HISTÓRIA DAS BEBIDAS

Tom Standage faz uma história do mundo em seis bebidas (está no kindle; e na Zahar desde 2005): cerveja, vinho, café, chá, destilados e Coca-Cola. Marco Neves fez uma bonita coluna sobre o tema, que se tornou assunto para mim também. Vejamos.

As bebidas definiram políticas e práticas sociais. A descoberta da cerveja na Mesopotâmia alterou a agricultura e demandou a escrita entre as tribos nômades que ali se estabeleceram.

O vinho surgiu no apogeu da civilização greco-romana. De porre, conceberam religião, direito, tribunais, cultura.

Os destilados e o chá mudaram as metrópoles europeias, e as revoltas contra os impostos sobre eles trouxeram guerras, inclusive a da independência dos EUA.

O aroma e o sabor do café, bebida de místicos árabes considerada coisa do Demônio, encantaram até o papa Clemente VIII, que o liberou depois de tomar cafezinhos enquanto queimava Giordano Bruno.

Os cafés públicos reuniram milhares de pessoas, foram ambiente propício a novas ideias e instituíram o primeiro Facebook, onde hoje só bebemos sozinhos, cada qual na sua casa.

A Coca-Cola hoje domina o mundo. Tornou-se um ícone da globalização, é consumida na URSS e na China, outrora símbolos da oposição aos EUA.

Temos ainda as primeiras bebidas da Humanidade: o leite e a água potável.

Rios trouxeram os rivais e a rivalidade, cujo étimo latino é “rivus”, o vulgar que substituiu o “flumen”.

E não nos esqueçamos dos sucos. Voltaremos ao assunto.

VIDA DE ESCRITOR (1)

O escritor Rubem Fonseca e eu caminhávamos por Ipanema. Certa moça não parava de olhar para ele numa farmácia. Ele me acompanhou para comprar neosaldina, que nesse tempo eu não tomava, comia.

Eu já sabia que Rubem não gostava de ser identificado. Senti receptividade no olhar dela e disse:

“A senhora está comprando um creme de eficiência comprovada. Meu amigo aqui, o Dr. Araújo, dermatologista, sabe tudo dessas coisas que eu ignoro. Dessas e de outras”.

Rubem Fonseca arrebatara o prêmio Status de Literatura com o pseudônimo Dr. Araújo, fazia mais de vinte anos.

E ela, dirigindo-se a Rubem,no carregado dialeto do Rio no erre francês e no esse lisboeta: “Ah, o senhor é dermatologista?”.

E ele: “sim e tenho um sócio que nos traz a maioria dos clientes”.

A conversa era nonsense total. Meio desconfiada, ela aceitou o convite para ser apresentada ao sócio.

“Ele está ali fora”, disse Rubem. “Aqui, ele não entra”. A moça que atendia quis saber por quê.

Eu disse: “O sócio dele não entra em farmácia, igreja, açougue, desses lugares ele não gosta”.

A atendente ficou desconcertada na sua cara de espanto: igreja, farmácia e açougue, o que teriam de comum?

Na calçada, Rubem Fonseca mostrou seu sócio à moça, apontando para o Sol, que brilhava lindo no céu da pátria aquele instante. E em todos os outros de um dia de verão no Rio, e para todos, sobre bons ou maus, sabemos desde o Eclesiastes.

Viveu bem até o fim, e não morreu de Covid-19, mas de infarto. Não fumava, não bebia nada com álcool e não tomava mais café. Mas gostava muito dessas três coisas.

Bebi vinho, fumei charuto e tomei café em sua companhia, menos vezes do que gostaria. “A Barra da Tijuca fica no além-túnel”, diz outro querido, o embaixador João Clemente Baena Soares : “A gente nem sabe se há vida lá, só sabe que o Deonísio mora naquele subúrbio”.

Muitas saudades do meu querido amigo, amigo desde que o conheci, em 1973. Faz tempo e ele partiu em abril de 2020, a poucas semanas de completar 95 anos. Mas não morreu de Covid-19, morreu de infarto.

