NO SILÊNCIO DESTE DIA…QUE SILÊNCIO?

Por Deonísio da Silva

Publicado originalmente na revista VEJA, 9 mar 18

Duas orações famosas e muito bonitas, pregando a paz e supondo o silêncio, foram atribuídas a São Francisco de Assis, este improvável padroeiro de políticos que sempre defenderam o dito “é dando que se recebe”. Isto é, dando o que é dos outros, recebendo o que é não é deles.

Provavelmente estas orações sejam de autoria anônima. Da Oração do Amanhecer pouco se sabe. Da Oração de São Francisco sabe-se que seu autor é um católico anônimo, que a deu de graça ao padre da paróquia que frequentava.

Foi publicada pela primeira vez em 1912. Os jornais que mais a divulgaram originalmente foram o La Croix (francês) e o L´osservatorio romano (do Vaticano).

Nos anos 20, um folheto com a imagem de São Francisco de Assis trazia no verso a oração, então já famosa, e a autoria foi atribuída ao santo.

O silêncio está em falta no mundo inteiro. O dedo indicador sobre os lábios desapareceu ou tornou-se um sinal inútil. No máximo, por enquanto ainda podemos substituir os ruídos por música.

É frequente que a nosso lado estejam pessoas que não prestam mais atenção a ninguém, somente a elas mesmas, refugiadas em seus fones de ouvido.

Assim, não é de todo espantoso que já ocorra o que Umberto Eco imaginou numa de suas crônicas publicadas ainda no ano 2.000 e intitulada “Compreremo pacchetti di silenzio?” (Compraremos pacotes de silêncio?).

O grande professor e escritor italiano dizia que a profecia de Giovanni Papini tornara-se realidade e que, sendo impossível cancelar os ruídos desagradáveis, era necessário providenciar contrarrumores agradáveis. Dava como exemplo desta iniciativa as músicas de aeroporto, que têm como objetivo amenizar o barulho dos aviões.

Tal como na Itália, no Brasil, já de si tão expansivo em todos os sentidos, o silêncio tornou-se uma utopia. Os ruídos são invasivos, insuportáveis e, pior de tudo, ubíquos.

Não há mais refúgio. Não se encontra silêncio em lugar nenhum. Nem nos templos e nas igrejas, onde muitos sacerdotes e pastores deram em abolir o recolhimento e a transcendência inerentes a esses locais e de uns tempos para cá providenciaram diversos barulhos para animar suas missas e cultos.

Depois de um dia de trabalho, quando você pensa que se livrou do barulho e entra no elevador, vem a “música de elevador”, que às vezes é mais irritante ainda.

Você desce do elevador e eis a rua, sempre ruidosa, mesmo tarde da noite. Não há mais horas mortas. Agora somente há horas vivas, buliçosas, estrondosas..

Seja qual for o transporte que você utiliza para chegar em casa e usufruir um pacote de silêncio -, o carro, o ônibus ou o metrô, todos invadem seus ouvidos. Os olhos você fecha, o nariz você tapa, o tato você protege, mas os ouvidos não têm proteção. O máximo que você pode fazer é amenizar os barulhos ou substituí-los por outros.

Por fim, depois de um dia inteiro de trabalho, seja qual for a medida do seu dia – garçons, cozinheiros, médicos, enfermeiros e outros profissionais dos ciclos noturnos, como os professores e os jornalistas, trocam boa parte do dia por boa parte da noite – você adentrou ao sagrado recesso do lar e acha que, agora, sim, você terá direito à quota de silêncio que lhe cabe, mas eis que seu vizinho pode ser um bárbaro ainda inalcançado pelos deveres mínimos da civilização, que o obrigariam a respeitar o espaço do semelhante, coisa que ele desconhece ou finge ignorar.

E, dentro de casa, a televisão rosna. Você não a ligou? Que importância tem isso? Outros, sob o mesmo teto ou sob o teto vizinho, a ligaram. E você acompanha telejornais, filmes, seriados e telenovelas à distância ou face a face.

Em resumo, você quer ler ou ouvir música, ou as duas coisas juntas? Será que você conseguiu ler este texto em silêncio ou pelo menos escolheu de trilha sonora o barulho que você queria?

Há alguns séculos, talvez agora sejam mais bem entendidos, homens e mulheres se refugiaram em conventos, em ermidas, em grutas, longe de tudo e de todos, mas, principalmente, longe do já insuportável barulho dos começos da Idade Média para se proteger das sucessivas hordas de bárbaros que invadiram o império. Mal ou bem, o império romano e a igreja católica, sua potente aliada a partir do século IV, puseram ordem nos barulhos do mundo. Em muitos deles, ao menos.

