém das bananeiras”, de crônicas.

A uma delas comparecem um doge e uma dogaressa que, recém-casados, navegam pelo mar Adriático num bucentauro.

Pois é. Dogaressa é feminino de doge. E o bucentauro é semelhante ao centauro, com a diferença de que a metade do corpo é de boi, não de cavalo. Dá nome a embarcação luxuosa ainda existente em Veneza. “Boûs” é boi ou touro em Grego.

Que depois de tais explicações, a dogaressa navegue alegremente no bucentauro.

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