DEU BARRABÁS NO PLEBISCITO

E depois a mãe de Jesus encontrou a mãe de Judas, segundo o relato “Les deux mères”, ainda inédito no Brasil.

Em meu romance Goethe e Barrabás, lemos no capítulo A luz que te falta: “Salomé, com os sentimentos desarrumados por amar um homem que lança abismos e pontes entre ele e ela, mistura vigília, sono e sonho, aumentando a confusão que toma conta de suas almas, depois de vinhos rascantes e de amores insensatos”.

Estava num desses eventos em que os leitores querem que o escritor fale se algumas personagens se baseiam em pessoas conhecidas, quando uma leitora muito sagaz, de 83 anos, me perguntou, respeitosa: “O senhor deu-lhe o nome de Salomé por que ela perdeu a cabeça por Barrabás num amor insensato, depois de ter feito João Batista perder a dele? Aliás, todos os amores têm um quê de insensato, mas como o senhor tomou dois personagens bíblicos, deslocando-os para atuarem unidos, pois Salomé é aquela que dançou para o rei Herodes, e Barrabás aparece na Semana Santa, eu lhe pergunto: as más escolhas de que fala o senhor são construídas por nós deliberadamente ou são obra do destino?”.

O debate acontecia bem próximo a outra Páscoa e o assunto era muito pertinente. Respondi que acredito nas transcendências de nossas vidas, que somos bem diferentes de um pé de couve ou repolho, pois nascemos para olhar o que está no alto e não para chafurdar em nossa pobre condição humana. Que isso pode ser chamado de destino, talvez!

Temperei com o célebre paradoxo de Blaise Pascal, escritor francês do século XVII, que disse: “o homem não é anjo, nem besta, mas quem quer ser anjo, acaba sendo besta.” A dulcíssima velhinha prosseguiu: “jamais esquecerei de outra passagem” – estava com o livro na mão e leu: “A moça descobre também que se na Judéia criassem frangos, em vez de cordeiros, Jesus teria sido o frango de Deus que tira os pecados do mundo, sem contar que para frangos e famintos o destino será sempre um só: a morte para todos.

Barrabás, porém, diz à amada que a vida dele é bem diferente da de um frango. Diz também que foi Barrabás quem apareceu a Goethe, no final da vida, oferecendo-lhe a luz que faltava, mas já era tarde”.

No romance, faço referência a dois personagens com o nome de Barrabás e a duas Páscoas. Na Páscoa do Antigo Testamento, os hebreus matam cordeiros e esfregam o sangue na porta das casas, para que o Anjo da Morte não mate os primogênitos.

Na Páscoa do Novo Testamento, Jesus é chamado Cordeiro de Deus. Pois bem! Semana passada, depois de proferir palestra a convite do presidente do Tribunal de Justiça, em São Paulo, José Roberto Nalini, visitei outro querido amigo ali: o poeta Paulo Bonfim.

E, em nossa agradável conversa, ele lembrou um livro Les deux mères (As duas mães), sobre um suposto encontro da mãe de Jesus com a mãe de Judas. Ainda não encontrei esse livro que já antevejo admirável pelo tema. Quem sabe, na próxima Páscoa possa falar dele a vocês. Tenho aprendido muito a cada Páscoa, principalmente com pessoas cuja amizade para mim é um privilégio! (xx)

LADRÃO E LARÁPIO

por Deonísio da Silva *

Ladrão veio do Grego “látron”, pelo Latim “latro”. Em grego, “látron”, do mesmo étimo do verbo “latréo”, servir, designava o pagamento feito aos mercenários (soldados contratados) e aos empregados domésticos, isto é, que trabalhavam na “domus”, casa, residência, palavra que nos deu também domicílio. Escrevemos ladrão, com til, porque a fonte portuguesa foi “latro” declinado em “latrone”.

Cada qual recebia o seu “latro”, às vezes pago em sal, gerando a palavra “salarium” (quantia paga em sal, indispensável à conservação dos alimentos), salário, passados um mês, uma semana, quinze dias ou outro período fixado.