Pois saibamos que hoje os bárbaros voltaram munidos de outras armas e querem nos destruir pelos ouvidos. Não estão mais ante portas.

Os bárbaros estão no meio de nós. Suas armas são poderosíssimas e nos alcançam onde quer que estejamos, aonde quer que vamos.

O silêncio tornou-se impossível. É um bem inacessível. Ou, pelo menos, o mais raro dos bens. (xx)

DE ONDE VEM TCHAU?

Tchau veio de uma frase que dizia: “sou seu escravo”.

Do italiano “ciao”, pronunciado “sciao” no dialeto de Veneza, reduzindo a palavra “schiavo”, escravo, na saudação feita ao encontrar-se ou despedir-se de alguém: “Sono vostro schiavo” (sou seu escravo). Sobre esse dialeto do Vêneto, ver também a variante “la tchiesa”, em vez de “la quiesa”, para “igreja”.

No Brasil, diz-se tchau apenas na despedida.

Em Gênova, virou ciau, que passou ao espanhol como chau e ao português como tchau.

Parecem estranhas essas referências à escravidão, mas há outros exemplos em antigas regras de cortesia nas quais aparecem expressões de servidão: “a seu serviço” e “fico à sua disposição”, “Sou Fulano de tal, seu criado”etc.

COVIDAR: NASCE UMA PALAVRA

Adentrou ao português do Brasil o verbo covidar. Seu étimo é “covid”, da sigla Covid-19.

Conjuga-se como cantar. Por enquanto, o modo mais frequente tem sido o pretérito-perfeito: eu covidei, ele/ela covidou, eles/elas covidaram.

Já se usa muito também o particípio “covidado”. “Ele está covidado desde a semana passada, você não soube?”. E o recinto destinado exclusivamente ao tratamento de covidados é o covidário.

A formação de palavras como estas não é planejada. Semelham rios que vão fazendo o próprio caminho. Essas palavras parodiam os versos de Antonio Machado: “falante, não há palavras, as palavras se fazem ao falar”.

O italiano designou “influenza” uma doença que ganharia o mundo pelo francês “grippe”, que nos deu o substantivo gripe e o verbo gripar, com um particípio muito frequente: gripado.

A SARS não nos deu novas palavras, mas a Covid-19 deu.

O MANUSCRITO DE MONTECÚCCOLO

Conto inédito, especial para o Correio do Povo ( 05/03/2016)


http://correiodopovo.digitalpages.com.br/#/edition/53242?page=4&section=2


Deonísio da Silva *


Parte I
Devemos ao italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, frade missionário capuchinho, a descrição de infanticídios que assombraram primeiramente os portugueses, depois o resto do mundo civilizado, e que serviram de motivo adicional para justificar a presença europeia naquelas terras, iniciada com a conquista portuguesa do litoral centro-africano, ocorrida entre os séculos XVI e XVII.

Tendo vivido treze anos na África, ele cumpriu todos os ofícios que lhe atribuíram a Cúria Romana e a Ordem de São Francisco, às quais servia, dedicando-se também, como era comum entre padres e outros letrados, a registrar tudo o que via, sentia e ouvia.

Ele fala com esmero das atrocidades e dos rituais violentos, que incluíam o genocídio de tribos rivais inteiras e o sacrifício de crianças que tinham a cabeça esmagada para que seus miolos fossem servidos em cerimônias religiosas, sob a alegação de que dariam mais força aos guerreiros. As mulheres, mães ou não, eram dispensadas destas refeições.

Tais atos eram perpetrados por uma etnia em especial, a dos jagas, guerreiros nômades que atacaram tribos rivais nas regiões conhecidas depois pelos nomes de Angola, Matamba e Congo, esta última transformada em país pelo rei belga Leopoldo II.

Sim, este monarca comprou um país só para ele, acumulando fortunas para si e para seus apaniguados, comercializando diamante, ouro, prata, marfim e borracha, extraídos com mão de obra grátis, explorada sob condições das mais degradantes, que, quando reveladas, deixaram o mundo enojado de tanta ambição e crueldade. Todavia, todas estas violações tiveram muito menos destaque do que o infanticídio descrito pelo religioso.

O piedoso homem de Deus livra a cara de muitas etnias e culturas primitivas da África, como os bacongos e os mbundos, mas talvez exacerbe o que presenciou ou lhe contaram sobre os jagas, registrando pormenores assustadores na sua Descrição Histórica de três reinos: Congo, Matamba e Angola, situados na Etiópia inferior ocidental e das missões apostólicas feitas por religiosos capuchinhos.

