INFÂNCIA EM SIDERÓPOLIS: história de uma nova e antiga solidão


Toda localidade tem figuras marcantes. Da primeira minha infância, em Siderópolis, nos verdes anos, me lembro da parteira, do guarda-noturno e de um ladrão de galinha.


Este último nos assustou muito. Estávamos brincando na frente da casa, de repente uma senhora gritou “pega o ladrão!” e ele passou em disparada por nós e sumiu na escuridão de uns eucaliptos atrás da vila.

Somente as ruas eram iluminadas. Vestia uma calça cáqui, o ladrão, e estava descalço, de boné, e a camisa era de riscado.


A luz elétrica era fraquinha, todas as lâmpadas eram de 40 watts, que se dizia “velas”, nas casas e na ruas, mas pareciam muito fortes, pois quando faltava luz, o que era raro, e era preciso acender as candeias ou as lamparinas, a gente percebia a diferença.


As lamparinas e suas sombras favoreciam histórias lendárias de almas mortas que apareciam assustando as vivas. O cenário noturno estava sempre armado. E as almas vinham com muita frequência.


Os aparecimentos compõem a cultura brasileira com uma força impressionante. Não é à toa que a padroeira do Brasil é uma Aparecida, Nossa Senhora Aparecida. Imagine se ela, quando apareceu aos pescadores, abrisse bem a boca e gritasse “bah”. Todos sairiam correndo.

Vim de um outro Brasil. Importantes eram os parentes, os vizinhos, a igreja, a escola, a farmácia, o hospital.

E a ponte. As cidades brasileiras, em sua maioria, cresceram à beira de rios. Você atravessava o rio e ia à escola, à igreja, à casa dos amigos. A ponte ligava os dois lados do rio.


Se fosse hoje, o verbo não era ligar, era conectar. A ponte era uma conexão.


Uma enchente que derrubasse a ponte, era uma tragédia. Hoje a tragédia é quando cai o sinal da internet.


Para muitos, até o ano passado, só quando caía a conexão da internet é que eles faziam outras coisas e talvez se lembrassem de ir à rua conversar com os vizinhos, observar os que passavam.

Mas agora, por causa do coronavírus, ninguém passa: algum covidado poderá torná-lo o mais recente convidado da Covid-19. E isso ninguém quer. Para ninguém.

Quanto a mim, nasci trinta anos depois da peste, que na época chamou-se gripe espanhola, e ela, disfarçada, com outro nome, veio me esperar em outra idade.

Por enquanto, nós, os sobreviventes, nos defendemos como no romance que mais leitores me trouxe: “Avante, soldados: para trás “.

Senão, vocês não vão. Vocês vão para a Cochinchina procurar joguinho e rede social, as duas coisas mais buscadas na internet. Cada um sozinho diante da telinha. (xx)

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