À medida que o império romano foi entrando em decadência, sobrevieram fatos desagradáveis, entre os quais o atraso de pagamento a soldados, mercenários e servidores, que, descontentes, formavam bandos perigosos de salteadores à mão armada, roubando, pilhando e saqueando, sem misericórdia.

Essa decadência dos costumes mudou o significado da palavra “latron”, que deixou de designar os antes incorruptíveis soldados imperiais.

A corrupção gerou também a palavra larápio. Como registrado em meus livros “De onde vêm as palavras” e “A Vida Íntima das Frases”, havia na antiga Roma um pretor, cujo nome era Lucius Antonius Rufus Appius.

Pretor era uma espécie de juiz entre os romanos. Esse fabricava e vendia sentenças a quem melhor pagasse por suas decisões.

Como se percebe, o costume é antigo. Lucius Antonius Rufus Appius abreviava o nome para L.A.R. Appius. Essa rubrica originou o neologismo larápio, e veio a designar o juiz ladrão, aplicando-se também a gatunos de outros ofícios e profissões.

* professor federal aposentado, é escritor e colunista da Rádio BandNews FM.

MARX: FILHAS SUICIDAS E OUTRAS TRAGÉDIAS

Deonísio da Silva º

O suicídio é tema inconveniente em todo o mundo, não apenas no Brasil.

Quando pesquisava o tema do suicídio para escrever o romance Sfefan Zweig deve morrer, já publicado também em Portugal e na Itália, li de passagem coisas que me desconcertaram a respeito da vida de Marx, pensador referencial dos tempos modernos.

Soube então que duas filhas de Karl Marx e também seu genro, Paul Lafargue, se suicidaram. Quantos leitores sabem disso? Poucos. E quem lê isso fica às vezes tão chocado que faz o que a mídia tem por hábito fazer: omite esses fatos sombrios.

Todavia é preciso lembrar a frase emblemática que realça serem fatos e fatias da realidade circundante emissoras de clarões sobre pessoas cuja biografia deveríamos conhecer melhor. Disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em Meditações do Quixote: Eu sou eu e minha circunstância”. E se não salvo a ela, não me salvo a mim

Karl Marx está entre os vultos históricos dos quais as qualidades e o mérito das obras são realçados sobremaneira, mas pouco se diz sobre quem foi o homem, o filho, o marido, o pai, o amigo.

Faltou compaixão a Marx, que maltratou a esposa e teve um filho bastardo com Helena Demuth, empregada do casal. Helena, cujo apelido era Lenchen, tornou-se amiga da mulher de Marx, Jenny von Westphalen, que não fazia apenas as tarefas domésticas. Também cultivou flores pontiagudas na cabeça da patroa, mais conhecidas vulgarmente por cornos. Eram encontros apressados esses do amor ilegítimo sob o mesmo teto onde viviam todos. Mas certa vez Jenny viajou e ficou fora de casa por uma semana. Foi nessa temporada que o libidinoso Marx engravidou a assanhada Lenchen.

Talvez ambos tivessem sido libidinosos e assanhados todas as outras vezes, mas aquela viagem da patroa coincidiu com os dias férteis de Lenchen. E ela concebeu do patrão.

Para salvar seu casamento com Jenny, Marx escreveu a Engels pedindo que assumisse a paternidade do menino desta união, a quem foi dado o nome de Frederick: “Devo revelar-lhe um mistério tragicômico“, disse Marx a Engels, como conta Saul Padover em “Karl Marx: an Intimate Biography”.

Mas como o filho bastardo foi descoberto? Pai verdadeiro, pai adotivo e filho de ambos guardaram este segredo por toda a vida. Mas, então, Eleonora, filha de Marx,  veio a conhecer Frederick em 1895. Ele estava com 44 anos. E morreu em 1929.