A conquista religiosa, é claro, diferiu muito das outras conquistas que compuseram a tríade sobre a qual outros governantes passaram a mandar. As outras duas eram a militar e a política, mas as três davam-se em consonância, pois padres, militares e diplomatas viajavam às vezes nos mesmos navios que ali aportavam. Contudo a conquista religiosa, se não foi cruel por meios reais, foi cruel por meios simbólicos, impondo virtudes de outro mundo, de valores e negativas a quem os desconhecia, e erradicando os vícios dos evangelizados, que, entretanto, resistiram, obrigando os europeus a algumas fusões, misturando procedimentos religiosos cristãos a superstições, e santos a entidades míticas dos cultos praticados por aqueles povos.

O frade era mais um eurocêntrico, naturalmente. Já chegou à África muito desconfiado, pois antes dele outros colegas de hábito, de outras ordens religiosas, sobretudo, haviam descrito e narrado muitas estranhezas.

Mas, além do infanticídio, o que mais reprovavam quase todos os autores destes registros? A poligamia, o concubinato e o sexo livre, praticado séculos antes de ser apresentado como bandeira juvenil no Festival de Woodstock, realizado em 1969 nos Estados Unidos, com a diferença de que neste último evento estiveram presentes 400.000 pessoas. Os donos do poder voltavam a assustar-se, vendo no fenômeno uma demonstração inequívoca de que o comunismo internacional dava sua arrancada para a vitória final sobre o capitalismo, que séculos antes vitimara a África, levando tantos negros para mão de obra escrava nas Américas, e realizaria a tarefa mediante a contracultura, vírus que então se instalara no coração dos EUA. Se uma das principais manifestações da repressão política era a sexual, os jovens teriam pensado que poderiam começar pelo sexo livre, reprovado por todos os poderes, mas especialmente pelo religioso.

Afinal, todo o clero sempre apreciou muito o assunto “vida sexual dos outros”, não apenas pelo que deveriam extrair das confissões epocais feitas pelo relato de pecadores e sobretudo de pecadoras, que deveria ser minucioso, como ordenavam os manuais dos confessores.

Parte II

Aline me ligou bem cedo. Ela sabe que eu madrugo. Ela não acha graça alguma na aurora, e prefere outras formas de luz. Tinha acabado de voltar do motel, para onde fora com o marido de sua amiga Alessandra, depois que ela deixou a sós o próprio marido, Sérgio, com a amiga, alegando estar muito cansada e precisando dormir. Mui amiga da outra, esta Aline.

Bem, a outra não foi dormir coisa nenhuma. Da despedida rumou para uma esticadinha na praia, onde Iemanjá era homenageada com flores muito bonitas. Na noite escura, Iemanjá recebia a todas, vestidas de branco, parecendo puras e belas. No dia seguinte, podia-se desconfiar de tanta pureza e beleza, pois Iemanjá devolvia, não apenas, muitas flores, como também algumas feiosas que tinha resolvido permanecer um pouco mais nas praias.

Alessandra, amiga de Aline, estava tranquila: deixara o marido e a amiga na Barra da Tijuca, e agora estava na zona sul, pois, como se sabe, o Rio não tem zona leste: nenhum território é conhecido por esta denominação, de resto frequente em todas as outras cidades brasileiras banhadas pelo Oceano Atlântico, cujas águas, como se sabe, vacilam entre ficar na costa africana e vir para cá, estando em constante vai e vem.

Aline amava um abastado chefe de bandidos, Elevador. Ele vivia no luxo e na riqueza. E Aline, filha de um banqueiro, ao comparar a vida do amante com a vida do pai, do sogro, do marido e do ficante habitual, constatava que, de todos eles, igualmente ricos, o mais livre era justamente Elevador.

Fascinado pela amante, Elevador a recebia como a uma princesa no morro. Por fora a construção não era muito diferente dos barracos que a rodeavam, a não ser pelo tamanho, pois era imensa. Lá dentro, ela encontrava todo o conforto que a casa do pai e do marido lhe proporcionavam, acrescido de uma coisa que nenhum deles tinha: a privilegiada vista da cidade do Rio de Janeiro, posta aos pés de quem mandava nela, isto é, os bandidos, que ali viviam em casas sem grades, sem portões e até sem fecho nas portas. Ali, sim, a autoridade imperava. Havia quem mandava e havia quem obedecia, tudo na mais perfeita hierarquia. E sem as delongas judiciárias que tanto prorrogam e às vezes impedem a justiça.

