O MANUSCRITO DE MONTECÚCCOLO

Conto inédito, especial para o Correio do Povo ( 05/03/2016)


http://correiodopovo.digitalpages.com.br/#/edition/53242?page=4&section=2


Deonísio da Silva *


Parte I
Devemos ao italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, frade missionário capuchinho, a descrição de infanticídios que assombraram primeiramente os portugueses, depois o resto do mundo civilizado, e que serviram de motivo adicional para justificar a presença europeia naquelas terras, iniciada com a conquista portuguesa do litoral centro-africano, ocorrida entre os séculos XVI e XVII.

Tendo vivido treze anos na África, ele cumpriu todos os ofícios que lhe atribuíram a Cúria Romana e a Ordem de São Francisco, às quais servia, dedicando-se também, como era comum entre padres e outros letrados, a registrar tudo o que via, sentia e ouvia.

Ele fala com esmero das atrocidades e dos rituais violentos, que incluíam o genocídio de tribos rivais inteiras e o sacrifício de crianças que tinham a cabeça esmagada para que seus miolos fossem servidos em cerimônias religiosas, sob a alegação de que dariam mais força aos guerreiros. As mulheres, mães ou não, eram dispensadas destas refeições.

Tais atos eram perpetrados por uma etnia em especial, a dos jagas, guerreiros nômades que atacaram tribos rivais nas regiões conhecidas depois pelos nomes de Angola, Matamba e Congo, esta última transformada em país pelo rei belga Leopoldo II.

Sim, este monarca comprou um país só para ele, acumulando fortunas para si e para seus apaniguados, comercializando diamante, ouro, prata, marfim e borracha, extraídos com mão de obra grátis, explorada sob condições das mais degradantes, que, quando reveladas, deixaram o mundo enojado de tanta ambição e crueldade. Todavia, todas estas violações tiveram muito menos destaque do que o infanticídio descrito pelo religioso.

O piedoso homem de Deus livra a cara de muitas etnias e culturas primitivas da África, como os bacongos e os mbundos, mas talvez exacerbe o que presenciou ou lhe contaram sobre os jagas, registrando pormenores assustadores na sua Descrição Histórica de três reinos: Congo, Matamba e Angola, situados na Etiópia inferior ocidental e das missões apostólicas feitas por religiosos capuchinhos.

A conquista religiosa, é claro, diferiu muito das outras conquistas que compuseram a tríade sobre a qual outros governantes passaram a mandar. As outras duas eram a militar e a política, mas as três davam-se em consonância, pois padres, militares e diplomatas viajavam às vezes nos mesmos navios que ali aportavam. Contudo a conquista religiosa, se não foi cruel por meios reais, foi cruel por meios simbólicos, impondo virtudes de outro mundo, de valores e negativas a quem os desconhecia, e erradicando os vícios dos evangelizados, que, entretanto, resistiram, obrigando os europeus a algumas fusões, misturando procedimentos religiosos cristãos a superstições, e santos a entidades míticas dos cultos praticados por aqueles povos.

O frade era mais um eurocêntrico, naturalmente. Já chegou à África muito desconfiado, pois antes dele outros colegas de hábito, de outras ordens religiosas, sobretudo, haviam descrito e narrado muitas estranhezas.

Mas, além do infanticídio, o que mais reprovavam quase todos os autores destes registros? A poligamia, o concubinato e o sexo livre, praticado séculos antes de ser apresentado como bandeira juvenil no Festival de Woodstock, realizado em 1969 nos Estados Unidos, com a diferença de que neste último evento estiveram presentes 400.000 pessoas. Os donos do poder voltavam a assustar-se, vendo no fenômeno uma demonstração inequívoca de que o comunismo internacional dava sua arrancada para a vitória final sobre o capitalismo, que séculos antes vitimara a África, levando tantos negros para mão de obra escrava nas Américas, e realizaria a tarefa mediante a contracultura, vírus que então se instalara no coração dos EUA. Se uma das principais manifestações da repressão política era a sexual, os jovens teriam pensado que poderiam começar pelo sexo livre, reprovado por todos os poderes, mas especialmente pelo religioso.

Afinal, todo o clero sempre apreciou muito o assunto “vida sexual dos outros”, não apenas pelo que deveriam extrair das confissões epocais feitas pelo relato de pecadores e sobretudo de pecadoras, que deveria ser minucioso, como ordenavam os manuais dos confessores.