Não se sabe que influências podem ter tido sobre as filhas e o genro de Marx estas e outras circunstâncias, mas o certo é que Eleonora e Laura, filhas de Marx, e o genro dele, Paul Lafargue, tiveram  os três um triste fim: os três se suicidaram.

Sobre tais fatos e sobre as hemorroidas de Marx poucos falam, embora sobre as hemorroidas Edmund Wilson assegure que elas foram decisivas para os capítulos mais contundentes contra a burguesia, pois foi nas crises da enfermidade que Marx os escreveu.

Essas circunstâncias diminuem Marx ou o engrandecem? O leitor é o senhor desta interpretação. Mas o que não podem é ser omitidas em nome do culto à personalidade.

Há mais. Um dos filhos de Marx morreu tão magro, mas tão magro, que escondia os braços finos sob o lençol para a mãe não os ver e parar de chorar. E foi o pai quem ficou ao lado da cama até o último suspiro do filho.

Não são, pois, apenas possíveis restrições nas circunstâncias. Marx era pai amoroso e gostava muito das crianças. Os filhos adoravam brincar de cavalinho com ele, montando sobre o pai, que galopava pela casa toda e depois voltava ao trabalho.

Ah, sim: e desconfiando de que sua teoria não seria lida direito, Karl Marx escreveu um romance, que estava inédito até há poucos anos. Não sei se já foi publicado. (xx)

Deonísio da Silva,  professor federal aposentado, é escritor e editor. Dirige para o grupo editorial Almedina a coleção Abelha: Mel & Ferrão.

A HISTÓRIA VISTA POR TEM-TEM

Encrenqueiros causam problemas aos outros, mas antes de tudo a si mesmos.

Tirando falhas estruturais de caráter, os contenciosos podem ser resolvidos com um procedimento mágico: imagine-se no lugar do outro, procure entender as razões de seu discordante e esforce-se por expor, com brevidade e clareza, as suas.

Brevidade e síntese nem sempre são possíveis. Mas entre lero-lero e silêncio, escolha o silêncio, é claro, pois este diz mais ao bom entendedor. Algum consenso emerge deste diálogo.

E se o interlocutor der sucessivas mostras de não ter vontade de entender o que vê, sente, ouve ou lê?

Daí você impõe a lei do silêncio. Do teu silêncio. E, se você crê nas transcendências, estenda o penúltimo manto redentor sobre o discordante que, diabólico, persevera no erro: a prece.

Penúltimo por quê? Porque sempre haverá outro recurso: aqui se faz e aqui se paga. Às vezes, no Judiciário. E nem sempre termina ali.

Em resumo, convém ir apenas até ao penúltimo recurso. Assim você evita escovar cabeça de burro com sabonete cheiroso ou perfumado xampu. O cuidado é dispensável porque talvez o animal conheça apenas sabão e não possa jamais perceber a diferença entre os produtos.

  • De pedaços de conversas com as psicanalistas Betty Milan, paulistana, e Gilda Pitombo Mesquita, gaúcha de Alegre-RS, amigas queridas.
  • Tem-tem é um passarinho. No romance “Stefan Zweig deve morrer” (Almedina, 2020), ele observa e é observado pelo escritor judeu-austríaco. Stefan, Lotte e Tem-tem vivem na mesma casa em Petrópolis (RJ), mas há um confinamento adicional para ele: a gaiola. O casal foi assassinado por nazistas. A versão das biografias, apoiadas na mídia e na delegacia de polícia, na época dominadas por um governo autoritário, é de que se suicidaram.

ANFITRIÃO & CORNO E SÓSIA

Deonísio da Silva *

Anfitrião é palavra que veio do grego “Amphytryon”, nome de um mítico chefe guerreiro de Tebas.

Para engravidar Alcmena, esposa do dono da casa, o todo-poderoso Zeus, o maior deus do Olimpo, disfarça-se de marido dela e pede ao divino colega Hermes – equivalente ao deus Mercúrio, em Roma – que também se disfarce e se torne idêntico ao escravo Sósia. Assim, disfarçado de Sósia, como Zeus disfarçou-se de Anfitrião, que está viajando, Hermes fica de guarda à porta da residência do casal.

