MACHADO: ESCRAVA, BEBÊ E ABORTO

Em todas as escolas e universidades onde tenho ensinado, muitos alunos podem ter entrado sem ter lido Machado de Assis, mas nenhum saiu dali sem o ler.

E estava lembrando disso, hoje, quando passava pela Rua da Ajuda, que tem este nome por começar na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, ali perto. No Rio, é comum você perambular por onde andaram, devagar ou apressadamente. personagens de Machado de Assis.

Lemos em PAI CONTRA MÃE, a história de Cândido Neves, que, para livrar da Roda dos Enjeitados o filho recém-nascido, sai à caça de Arminda, uma escrava fugitiva.

“Reviu todas as suas notas de escravos fugidos . (…) Uma, porém, subia a cem mil-réis. (…) No extremo da rua, quando ela ia
a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela.

Era a mesma, era a mulata fujona. –Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio. Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era
já impossível.

Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

–Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! — Siga! repetiu Cândido Neves.

(…).
Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a
luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
(…)
–Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. — É ela mesma. –Meu senhor! –Anda, entra…

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,
levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
(…)

Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
–Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração”.

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