A pena de morte não era rara. Na primeira visita à casa de Elevador, antes de entrarem, ela viu que um capataz do amante conduzia três jovens amarrados ao pescoço por uma corda e com as mãos atadas em cipós. Há regiões do Rio em que o século XVI ficava bem pertinho…E era um pulinho da cidade até ali!

Ela olhou espantada para o amante e este lhe disse com certa displicência: “Infelizmente ainda temos que dar este tipo de lição, que vai ficando rara”, acrescentando: “ao roubar, eles acabaram matando umas criancinhas, e isto é crime que não se pode perdoar”.

Como ela fizesse uma segunda pergunta, ele disse: “Mas logo ninguém mais teria segurança e eles poderiam matar a nós também. Segurança! Já ouviu falar nisso?”. E deu-lhe um beijo de boas-vindas, dizendo, por fim: “Esquece! Eu cuido de tudo aqui. Nada de ruim pode acontecer a ninguém, muito menos a você. E aqueles três cometeram as barbaridades em outra comunidade, mas, se eu não punir, o povo de lá vem pra cá e pune a todos nós, culpados ou não”.

Era verdade. Minutos depois, sem abrir a porta, alguém perguntou lá de fora: “Chefe, quem vai levar os recado dos “morto” ?”.

Elevador largou os lábios de Aline, interrompendo o beijo comprido de línguas entrelaçadas para dar a ordem simples: “Ninguém! Só avisa o da TV”.

E, antes de voltar ao que fazia antes com a moça, disse: “Podia avisar pelo jornal, mas ninguém lê. Aviso pela TV, assim todo mundo vê. E o rádio dá também, porque quase sempre TV e rádio vêm junto”. “No jornal vai sair também”, disse Aline. “Vai, sim, meu amor, mas para gente como vocês. Para gente como nós, é a TV e o rádio”. Aline insistiu: “E a internet? Não sai na internet?”. Elevador sorriu: “Sim, sim, sim. Mas na internet sai tudo junto e misturado, é mais difícil do nosso povo entender”.

Ele tinha um reino, incluindo local, povo e uma língua, que só os iniciados a entendiam por inteiro. E voltaram ao amor, deixando a guerra para os comandados do rei Elevador.

Parte III

Os franciscanos pertencem a uma ordem religiosa fundada em 1221 por São Francisco de Assis. Provavelmente teria vida efêmera, não fosse o apoio da rainha Isabel, da Hungria, e de Luís IX, da França, ambos santos também. Isabel nasceu no Castelo de Bratislava e seu ancestral sangue nobre (era azul, mas não por cianose) já regara outras das mais poderosas casas reais europeias.

Isabel era sobrinha de Santa Edwiges, tia de Santa Cunegundes e de Santa Margarida e tia-avó de Santa Isabel, rainha de Portugal, casada com Dom Dinis I, rei, lavrador e poeta, fundador da primeira universidade portuguesa, em Lisboa, depois transferida para Coimbra.

Rezam os registros feitos por padres, fidalgos e outros cortesãos que o nascimento da padroeira da Ordem de São Francisco foi anunciado por Klingsohr da Transilvânia, um trovador medieval, com estas palavras: “Vejo uma estrela que se levanta da Hungria e brilhará no mundo inteiro”.

Isabel, como Francisco, gostava muito de pobres, de animais, de pássaros e da Mãe Natureza, enfim. O famoso Milagre das Rosas é atribuído às duas Isabel: à da Hungria e à de Portugal.

A primeira Isabel tornou-se viúva, seu marido morreu na primeira Cruzada. Expulsa do reino porque lhe usurparam o trono, recusou também casar-se de novo, como queria seu tio Otto, poderoso bispo de Bamberg, preferindo confiar a educação dos três filhos a parentes ao entrar para a Ordem Terceira de São Francisco.

Dela disse Bento XVI, antecessor do atual papa Francisco: “Ela vivia com os pobres e obtinha o sustento com o trabalho de suas próprias mãos”.

Pel’ amor de Deus, como os nobres tinham medo de trabalhar! Para isso, eles contavam com escravos ou servos, que tudo faziam para eles, às vezes explicitamente – como os serviçais da roça, da pecuária ou da casa, estes últimos até lavavam as partes de patrões e patroas quando não havia sido inventado ainda o papel higiênico – outros indiretamente, como os militares, que garantiam aquelas conquistas, feitas entretanto sob o domínio da lei, mas se sabendo de antemão que à falta do medo e do respeito às novas normas, viria a força armada.

Todavia ao tempo de Bento XVI, Igreja e Estado já não andavam lá muito unidos. Pensando bem, alguns atos daquele papa deram muito o que falar, como o que a Cúria Romana, de que era chefe máximo, inventou em 20 de novembro de 2007.