Parte II

Aline me ligou bem cedo. Ela sabe que eu madrugo. Ela não acha graça alguma na aurora, e prefere outras formas de luz. Tinha acabado de voltar do motel, para onde fora com o marido de sua amiga Alessandra, depois que ela deixou a sós o próprio marido, Sérgio, com a amiga, alegando estar muito cansada e precisando dormir. Mui amiga da outra, esta Aline.

Bem, a outra não foi dormir coisa nenhuma. Da despedida rumou para uma esticadinha na praia, onde Iemanjá era homenageada com flores muito bonitas. Na noite escura, Iemanjá recebia a todas, vestidas de branco, parecendo puras e belas. No dia seguinte, podia-se desconfiar de tanta pureza e beleza, pois Iemanjá devolvia, não apenas, muitas flores, como também algumas feiosas que tinha resolvido permanecer um pouco mais nas praias.

Alessandra, amiga de Aline, estava tranquila: deixara o marido e a amiga na Barra da Tijuca, e agora estava na zona sul, pois, como se sabe, o Rio não tem zona leste: nenhum território é conhecido por esta denominação, de resto frequente em todas as outras cidades brasileiras banhadas pelo Oceano Atlântico, cujas águas, como se sabe, vacilam entre ficar na costa africana e vir para cá, estando em constante vai e vem.

Aline amava um abastado chefe de bandidos, Elevador. Ele vivia no luxo e na riqueza. E Aline, filha de um banqueiro, ao comparar a vida do amante com a vida do pai, do sogro, do marido e do ficante habitual, constatava que, de todos eles, igualmente ricos, o mais livre era justamente Elevador.

Fascinado pela amante, Elevador a recebia como a uma princesa no morro. Por fora a construção não era muito diferente dos barracos que a rodeavam, a não ser pelo tamanho, pois era imensa. Lá dentro, ela encontrava todo o conforto que a casa do pai e do marido lhe proporcionavam, acrescido de uma coisa que nenhum deles tinha: a privilegiada vista da cidade do Rio de Janeiro, posta aos pés de quem mandava nela, isto é, os bandidos, que ali viviam em casas sem grades, sem portões e até sem fecho nas portas. Ali, sim, a autoridade imperava. Havia quem mandava e havia quem obedecia, tudo na mais perfeita hierarquia. E sem as delongas judiciárias que tanto prorrogam e às vezes impedem a justiça.

A pena de morte não era rara. Na primeira visita à casa de Elevador, antes de entrarem, ela viu que um capataz do amante conduzia três jovens amarrados ao pescoço por uma corda e com as mãos atadas em cipós. Há regiões do Rio em que o século XVI ficava bem pertinho…E era um pulinho da cidade até ali!

Ela olhou espantada para o amante e este lhe disse com certa displicência: “Infelizmente ainda temos que dar este tipo de lição, que vai ficando rara”, acrescentando: “ao roubar, eles acabaram matando umas criancinhas, e isto é crime que não se pode perdoar”.

Como ela fizesse uma segunda pergunta, ele disse: “Mas logo ninguém mais teria segurança e eles poderiam matar a nós também. Segurança! Já ouviu falar nisso?”. E deu-lhe um beijo de boas-vindas, dizendo, por fim: “Esquece! Eu cuido de tudo aqui. Nada de ruim pode acontecer a ninguém, muito menos a você. E aqueles três cometeram as barbaridades em outra comunidade, mas, se eu não punir, o povo de lá vem pra cá e pune a todos nós, culpados ou não”.

Era verdade. Minutos depois, sem abrir a porta, alguém perguntou lá de fora: “Chefe, quem vai levar os recado dos “morto” ?”.

Elevador largou os lábios de Aline, interrompendo o beijo comprido de línguas entrelaçadas para dar a ordem simples: “Ninguém! Só avisa o da TV”.

E, antes de voltar ao que fazia antes com a moça, disse: “Podia avisar pelo jornal, mas ninguém lê. Aviso pela TV, assim todo mundo vê. E o rádio dá também, porque quase sempre TV e rádio vêm junto”. “No jornal vai sair também”, disse Aline. “Vai, sim, meu amor, mas para gente como vocês. Para gente como nós, é a TV e o rádio”. Aline insistiu: “E a internet? Não sai na internet?”. Elevador sorriu: “Sim, sim, sim. Mas na internet sai tudo junto e misturado, é mais difícil do nosso povo entender”.