LÍDERES IDOSOS VENCERAM A II GUERRA

O FUTURO NÃO ABRE A PORTA ANTES DA HORA

por Deonísio Da Silva

Por que eu perderia para um bêbado, um cotó e um aleijado?”.

Fevereiro de 1942. Adolf Hitler, então com 52 anos, era vegetariano, não fumava, estava com saúde de ferro e se referia aos líderes das três grandes potências que enfrentavam a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

O bêbado era Winston Leonard Spencer-Churchill, de 68 anos, primeiro-ministro inglês, um carnívoro, na verdade onívoro, que bebia e fumava. Aliás, posava para fotos de charuto aceso.

Com o braço esquerdo mais curto do que o direito por causa de um ferimento ocorrido em seus verdes anos, comendo, bebendo e fumando muito, o cotó era o georgiano Iossif Vissarionovitch Djugatchvli, mais conhecido pelo pseudônimo de Josef Stalin, de 63 anos, supremo comandante da Rússia, depois União Soviética.

O aleijado era o presidente dos EUA, o norte-americano Franklin Delano Roosevelt, de 60 anos, que usava cadeira de rodas ou era carregado por assessores por causa de uma poliomielite contraída aos 39 anos

Quando a famosa frase foi proferida, já fazia três anos que Hitler assustava o mundo inteiro com suas vitórias retumbantes. Naquele mesmo mês, aliás, vivendo refugiado em Petrópolis, no Rio, o escritor judeu-austríaco Stefan Zweig morria em companhia de sua amada Lotte, num duplo suicídio que sempre me pareceu duplo assassinato.

Tais curiosidades vêm muito a propósito. A mídia e os institutos de pesquisa anunciam um dom que não têm, o da profecia. Já erraram feio outras vezes.

Três idosos: um bêbado e dois aleijados lideraram a vitória

Nas guerras, como no futebol, o jogo só termina quando o juiz dá o apito final. Sim, este jogo também tem juiz.

MACHADO: ESCRAVA, BEBÊ E ABORTO

Em todas as escolas e universidades onde tenho ensinado, muitos alunos podem ter entrado sem ter lido Machado de Assis, mas nenhum saiu dali sem o ler.

E estava lembrando disso, hoje, quando passava pela Rua da Ajuda, que tem este nome por começar na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, ali perto. No Rio, é comum você perambular por onde andaram, devagar ou apressadamente. personagens de Machado de Assis.

Lemos em PAI CONTRA MÃE, a história de Cândido Neves, que, para livrar da Roda dos Enjeitados o filho recém-nascido, sai à caça de Arminda, uma escrava fugitiva.

“Reviu todas as suas notas de escravos fugidos . (…) Uma, porém, subia a cem mil-réis. (…) No extremo da rua, quando ela ia
a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela.

Era a mesma, era a mulata fujona. –Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio. Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era
já impossível.

Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

–Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! — Siga! repetiu Cândido Neves.

(…).
Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a
luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
(…)
–Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. — É ela mesma. –Meu senhor! –Anda, entra…

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,
levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
(…)

Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
–Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração”.

BOCETA NÃO ERA PALAVRÃO

Originalmente, boceta ou buceta designou caixinha feita de uma madeira chamada buxo, do grego “búxys”, pelo latim “buxus”.

Veja o mito da Boceta de Pandora, recipiente onde estavam guardados todos os males do mundo.

As mulheres gregas e romanas da Antiguidade usavam esse tipo de caixa para guardar suas joias e outras preciosidades.

No século XVIII, a vulva já era comparada a boceta, mas com este significado, a palavra só caiu na boca do povo (epa!) três séculos depois.

No Século XIX, com o antigo significado, aparece no romance “Helena “, de Machado de Assis, de sua fase romântica. Nada do segundo significado ainda.

Os homens também carregavam consigo uma pequena boceta com rapé. Era chique cheirar a boceta e espirrar.

Boceta em casa e no bolso, escarradeiras nas residências abastadas, nenhum cinzeiro, que só chegará mais tarde, quando bocetas e escarradeiras tinham ido embora. E agora o cinzeiro também está dando adeus e já sumiu de muitos lugares.