Foi assim. A Cidade do Vaticano fez emissão extraordinária de selo comemorativo da vida de Isabel com 300.000 séries completas e 10 selos por folha, vendidos a 65 centavos de euro cada um, arrecadando uma fortuna. E há quem diga que santidade é coisa de carola! Sem negar todos os outros benefícios humanitários, é também um grande negócio, pois sem dinheiro pouco se faz neste mundo e é por isso que Elevador faz o que faz no morro, vendendo um pó branco de muita pureza, pelo qual muitos ricos da orla do Rio são fascinados, devidos a seus poderes de arrebatamento semelhantes a êxtases de santidade.

Além dos temas aqui aludidos, na homilia daquela semana, numa igreja da Barra da Tijuca, outro franciscano, chamado Clóvis, citando São João, lembrou aos fiéis que tudo é da terra, não sai da terra e volta para a terra. Mas falava do céu.
Nos dias seguintes, na universidade que Aline frequentava, foram travadas acaloradas discussões sobre a cara de governantes de todas as alas e matizes, insensíveis ao surto de zika, à microcefalia, à violência urbana, às mortes no trânsito, aos assassinatos e a outras mortes encomendadas, incluindo o aborto naturalmente, do qual não encontramos nenhum registro nos documentos do frade capuchinho italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo.
Está presente nos tempos atuais, como se sabe, o fio vermelho de sangue que percorreu todo o conto que o Espírito soprou, que, como se sabe, não apenas sopra onde quer, mas sopra também como quer e nem sempre de forma que podemos compreender, pois seus sinais, ai, meu Deus, às vezes são quase ilegíveis. Ontem foi Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, mas hoje foi Deonísio da Silva. (xx)
º Deonísio da Silva é escritor e professor federal aposentado. Tem 35 livros publicados.

O PRIMEIRO NOME DO RIO FOI RIA

O primeiro nome do Rio de Janeiro foi “Ria” de Janeiro.

No século XVI, assim como o latim “rivus” deu ribeiro e ribeira, deu “ria” também, palavra hoje de pouco uso, mas que designa braço de mar, canal de água salgada ou mesmo um trecho sinuoso, maior do que uma enseada e menor do que um golfo. É este o caso do que veio a chamar-se Baía da Guanabara.

O experiente navegador Gaspar de Lemos, que a descobriu no dia 1º de janeiro de 1501, jamais confundiria água salgada com água doce, e a denominou “Ria” de Janeiro.

Naquele mesmo século, mas trinta anos depois, outro navegador, Pero Lopes de Sousa, escreveria um Diário da Navegação, e cometeria o erro de transcrição que ia mudar o nome da localidade de “Ria” de Janeiro para Rio de Janeiro…

Quando Estácio de Sá fundou a cidade, ainda dia no Século XVI, a 1º de março de 1565, já não se escrevia mais “Ria” de Janeiro e, sim, Rio de Janeiro.

Estava consolidado Rio de Janeiro, nome que hoje se aplica ao estado e à sua capital, que foi também capital do Brasil, depois de Salvador, na Bahia. Mas a mudança fatal para o Rio de Janeiro não foi mudar de Ria para Rio. Foi perder para Brasília, em 1960, o posto de capital do Brasil. O Rio, mais de meio século depois, ainda não se recuperou desta perda e tem recaídas ao agir e ser considerado como se ainda fosse. Não é mais. Nem Brasília o é. A capital do Brasil é São Paulo.

O MUNDO VIRA

O movimento é cíclico. De vez em quando volta. Depois vai. E depois volta outra vez.

Talvez seja esta uma boa metáfora em vulgar para a dialética de Hegel, que, se tivesse emigrado, seria catarinense ou gaúcho. E depois iria para o Paraná ou para Rondônia.

Nos anos 30, a maior democracia do mundo proibiu álcool. Foi a Lei Seca. Liberaram em seguida, depois de muito sangue e violência. Veio a Segunda Guerra e a França foi libertada, mas os EUA também? Nos anos 50, os libertadores proibiram James Joyce de costa a costa. Ainda bem que um juiz federal disse que nada entendeu de “Ulysses” e designou um perito literário para perguntar-lhe se aquilo era literatura. O perito disse que era.

Dos EUA, a professora doutora Vania Winters, de Letras, minha ex-colega num câmpus de concentração da pátria amada, jamais ex-amiga, me escreveu em 2020 para dizer que algumas escolas estavam fazendo edições especiais de ROMEU E JULIETA para extirpar pênis, vagina e outras referências sexuais daquela e de outras obras de Shakespeare e de outros autores clássicos.