Ele tinha um reino, incluindo local, povo e uma língua, que só os iniciados a entendiam por inteiro. E voltaram ao amor, deixando a guerra para os comandados do rei Elevador.

Parte III

Os franciscanos pertencem a uma ordem religiosa fundada em 1221 por São Francisco de Assis. Provavelmente teria vida efêmera, não fosse o apoio da rainha Isabel, da Hungria, e de Luís IX, da França, ambos santos também. Isabel nasceu no Castelo de Bratislava e seu ancestral sangue nobre (era azul, mas não por cianose) já regara outras das mais poderosas casas reais europeias.

Isabel era sobrinha de Santa Edwiges, tia de Santa Cunegundes e de Santa Margarida e tia-avó de Santa Isabel, rainha de Portugal, casada com Dom Dinis I, rei, lavrador e poeta, fundador da primeira universidade portuguesa, em Lisboa, depois transferida para Coimbra.

Rezam os registros feitos por padres, fidalgos e outros cortesãos que o nascimento da padroeira da Ordem de São Francisco foi anunciado por Klingsohr da Transilvânia, um trovador medieval, com estas palavras: “Vejo uma estrela que se levanta da Hungria e brilhará no mundo inteiro”.

Isabel, como Francisco, gostava muito de pobres, de animais, de pássaros e da Mãe Natureza, enfim. O famoso Milagre das Rosas é atribuído às duas Isabel: à da Hungria e à de Portugal.

A primeira Isabel tornou-se viúva, seu marido morreu na primeira Cruzada. Expulsa do reino porque lhe usurparam o trono, recusou também casar-se de novo, como queria seu tio Otto, poderoso bispo de Bamberg, preferindo confiar a educação dos três filhos a parentes ao entrar para a Ordem Terceira de São Francisco.

Dela disse Bento XVI, antecessor do atual papa Francisco: “Ela vivia com os pobres e obtinha o sustento com o trabalho de suas próprias mãos”.

Pel’ amor de Deus, como os nobres tinham medo de trabalhar! Para isso, eles contavam com escravos ou servos, que tudo faziam para eles, às vezes explicitamente – como os serviçais da roça, da pecuária ou da casa, estes últimos até lavavam as partes de patrões e patroas quando não havia sido inventado ainda o papel higiênico – outros indiretamente, como os militares, que garantiam aquelas conquistas, feitas entretanto sob o domínio da lei, mas se sabendo de antemão que à falta do medo e do respeito às novas normas, viria a força armada.

Todavia ao tempo de Bento XVI, Igreja e Estado já não andavam lá muito unidos. Pensando bem, alguns atos daquele papa deram muito o que falar, como o que a Cúria Romana, de que era chefe máximo, inventou em 20 de novembro de 2007.

Foi assim. A Cidade do Vaticano fez emissão extraordinária de selo comemorativo da vida de Isabel com 300.000 séries completas e 10 selos por folha, vendidos a 65 centavos de euro cada um, arrecadando uma fortuna. E há quem diga que santidade é coisa de carola! Sem negar todos os outros benefícios humanitários, é também um grande negócio, pois sem dinheiro pouco se faz neste mundo e é por isso que Elevador faz o que faz no morro, vendendo um pó branco de muita pureza, pelo qual muitos ricos da orla do Rio são fascinados, devidos a seus poderes de arrebatamento semelhantes a êxtases de santidade.

Além dos temas aqui aludidos, na homilia daquela semana, numa igreja da Barra da Tijuca, outro franciscano, chamado Clóvis, citando São João, lembrou aos fiéis que tudo é da terra, não sai da terra e volta para a terra. Mas falava do céu.
Nos dias seguintes, na universidade que Aline frequentava, foram travadas acaloradas discussões sobre a cara de governantes de todas as alas e matizes, insensíveis ao surto de zika, à microcefalia, à violência urbana, às mortes no trânsito, aos assassinatos e a outras mortes encomendadas, incluindo o aborto naturalmente, do qual não encontramos nenhum registro nos documentos do frade capuchinho italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo.
Está presente nos tempos atuais, como se sabe, o fio vermelho de sangue que percorreu todo o conto que o Espírito soprou, que, como se sabe, não apenas sopra onde quer, mas sopra também como quer e nem sempre de forma que podemos compreender, pois seus sinais, ai, meu Deus, às vezes são quase ilegíveis. Ontem foi Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, mas hoje foi Deonísio da Silva. (xx)
º Deonísio da Silva é escritor e professor federal aposentado. Tem 35 livros publicados.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s