A história das palavras revela muito dos usos e costumes.

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Leia:
“…— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa
bocetinha de joalheiro.” (Helena, de Machado de Assis, capítulo XI).

ESTAR NA PINDAÍBA

De onde veio a expressão? Com a haste da pindaíba, a planta que dá também a fruta de mesmo nome, se faz vara de pescar.

Inclusive a pequena árvore frutífera (acho que é um arbusto) tem seu nome vindo do tupi “pindá”, anzol, e “yba”, vara.


Segundo o professor emérito da USP, Francisco da Silveira Bueno, que foi um dos maiores etimólogos do Brasil, a expressão estar na pindaíba vem da situação de miséria em que ficava o índio que não conseguia apanhar peixe, pois a pesca era um dos principais meios de sustento de muitas tribos.

Sua agricultura era incipiente. Viviam de caça e pesca. Sentir-se na pindaíba é estar reduzido àquele índio, com caniço e anzol, e sem pescar nada, também no sentido metafórico.

O verbete PINDAÍBA estará no meu livro “De onde vêm as palavras”, 18a edição, http://www.almedina.com.br e http://www.almedina.net

CARNAVAL: O PRIMEIRO AUTORIZADO

Foi o papa Paulo II quem, no Século XV, redimiu o Carnaval para a Igreja e assim espalhou os festejos por todo o mundo cristão.

Sucedendo ao tio, Pio II, em descarado nepotismo, assumiu o trono de São Pedro, mas não sua homossexualidade, que continuou a exercer nos bastidores e concordou entretanto em levar adiante dois projetos que não cumpriu: combater os turcos e convocar um concílio.

Em vez disso, liberou o Carnaval, palavra que tinha ido do latim “carrus navalis” e agora voltava do italiano “carnevale” disfarçada de penitência na expressão “carne, vale “, adeus, carne, pois a comilança, a luxúria e outros prazeres seriam temporariamente suspensod ao “introitus”, entrada, da “quaresima”, na pronúncia vulgar do clássico “quadragesimam diem” , quadragésimo dia, antes da Páscoa, que resultaria em entrudo e quaresma no português.

Sobrinho de outro pontífice, tornara-se cardeal aos 22 anos. Nascido em Veneza, então matriz do carnaval italiano, usava tantas joias e enfeites de metal que num inverno muito frio morreu de pneumonia.

Seus costumes peculiares, a vivência veneziana e também sua juventude por certo influenciaram sua decisão. (…)

No primeiro Carnaval autorizado pelo papa, proliferaram as alegorias, as comparações, as corridas de corcundas e de anões, os atos de jogar farinha e ovos uns nos outros etc., que perduraram por séculos!

A sátira também teve seu lugar. Rainhas, princesas e outras autoridades eram representadas por célebres beldades, como as prostitutas mais conhecidas e devidamente disfarçadas no meio de mulheres virtuosas, sem excluir os bobos da corte, também misturados a outros bobos, tratados como reis nos desfiles.

Até clérigos se misturavam à multidão vestindo suas roupas litúrgicas de trás pra frente, debochando dos superiores, carregando missais virados, desde que com o rosto devidamente disfarçado por trás de máscaras, pois nos dias seguintes rezariam missas, atenderiam confissões, enfim voltariam a ministrar os sacramentos.

O recurso das máscaras permitiu, como já acontecia em Veneza, que os nobres matassem a vontade de se divertir e se misturassem ao povo. Afinal, uma das coisas que o povo sempre fez melhor do que aqueles que o dominaram foi divertir-se.

Paulo II foi sucedido por Sisto IV, que contratou Michelângelo e fez a Capela Sistina. Foram dois estilos de governar que podemos avaliar pelos respectivos resultados.

QUARESMA E MARACUJÁ: POR QUE VINCULADOS?

O jornalista Ricardo Boechat e eu criamos o programa semanal de rádio “Sem Papas na Língua” em 2011. Desde então vai ao ar cinco vezes por semana na rede Bandnews FM.

