AS VERGONHAS E AS PARTES

Por Deonísio da Silva

Talvez a primeira vez que ouvimos a palavra “vergonha” tenha sido da boca de nossa mãe para nos ensinar bons modos: “Não tem vergonha na cara, não?”. Sim, desde crianças, vigora a clássica oposição bons modos x maus modos.

“Vergonha” continuava a designar as partes pudendas, resumidas para partes apenas, aquelas partes do nosso corpo no baixo ventre das quais deveríamos ter vergonha.

A vergonha foi parar na cara, mas as vergonhas continuaram no baixo ventre.

É curioso este par singular e plural e talvez indício de machismo na língua portuguesa, uma vez que, como ensina o suíço Ferdinand Saussure, “o ponto de vista cria o objeto”.

A índia terá deixado à mostra só uma vergonha, como certificado por Pero Vaz de Caminha em sua famosa “Carta”, descoberta apenas no Século XIX, embora traduzida para o italiano ainda antes de chegar a Portugal para ser entregue a um dos magnatas genoveses ou venezianos que tinham financiado a viagem.

“E uma daquelas moças era toda tingida, de cima a baixo, daquela tintura; e era
tão bem feita e tão redonda, e a sua vergonha (que ela não tinha) era tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, faria vergonha por não terem a sua como a dela”. (Carta de Pero Vaz de Caminha).

Vergonha já designava no Século XV as partes sexuais e o sentimento.

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