Nos países em que essa moda de proibir pega, nem podemos imaginar a confusão que pode rolar. Logo estão queimando ou ocultando livros.

O “politicamente correto ” é uma forma de censura. Como fazer na Espanha? Suprimir “judías” do cardápio? Ainda não pensaram em censurar os restaurantes!

O “politicamente correto” mutila ou exclui o contexto. Os companheiros de Pelé, negros, brancos ou pardos, bradavam em campo uns aos outros: “dá a bola pro negão que ele resolve”. Outros, como Gérson, substituíam “negão” por “crioulo”. Ninguém se ofendia. Eles se entendiam, dentro e fora do campo. E nós também.

Voltando. E a massa à putanesca, prato servido às prostitutas, como indica o étimo, tarde da noite ou já de madrugada, feito com restos de ingredientes dos restaurantes, que surgiu justamente para dar comida àquelas senhoras, vão tirar dos cardápios e dos dicionários? Valha-nos, Deus!

Essas coisas sabemos como começam, começam sempre do mesmo jeito, mas não sabemos como terminam. É aí que mora o perigo.

Daqui a pouco os retrógrados pegam alguém de grande popularidade e a personalidade vai à mídia defender a censura aos livros que ele e seus asseclas nunca leram e jamais consultaram. O ocultamento de obras referenciais na mídia já estão fazendo. E nas escolas já se fala mal de autores como Monteiro Lobato por erro de interpretação, isto é, por não saber ler.

Para quem nunca leu um livro, todos eles estão previamente e para sempre censurados.

Registro também o silêncio dos aiatolás do idioma, na divertida síntese de Augusto Nunes. Os sacristãos do vale-tudo nessas horas estão caladinhos!

Mas nós estamos acostumados: para defender a liberdade e seus avanços, sempre estivemos sem eles.

Depois que a luta que eles não travaram, foi vencida, eles aparecem para “outros” comentários!

Clarice Lispector tem um livro que até no título já diz muito: ONDE ESTIVESTES DE NOITE?

A questão é sempre a mesma, seja para deixar livros circularem livremente, seja para deixar as pessoas viverem em paz: defender a liberdade!

Inclusive defender a deles, de nos espinafrar nos conciliábulos que fazem às escuras ou nas redes sociais.

TPM FOI CAUSA DA ROTA DA SEDA

Disse um escritor já na idade bíblica dos setenta, portanto um homem experiente, que há outra teoria para a descoberta da Rota da Seda.

Foi assim: a poligamia já estava em vigor há algum tempo entre os árabes. Não se sabe o motivo, um dia todas as mulheres amanheceram de TPM. Os homens ficaram desesperados.

Não havia ainda bares ou restaurantes. E eles, apavorados, mesmo sem ter para onde ir, saíram todos de casa.

Alguns já corriam risco de vida por terem criticado o véu ou a burca das esposas. Alguns maridos reclamantes levaram esfirras e quibes pela cara. Marco Polo ainda não tinha trazido o macarrão da China. Portanto, ainda não havia pau de macarrão.

Outros observaram discrepância semelhante (“com essa ventania, por que ela pôs de novo este vestido arrastando pelo chão ?”), ficaram quietos, mas assustados com as mulheres da casa cortando cebola com certa violência naquela manhã, sem esvaziar o coração de sentimentos de vingança ao fazer isso. Algumas tinham vindo fazer perguntas com a faca torta na mão: “está quieto por quê?”.

Então, sem combinar, como fazem os homens, eles arrearam os camelos e saíram sem rumo pelo deserto. Estava descoberta a Rota da Seda. Sem querer. E assim tornara-se mais uma contribuição feminina involuntária para a História. Mulher não fica de TPM por querer. Ela mesma a detesta.

Mas por que os homens voltaram? Eles e elas ficaram com saudades mútuas. E homem algum resiste à saudade de uma mulher, quanto mais da mulher amada, ainda mais de duas, três ou quatro na mesma casa, querendo rosetar (ainda se usa este verbo tão bonito e delicado?).

E por que partiram de novo? Porque a TPM vem todo mês.

E por que voltaram de novo? Ora, porque na vida tudo passa. As safras da TPM são ainda mais breves do que a vida. Devem tomar em média menos da metade da existência da mulher.

200 ANOS DE ANITA

POR QUEM OS SINOS DOBRAM? POR ANITA GARIBALDI.

Desta casa, em Laguna (SC), ela saiu toda arrumadinha, aos catorze anos, para casar-se com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar.

Tão linda quanto mal amada, três anos depois, no frescor dos dezessete, viveria o grande amor de sua vida com o italiano Giuseppe Garibaldi na Guerra dos Farrapos, que proclamou duas repúblicas.