Foi assim que as palavras anfitrião e sósia passaram de nomes próprios a substantivos comuns e vieram para o nosso dia a dia.

Antes de chegar ao português e a outros idiomas, anfitrião fez escala no francês “amphitryon”, palavra dicionarizada em 1752, quase um século depois da peça “Amphitryon”, de Molière, pseudônimo de Jean-Baptiste Poquelin.

Outros autores deram a peças suas o mesmo título, como é o caso de Plauto em “Amphytrio”, na Roma antiga, e de Luís de Camões em “Anfatriões”, com a variante “Enfatriões”, na Lisboa antiga.

Todavia no português do Século XVI anfitrião ainda não designava o dono da casa que recebe convivas ou aquele que paga as despesas de banquetes ou refeições. Nem sósia a pessoa tão semelhante a outra que com ela pode ser confundida.

Enfim, o primeiro sósia foi Hermes, não Sósia. Era idêntico ao escravo, mas não era ele, era deus. E o primeiro anfitrião era muito parecido com Anfitrião, mas não era o marido, era um deus devasso que também se disfarçara em cisne para transar com Leda.

A escala no francês foi decisiva para dar a anfitrião e a sósia os significados que hoje têm. Antes de designar pessoa de gesto nobre e generoso, que recebe outros em sua casa, anfitrião indicou originalmente, então, o marido da adúltera, popularmente conhecido por corno. Ou comborço, mas esta é palavra de uso muito raro. O mais famoso comborço do português do Brasil é Escobar, amante de Capitu, assim referido por Bentinho, o marido.

Dos dois casos amorosos de Zeus nasceram gêmeos: Castor e Pólux, de Leda; Hércules e Íficles, de Alcmena.

Dos escritores brasileiros que inseriram explicitamente e adaptaram a fascinante mitologia greco-latina em suas obras, Monteiro Lobato talvez tenha sido o mais notável.

De todo modo, para efeito de memorização por meio do português vulgar, lembre-se que o primeiro anfitrião foi corno. (fim)

  • professor federal aposentado e escritor

BENJAMIN, SOLIDÉU: O NOME CURIOSO QUE CERTAS COISAS TÊM

Há algum tempo venho pesquisando por que razão chamamos benjamim o plugue que nos permite ligar mais do que um aparelho na mesma tomada.

As versões predominantes dizem que o nome é homenagem ao célebre inventor Benjamin Franklin, feita por seu xará, Reuben Berkeley Benjamin, que o teria feito originalmente acoplado ao soquete de uma lâmpada para a empresa Benjamin Electric Company. Ele patenteou o plugue em 1898, em Chicago, nos EUA. E passou a comercializá-lo na empresa que fundou com a esposa.

Curiosidade: na América espanhola, o benjamim e conhecido por ladrón (ladrão), que para nós é palavra que designa, entre outras coisas, uma calha para esvaziar reservatórios d´água.

Andando pelo mundo, pessoas com um saber de coisas práticas, que vai muito além dos dicionários, têm registrado coisas interessantes sobre as palavras. Há muitas coisas ocultas sob elas. Como é chamado o benjamin na linguagem do cotidiano de outros países? No inglês dos EUA, predominante no ambienteinternacional, é “adaptor, plug”, me diz Glauco Ortolano.

Deve estar em alguma comunidade o solidéu que o vento levou da cabeça do papa Francisco em sua lendária viagem ao Rio, quando, tendo recusado o papamóvel, perdeu-se no trânsito carioca num Fiat Ideia. Interessante porque aquele boné cobre justamente a cabeça do papa, onde estavam suas boas ideias para mudar a Igreja. O anel de outro papa, João Paulo II, está no Vidigal. Sua Santidade fez uma doação.