Dia 18/2/2021, dei a
origem da expressão “arcar com as consequências” e das palavras “quaresma” (não são 40 dias, como indica o étimo, é número simbólico) e da bonita vinculação da flor branca e roxa do “maracujá”, comida na cuia, em tupi, pela formação mara (alimento) + cuya (recipiente) com os sofrimentos da Paixão, incluindo a semelhança das anteras com os espinhos da coroa imposta a Jesus por deboche adicional daqueles que O crucificaram.

Maracujá é fruto, mas não é fruta. Fruta é o fruto comestível. Nem todo fruto é fruta, mas toda fruta é fruto.

Esta distinção foi feita mais na fala do que na escrita. Fruta formou-se no latim vulgar do plural neutro de “fructum” (no latim culto, “fructum ” era e é “fructus “), resultando em “fructa”, depois “fruita” até consolidar-se em fruta, o fruto que se come na natureza, sem preparo algum.

A oração da ave-maria usa o latim culto em bela metáfora: “benedictus fructus ventris tui” ( bendito o fruto de teu ventre).

Para ouvir a coluna, clique aqui: http://bandnewsfmrio.com.br/colunistas-detalhes/deonisio-da-silva

PRESO NO ALEMÃO COM OS CANGURUS

Ricardo Boechat e eu rimos muito e divertimos os ouvintes no dia em que comentamos na Bandnews FM um suposto livro que ensina alemão.

O livro nos conta que os cangurus (Beutelratten) são capturados e colocados em jaulas (Kotter) cobertas de um tecido (Lattengitter), para abrigá-los do mau tempo.

Essas jaulas são chamadas jaulas cobertas de tecido (Lattengitterkotter). Assim que botam um canguru dentro delas, o bicho passa a ser identificado assim:Lattengitterkotterbeutelratten, canguru da jaula coberta de tecido.

Um dias os hotentotes capturaram um assassino (Attentater), acusado de ter matado uma mãe (Mutter) hotentote ( Hottentottermutter ), que tinha um filho tonto e gago (stottertrottel).

Essa pobre mãe se chama em alemão “Hottentottenstottertrottelmutter”. E seu assassino é chamado “Hottentottenstottertrottelmutterattentater”.

A polícia prendeu o assassino e o enfiou provisoriamente numa gaiola de canguru (Beutelrattenlattengitterkotter), mas o prisioneiro escapou.

As buscas mal tinham começado, quando surgiu um guerreiro hotentote, gritando:

— Capturei o assassino! (Attentater).

— Sim? Qual? — perguntou o chefe.

— O Lattengitterkotterbeutelratterattentater! — respondeu o guerreiro.

— Como assim? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tecido? — perguntou o chefe dos hotentotes.

— É, sim, é o Hottentottenstottertrottelmutteratentater (o assassino da mãe hotentote de um menino tonto e gago) — respondeu o nativo.

Ora , replicou o chefe, tu poderias ter dito desde o início que tinhas capturado o Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotter beutelrattenattentater.

Como se vê o alemão é uma língua fácil; basta a gente se interessar um pouquinho…

MACHADO, BORGES, PELÉ, MARADONA

Deonísio da Silva *

Os judeus têm a palavra haftará (permissão ou despedida) para designar trechos proféticos lidos nas sinagogas depois da Torá nas manhãs de sábado, do hebraico “xabbat”, descanso, cujo étimo está em sábado, que, ao lado de domingo, compõe a dupla que não sucumbiu ao “feira” de todos os outros dias.

A Lua, Marte, Júpiter, Mercúrio e Vênus foram substituídos por “feria secunda, feria tertia” etc., o que viria a dar no português segunda-feira, terça-feira etc. A mudança começou no século VI, na Galícia e em Portugal.

O primeiro registro de segunda-feira é a lápide de uma ermida trazida para a igreja de São Vicente, em Braga, cuja inscrição informa ter a defunta morrido a 1º de maio de 618, “dia de segunda-feira, em paz, amen”.

Abro esta conversa de sábado à la haftará porque um dos quatro personagens deste artigo fazia constantes referências à herança judaica do Ocidente, cuja evidência maior é best-seller número um do mundo, a bíblia.