Em julho de 1839, ambos proclamaram a República Juliana, declarando a independência de Santa Catarina. A nova forma de governo durou 129 dias. A República Piratini, dos gaúchos, sustentou a independência do Rio Grande do Sul por dez anos (1835-1845).

Anita Garibaldi foi encontrada estrangulada, este é um dos mistérios. Pode ter sido eutanásia ou alguém puxou o cadáver enlaçando-o pelo pescoço.

Ela estava combatendo na Itália, aos 27 anos, depois de ter lutado no Uruguai e no Brasil, que segundo os gaúchos são repúblicas vizinhas e anteparos do RS ao Sul e ao Norte, respectivamente. Suas façanhas são conhecidas em toda a terra, como proclama o hino deles.

O casal é nome de cidades , avenidas, ruas, praças, estátuas, museus, escolas etc. Brasil afora e também em Cuba, na Itália etc.

Em 2021 faz 200 anos que ela nasceu.

Até 1998, houve controvérsia sobre o local de nascimento de Anita: se Lages ou Laguna.

A polêmica foi dirimida por sentença judicial em 5.12.1998:

“Ante o exposto, julgo procedente o pedido inicial, a fim de determinar o registro de nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro, nascida em 30 de agosto de 1821, na cidade de Laguna, filha de Bento Ribeiro da Silva, natural de São José dos Pinhais, Paraná, e de Maria Antônia de Jesus Antunes, natural de Lages, Santa Catarina, sendo seus avós paternos Manuel Collaço e Ângela Maria da Silva e avós maternos Salvador Antunes e Quitéria Maria de Sousa, o que faço embasado no artigo 50, § 4º combinado com o 52, § 2º, da Lei n.º 6.015/73. (Ação de Registro de Nascimento Tardio n.: 040.98.000395-4).

Muito a pesquisar e a escrever sobre a heroína catarinense de dois mundos, que em vida disputou também o amor de Giuseppe Garibaldi com a gaúcha Manoela Amália Ferreira, de Pelotas (RS), filha de uma rica família de estancieiros, que já estava prometida a Joaquim, filho de Bento Gonçalves. Manoela morreu do coração, solteira, aos 83 anos, e foi sempre conhecida como a noiva de Garibaldi.

Nos anos 80, Josué Guimarães e eu escrevemos, sob encomenda, duas histórias curtas sobre essas mulheres emblemáticas da vida brasileira e da história: a de Josué chamou-se Amor de Perdição”.

Ele morreu logo após escrevê-la e, por iniciativa de sua viúva, Nydia Machado Guimarães, veio a ser publicada pela editora L&PM, em Porto Alegre. “Balada por Anita Garibaldi” está em meu livro “Contos Reunidos”, publicado em 2010 pela editora Leya.

INVASÕES BÁRBARAS (E CONSENTIDAS)

A propósito do Big Brother

Em 1993 ainda era possível surpreender-se. A bela e gostosa Sharon Stone, com as imagens ainda frescas na memória de todos do extraordinário cruzar de pernas sem calcinhas no filme anterior, “Instinto selvagem”, era vigiada por câmeras ubíquas, instaladas por William Baldwin em todo o prédio de luxo onde ambos moravam (ele, o dono; ela, inquilina), cada qual em seu apartamento, mas que diferença fazia para o espião? Como um deus que tudo vê, pior do que o triângulo ameaçador, com um olho no ângulo superior, quase sempre posto ao lado do crucifixo nos seminários onde estudaram tantos, ele vigiava tudo. Em vez de “Deus me vê”, “O vizinho me vê”. Sexo, repressão e bisbilhotagem. Sharon Stone chorando durante um orgasmo é coisa de nunca mais se esquecer, cala-te, boca! Um detalhe curioso: Baldwin pediu para excluir a cena em que ele fazia um nu frontal. Mas hoje as locadoras apresentam uma versão sem cortes, com diversas cenas que foram cortadas da telona, mas alto lá! O pudor americano, de ethos protestante, não causa escândalos nem em jardins da infância e educandários para pequerruchos brasileiros.

Nesses trópicos, seguindo Freud sem querer, a vida sexual começa cedo, em parte pelo clima, depois pela praia e antes de tudo pelos costumes paradoxais de um país que nasceu sob o signo da Contrarreforma, com ampla hegemonia do Concílio de Trento, mas com padres e demais colonizadores cercados de índios pelados por todos os lados na Ilha de Vera Cruz. Nem mesmo depois de mudado o nome para Santa Cruz ou Brasil, a repressão triunfou. Ao contrário, os franceses perderam a invasão de Portugal, mas, logo após a queda de Napoleão, para cá vieram com tudo, principalmente com costumes mais avançados do que aqueles vazados pelos padrões da época no século XIX!