O jornalista Ricardo Boechat me perguntou ao vivo, fora da pauta, como era seu assustador costume, para mim, mas delicioso para os ouvintes, por que solidéu tinha esse nome. A palavra veio da expressão do latim “soli Deo” (somente a Deus) para simbolizar que apenas para Deus o Sumo Pontífice tira o chapéu.

Sic transit gloria mundo (assim passa a glória do mundo).

INFÂNCIA EM SIDERÓPOLIS: história de uma nova e antiga solidão


Toda localidade tem figuras marcantes. Da primeira minha infância, em Siderópolis, nos verdes anos, me lembro da parteira, do guarda-noturno e de um ladrão de galinha.


Este último nos assustou muito. Estávamos brincando na frente da casa, de repente uma senhora gritou “pega o ladrão!” e ele passou em disparada por nós e sumiu na escuridão de uns eucaliptos atrás da vila.

Somente as ruas eram iluminadas. Vestia uma calça cáqui, o ladrão, e estava descalço, de boné, e a camisa era de riscado.


A luz elétrica era fraquinha, todas as lâmpadas eram de 40 watts, que se dizia “velas”, nas casas e na ruas, mas pareciam muito fortes, pois quando faltava luz, o que era raro, e era preciso acender as candeias ou as lamparinas, a gente percebia a diferença.


As lamparinas e suas sombras favoreciam histórias lendárias de almas mortas que apareciam assustando as vivas. O cenário noturno estava sempre armado. E as almas vinham com muita frequência.


Os aparecimentos compõem a cultura brasileira com uma força impressionante. Não é à toa que a padroeira do Brasil é uma Aparecida, Nossa Senhora Aparecida. Imagine se ela, quando apareceu aos pescadores, abrisse bem a boca e gritasse “bah”. Todos sairiam correndo.

Vim de um outro Brasil. Importantes eram os parentes, os vizinhos, a igreja, a escola, a farmácia, o hospital.

E a ponte. As cidades brasileiras, em sua maioria, cresceram à beira de rios. Você atravessava o rio e ia à escola, à igreja, à casa dos amigos. A ponte ligava os dois lados do rio.


Se fosse hoje, o verbo não era ligar, era conectar. A ponte era uma conexão.


Uma enchente que derrubasse a ponte, era uma tragédia. Hoje a tragédia é quando cai o sinal da internet.


Para muitos, até o ano passado, só quando caía a conexão da internet é que eles faziam outras coisas e talvez se lembrassem de ir à rua conversar com os vizinhos, observar os que passavam.

Mas agora, por causa do coronavírus, ninguém passa: algum covidado poderá torná-lo o mais recente convidado da Covid-19. E isso ninguém quer. Para ninguém.

Quanto a mim, nasci trinta anos depois da peste, que na época chamou-se gripe espanhola, e ela, disfarçada, com outro nome, veio me esperar em outra idade.

Por enquanto, nós, os sobreviventes, nos defendemos como no romance que mais leitores me trouxe: “Avante, soldados: para trás “.

Senão, vocês não vão. Vocês vão para a Cochinchina procurar joguinho e rede social, as duas coisas mais buscadas na internet. Cada um sozinho diante da telinha. (xx)

DEONÍSIO (DABOIT) DA SILVA: HISTÓRIA DE CADA UM

Imigração e migração: nossos ancestrais vieram de longe antes de chegar ao Brasil, onde se espalharam por muitos outros lugares.

Como as palavras, cada um de nós tem sua história. Pergunto a cada leitor: qual é a sua?

Quanto a mim, tudo começou em Siderópolis (SC), que mudou de nome. Chamou-se originalmente Nova Belluno. Os imigrantes italianos, saudosos da terra natal, davam o nome da localidade de onde tinham vindo, acrescentando o adjetivo “nova” na frente do nome. E assim sugiram Nova Trento, Nova Veneza etc. E Nova Belluno.

Belluno é uma palavra de origem etrusca. Virou “Béllum” (guerra), em latim, depois “bellúm” no latim vulgar, e “Bellún” no dialeto vêneto. Província e cidade têm o mesmo nome. A cidade fica a 100 km de Veneza e tem hoje 36 mil habitantes.

