ANFITRIÃO & CORNO E SÓSIA

Deonísio da Silva *

Anfitrião é palavra que veio do grego “Amphytryon”, nome de um mítico chefe guerreiro de Tebas.

Para engravidar Alcmena, esposa do dono da casa, o todo-poderoso Zeus, o maior deus do Olimpo, disfarça-se de marido dela e pede ao divino colega Hermes – equivalente ao deus Mercúrio, em Roma – que também se disfarce e se torne idêntico ao escravo Sósia. Assim, disfarçado de Sósia, como Zeus disfarçou-se de Anfitrião, que está viajando, Hermes fica de guarda à porta da residência do casal.

Foi assim que as palavras anfitrião e sósia passaram de nomes próprios a substantivos comuns e vieram para o nosso dia a dia.

Antes de chegar ao português e a outros idiomas, anfitrião fez escala no francês “amphitryon”, palavra dicionarizada em 1752, quase um século depois da peça “Amphitryon”, de Molière, pseudônimo de Jean-Baptiste Poquelin.

Outros autores deram a peças suas o mesmo título, como é o caso de Plauto em “Amphytrio”, na Roma antiga, e de Luís de Camões em “Anfatriões”, com a variante “Enfatriões”, na Lisboa antiga.

Todavia no português do Século XVI anfitrião ainda não designava o dono da casa que recebe convivas ou aquele que paga as despesas de banquetes ou refeições. Nem sósia a pessoa tão semelhante a outra que com ela pode ser confundida.

Enfim, o primeiro sósia foi Hermes, não Sósia. Era idêntico ao escravo, mas não era ele, era deus. E o primeiro anfitrião era muito parecido com Anfitrião, mas não era o marido, era um deus devasso que também se disfarçara em cisne para transar com Leda.

A escala no francês foi decisiva para dar a anfitrião e a sósia os significados que hoje têm. Antes de designar pessoa de gesto nobre e generoso, que recebe outros em sua casa, anfitrião indicou originalmente, então, o marido da adúltera, popularmente conhecido por corno. Ou comborço, mas esta é palavra de uso muito raro. O mais famoso comborço do português do Brasil é Escobar, amante de Capitu, assim referido por Bentinho, o marido.

Dos dois casos amorosos de Zeus nasceram gêmeos: Castor e Pólux, de Leda; Hércules e Íficles, de Alcmena.

Dos escritores brasileiros que inseriram explicitamente e adaptaram a fascinante mitologia greco-latina em suas obras, Monteiro Lobato talvez tenha sido o mais notável.

De todo modo, para efeito de memorização por meio do português vulgar, lembre-se que o primeiro anfitrião foi corno. (fim)

  • professor federal aposentado e escritor

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