Num texto muito curioso de “Otras Inquisiones”, intitulado “De alguien a nadie”, Borges diz que o sujeito da primeira frase do Gênesis é o plural Eloim (Deuses), ainda que o verbo esteja no singular: “No príncípio criou Deus os céus e a terra”. Leiam-se “Deuses”, pois foi Eloim o Criador.

Muito antes de Borges, o herege luso-brasileiro Pedro de Rates Henequim destacou que o Gênesis é claro com este plural: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Se é façamos, disse ele, é mais do que um.

Interrogado por diversos inquisidores, disse que as pessoas divinas eram sete, o Paraíso ficava no Brasil, o fruto do pecado original tinha sido a banana, e o idioma do Céu era a língua portuguesa. Foi executado em 1744, aos 64 anos.

Dá-se algo semelhante com as heresias ao redor de Jorge Luís Borges, Joaquim Maria Machado de Assis, Diego Armando Maradona e Edson Arantes do Nascimento, deuses nos respectivos ofícios, que e se tornaram incomparáveis mas há outros nas respectivas listas…

Não se discute qual dos deuses é mais importante, se Eloim, Jeová, Adonai, a Trindade, o Pai, o Filho ou o Espírito Santo. Ou por outros momesco pelos quais seja conhecido, como Alá. Mas dá-se o contrário no futebol e na literatura.

Nestas considerações, talvez o primeiro erro de nosso tempo seja a velocidade. E o segundo a falta de silêncio. Coisas da modernidade líquida de que falava o filósofo e sociólogo judeu-polonês Zygmunt Baugman.

Antes dele, o nosso Machado de Assis trabalhou com o mesmo conceito ainda no século XIX. E antes de nosso maior escritor, diz o Eclesiastes, escrito no século VI a.C., enbora seu autor tenha vivido no século X a.C., caso seja mesmo o rei Salomão: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo sob o sol”.

Nós recortamos as coisas para melhor entendê-las. No caso de Diego Maradona e de Pelé sempre haverá dúvidas se eles foram de fato os melhores de sua época.

Vejamos alguém melhor do que eles nos três minutos que mudaram o futebol, em 15.06.1958, na Suécia: https://www.youtube.com/watch?v=ojLKzLuvni8

Nestas cenas, onde despontam outros deuses tão grandes como Garrincha, Didi e Vavá, o fabuloso goleiro da então URSS, Yashin, o Aranha Negra, grita desesperado para os marcadores de Garrincha “não, assim; não, assim”.

Um ano antes, no México, nasceu o costume da torcida gritar olé, como nas touradas, a cada vez que Mané Garrincha passava por seu marcador.

Todavia há bons motivos para quem insiste em Pelé como único rei do futebol.

Em https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8 estão os gols que ele não fez, ainda que até seus erros milimétricos sejam apreciados pela beleza com que ele tentou fazê-los: https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8

Também Maradona mostrou todos os motivos pelos quais poderia ser igual ou superior a Pelé. Vejamos dez destes motivos emhttps://www.youtube.com/watch?v=uSpX2DEvSo4

O melhor árbitro, e talvez o único, seja o leitor. Veja amostras de como escrevem Borges e Machado sobre temas semelhantes.

“Uma comunidad de musulmanes fue instigada por los demonios a reconocer a Mahoma como Dios. Para aplacar el disturbio, Mahoma fue traído a los infiernos e lo exibieron. En esta ocasión yo lo vi. Se parecía a los spíritus corpóreos que no tienen percepción interior, y su cara era muy oscura”. (Borges, El doble de Mahoma).

“Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos.” (Machado de Assis, A Igreja do Diabo).

Como se vê, sempre houve muitos deuses, ontem como hoje, que, a seu modo deixaram suas marcas no tempo deles, que é também o nosso, pois já aconteceu. Só não é nosso o que ainda não aconteceu. Mas será. Será? (xx)

Este texto foi publicado no Correio do Povo, para atender a pauta do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva.

º escritor e professor, é editor de Abelha: Mel e Ferrão, no grupo editorial Almedina, e colunista semanal na BandNews FM.