Quando o governo Getúlio Vargas instalou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Nova Belluno, os engenheiros mudaram o nome do então distrito de Urussanga para Siderópolis, do mesmo étimo de siderurgia, o grego “síderos”, ferro, que está entretanto também no étimo de sideral, por onde viajam planetas, foi grego “planetes”, viajante e também vagabundo, no sentido de vagamundo. “Um vagabundo como eu/ também merece ser feliz”, cantava em italiano o Giani Morandi na minha juventude.

Urussanga veio do tupi-guarani, uma junção de muitas línguas indígenas, e quer dizer Riacho dos Pássaros.

Acontece que ao passar para o latim, “sideris”, declinação de “sidus”, ferro, ensejou novo significado, como é fácil comprovar na expressão “espaço sideral”.

Quando os meteoritos conseguem chegar à Terra e são encontrados – podemos ver isso em museus -, comprovamos que eles são feitos de ferro.

Meu pai, um Correia da Silva, cujos ancestrais eram de Canela (RS), casou-se com uma Daboit, de família italiana que viera do Vêneto, e ambos, já com duas filhas, chegaram a Siderópolis, ex-Nova Belluno, atraídos pelas novas oportunidades de trabalho da CSN.

Eu fui o primeiro de seus filhos a nascer ali. Fui batizado pelo padre Agenor Neves Marques (que morreu em 2006), autor do livro “Catequista Ideal”.

Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 24 de agosto de 1954, nós já morávamos em Jacinto Machado, o novo nome que Volta Grande recebera para homenagear o brigadeiro Jacinto Machado Bittencourt, comandante militar que lutara na Guerra do Paraguai.

Lá ficamos sabendo que padre Agenor tinha sido denunciado ao arcebispo de Florianópolis, Dom Joaquim Domingues de Oliveira (morreu em 1967), como incitador das greves e revoltas dos mineiros na terna luta capital x trabalho.

A denúncia: “é elemento perigosíssimo à ordem pública, com palavra fácil e fluente, tem grandes recursos oratórios, é arrojado e de fértil fantasia”.

Dom Joaquim pediu explicações a padre Agenor, que assim respondeu: “Serei sempre revolucionário do bem, enquanto não vir o respeito dos fortes para com os fracos, a condescendência dos poderosos para com os humildes, a complacência dos ricos para com os pobres, a paz dos perseguidos contra a fúria dos perseguidores. Serei sempre revolucionário, enquanto houver na minha paróquia o ódio e a vingança, a perseguição e a calúnia, o orgulho e a prepotência!”.

Foram sermões desse padre que o menino Deonísio (Daboit) da Silva ouviu muitas vezes no colo de seus pais. E certamente o padre e todo o contexto lhe influenciaram o destino! (fim)

& este texto integra livro inédito para celebrar 30 anos do romance ‘Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os 10 de “Stefan Zweig deve morrer” ” (PrêmioNacional de romance de autor catarinense em 2012).

SABOR DE MORANGO

por Deonísio da Silva

A igreja de minha adolescência profunda era a sede ou matriz da Paróquia Santa Teresinha, em Jacinto Machado (SC). Ali fui coroinha. A foto é de meu amigo de infância, o querido Enio Frassetto.

Em certo domingo, depois da missa, um ciclista foi atropelado por um caminhão. Foi um auê danado.

Ainda paramentados, o padre e os coroinhas, Elói Semprebom e eu, os três também fomos ver o que tinha acontecido, pois era grande a perturbação no primeiro acidente de trânsito com vítimas humanas na localidade.

Cachorros e galinhas já tinham morrido ou sido machucados, mas, gente, não, nunca até então.

Estendido na rua de cascalho, em meio ao sangue e à dor, “gemente et flente”, como em famosa oração litúrgica que rezávamos em latim, o rapaz atropelado pensou que sua hora tinha chegado e aquela fosse a extrema-unção.

Sobreviveu manco e torto, o doutor Carlos Saboia fez as devidas cirurgias. Feliz da vida, apesar do susto e do trauma, ele casou-se com u’a moça tão linda como Nossa Senhora das Dores, “clemens, pia, santissima”, como na mesma prece, que passou a amar e cuidar do rapaz. Ele nunca mais andou de bicicleta.

Mas ela, sim, com uma Monark, sem varão, especial para mulheres, freiras e padres, com saia vermelha apertada, um batom lindo e unhas pintadas da mesma fascinante cor, ia confessar-se fora do horário com um padre que substituiu o pároco por algumas semanas. Ela ia todo dia nesse interstício, deveria ter muitos pecados a contar ou gostava de repeti-los.

Eu era menino estudioso, sempre, e obediente, quase sempre, e morava na Casa Paroquial para ser preparado para o pré-seminário, no Educandário São Joaquim, em São Ludgero, onde seria preparado para o Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, cujos padres me preparariam para cursar Filosofia e Teologia, em Vimão (RS). Se tudo desse certo, depois de 18 anos de estudo, por volta de 26 de idade, eu seria considerado apto para o sacerdócio e, fazendo os votos de castidade e de obediência, seria ordenado “sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec” (sacerdote, para sempre, segundo a ordem de Melquisedec) , pois é um rito radicado no Antigo Testamento que o cristianismo, dileto filho do judaísmo, aproveitou.

Nessas ocasiões, o padre interrompia meus estudos na mesa em frente à dele e me mandava colher moranguinhos no pomar atrás da igreja. E eu não gostava dessas interrupções.

Um dia voltei muito depressa, a mulher ainda estava no escritório do padre, que me mandou colher mais.

Fui de novo. Ao voltar com uma pequena bacia cheia de moranguinhos, ela tinha ido embora, e o padre disse que eu tinha colhido demais, tinha acabado com os moranguinhos.

Nunca soube a quantidade de moranguinhos a colher, mas uma coisa aprendi com Teresinha Vecchi, irmã do padre Carlos Vecchi, ambos de Laguna, ela era xará da padroeira, empregada doméstica de todo serviço e espécie de mordoma, e trabalhou a vida inteira com o padre Herval Fontanella, eterno vigário ou pároco de Jacinto Machado: “esse padre coadjutor vai ficar poucos dias, só até o padre Herval voltar, ele é diferente, quando ele atende no escritório, a gente não pode entrar lá, nem que seja para pegar alguma coisa que esqueceu”.

Esqueci muito e talvez tenha omitido ou acrescentado algo a essas lembranças. Os moranguinhos tinham diversos sabores: se mais para o vermelho, como os batons, se mais para o verde, como eu ficara quando assustado pelos tapas na cara recebidos por Artur, sobrinho do padre Herval, que ficara uns dias com o tio e esquecera de apagar as velas da igreja em certa noite, podendo ter causado um incêndio que destruiria a igreja inteira, como já tinha ocorrido com o seminário que estavam reconstruindo em São Ludgero, mas que podia ter sido incendiado de propósito por um político que brigara com o bispo, Dom Anselmo Pietrula.

Outros incêndios tomaram conta do menino, em grandes ou pequenas labaredas, às vezes ocultos em brasas como nesta outra idade, quando brotam tantas lembranças, e eu cumpro o destino que me coube, segundo o vaticínio do monsenhor Bernardo Peters ao me entregar os documentos do que estudei, alguns anos depois de desligado: “Gloria in excelsis Deo, tu non eris sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec, sed bonus puer”.(Glória a Deus, tu não serás nunca sacerdote, mas um eterno bom guri).

Talvez os honrados sacerdotes preceptores tenham insistido pouco, piedosamente ou não, para que o menino fosse o que lhe estava destinado, mas de algum modo ele tomou caminhos de domínio conexo ao tornar-se escritor e professor. As tentações sempre foram muitas, para os discípulos e para os mestres.

Àquele antigo menino coube viver para escrever estas lembranças e ensinar a outros o gosto de ler boas prosas que muito admiro e degusto, diante das quais considera a apenas um pequeno pedaço de sombra do que elas têm sido para ele.

Esse menino em mim jamais morrerá, nem mesmo depois de morrer, pois descerá como barro velho e subirá como barro novo, como ouvi outro dia em vernáculo numa igreja, nesses tempos em que os antigos ritos e o latim foram abolidos para que, soberano, mas sem que ainda se tenha educado o soberano, triunfasse outra vez, como sempre, o povo, que, por sua vez, evita e dificulta o caminho novo dos meninos, sejam eles filhos, netos, alunos ou discípulos.

É grande a diferença entre alunos e discípulos. Dos primeiros, o nome deles é legião ou povo, eles estudam e leem por necessidade. Dos outros, o nome deles é outro, existem em pequeno número, cada vez menor, e aprenderam a degustar as complexas sutilezas do tempo que lhes foi dado viver.

E, por isso, são para os outros motivo de preocupação ou desprezo. Podem até saborear moranguinhos, mas se repolho, alface ou capim, daria no mesmo. Certos gostos, sabores e saberes lhes são estranhos.

Quanto àquele menino, ele um dia aprendeu com o preceptor que lhe apresentou Terêncio, o Africano, que “homo sum, humani nihil a me alienum puto” (sou homem, nada do que é humano me é estranho).

Então, sua vida mudou para sempre, e tudo lhe desperta o gosto de invocar o memorial da vida, uma tarefa iniciada quando os gregos, tendo aprendido o alfabeto com os fenícios, começaram a registrar as histórias ouvidas para que fossem lidas por outros, sem os tomentos da pressa e do tempo.

Pois “ars longa, vita brevis” (a arte é longa, a vida é breve). Nossa vida é curta quando comparada à vida breve das borboletas, e longa quando comprada à das tartarugas, que vieram dos infernos, e à dos autores, anjos caídos que pretendem voltar.

  • Escritor e professor. Esta narrativa integra livro inédito que celebra os trinta anos do romance “Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os dez de “Stefan Zweig deve morrer”, já publicados também em outros países.

TODOS TÊM SOBRENOMES. MAS POR QUE ESSES?


Os antigos romanos originalmente deram nomes apenas até o quarto filho.
Para os seguintes davam números. Por isso houve tantos homens chamados por números, como foi o caso de Otávio, seu primeiro imperador.


Fizeram assim também com os meses do ano: março, abril, maio, junho. Dali por diante eram designados por números, como indica o étimo de Setembro, outubro, novembro e dezembro, designados7 antes do acréscimo de janeiro e fevereiro.


Na tradição luso-brasileira, são usuais dois sobrenomes: o da mãe e o do pai. Os espanhóis driblaram o limite de dois sobrenomes juntando dois maternos e dois paternos, cada par com um hífen. Predominam seis motivos nos sobrenomes:


1) o lugar onde viviam nossos ancestrais: quem morava em cidades perto de matas era Silva; e eram Campos, se ali viviam; no litoral, eram Costa;


2) honras recebidas: Valente, Nobre e Bandeira remetem a comportamentos, principalmente em batalhas;


3) aparência ou ligação com bichos: Barata, Cão, Coelho, Peixoto (peixinho), Lobato (lobinho);


4) religião: o santo do dia é seu nome;

5) profissão: os Penteado usavam ou fabricavam perucas, costume copiado de franceses e ingleses;


6) repetição de nomes de familiares: Neto, Filho ou Júnior, Sobrinho, Genro.


Em outras línguas há exemplos semelhantes: o inglês Wood, bosque, e o alemão Berg, montanha, estão presentes em muitos sobrenomes. Às vezes foram as profissões, como Schumacher e Schneider, sapateiro e alfaiate, em alemão, respectivamente.


É um bom tema a onomástica. Esta foi apenas uma breve nota sobre alguns aspectos de nomes e sobrenomes.