O roteiro é de Joe Eszterhas. As ações se passam em Manhatan, o celebérrimo território de Nova York. A bela se envolve com a fera, e é desejada também por outro vizinho, Tom Berenguer, um furioso em estado bruto, suspeito número um dos assassinatos que ali ocorrem, escritor complicado e misterioso, com ideias sinistras.  “Invasão de privacidade”, adaptado do nome original, “Sliver”, logo estava disponível nas locadoras de vídeo, mas a censura nas salas prescrevia 18 anos, ave!

Repressão a gente empacota e vende, devem pensar os produtores. Phillip Noyce, o diretor, deve ter agradado à Paramount, que ganhou um bom dinheiro com aquele filme, ao mesmo tempo comercial e artisticamente muito bem cuidado, com trilha sonora de clássicos da música eletrônica, com destaque para os da banda de roque industrial Young Gods. Sucesso mundial, arrecadou 116 milhões de dólares, uma fortuna para a época.

O cinema, o vídeo e a televisão devem muito à literatura. “Invasão de privacidade” retoma em verdade o clássico personagem de George Orwell, Big Brother, figura solar do romance “1984”, publicado em 1948! A frase Big Brother is watching you, assim ambígua, pode significar que o Grande Irmão cuida de ti e também o Grande Irmão te vigia.

Mas se antes todos temiam o Big Brother, agora as coisas parecem de ponta-cabeça. Milhões de pessoas buscam olhar – melhor ainda se forem olhadas – os outros, vigiá-los, acompanhar cada pedaço do dia de suas vidas, com câmeras que por enquanto, mas só por enquanto, excluem o banheiro, ainda que, naturalmente, não o chuveiro.

A prova dos nove? Os milhões de telespectadores do programa homônimo da TV Globo, logo imitado por outras emissoras com nomes diferentes, mas sempre com o propósito solar do Big Brother original e do filme “Invasão de privacidade”: o voyeurismo. Voyeurs e voyeuses – sim, as mulheres também são multidões no prazer de espiar a vida alheia e talvez tenham antecedido os homens nesse particular.

Vivemos hoje na mídia, ao lado dessa patologia, uma outra de proporções igualmente alarmantes, a da confissão. A mídia, principalmente a televisão e a internet, transformou-se em um gigantesco confessionário.

A peça de madeira que hoje ainda vemos em igrejas e catedrais inclui uma treliça de madeira – talvez o conceito mais próximo do inglês “Sliver”, título original de “Invasão de privacidade”, cujo significado é lasca, tira. Inventado na Idade Média por engenhoso carpinteiro, a pedido de autoridade eclesiástica superior, tinha o fim de evitar que ao confessar-se a pecadora, mesmo sinceramente arrependida dos pecados, principalmente daqueles contra a castidade, se agarrasse ao confessor e daqueles abraços de mútuo conforto entre penitente e confessor nascessem pecados ainda maiores do que aqueles que estavam sendo relatados. A treliça deixava passar a voz, não a imagem dos pecadores que, ajoelhados e contritos, aguardavam a penitência e a absolvição, prometendo nunca mais pecar! Voltavam a pecar, naturalmente, do contrário a próxima safra da igreja ia para as cucuias, mas os ritos não dispensavam três coisas: a confissão, o arrependimento e a promessa de não fazer mais aquilo!

Agora é tudo sem treliça. E se o sujeito quiser o descruzar de pernas sem calcinhas e muito mais, raramente com a elegância da primeira descruzada da diva, agora já caminhando para o acaso da sua estonteante beleza, as ferramentas – não é assim que são chamadas? – estão à disposição na rede.

Há celebridades instantâneas e explícitas, querendo mesmo se mostrar para vender os corpos, como garotas de programas e ofícios de domínio conexo, que há poucos anos se anunciavam como cachorras, potrancas e gatas – afinal temos um passado agropecuário glorioso, um presente igualmente abundante e um futuro promissor para quem põe tudo à venda – e também as implícitas, como aquelas pessoas que vão aos programas de televisão protagonizar os mais escandalosos barracos.

Você troca de canal? Nem eu! São imperdíveis retratos de nossa modernidade. Logo após um suado pastor subir o monte não sei das quantas com um volume enorme às costas, cujo título é “Livro da Vida”, vem outro anunciar as tribulações anunciadas por profetas furiosos. Aliás, eles adoram a palavra “tribulação” e se fixam no Antigo Testamento, pois o Novo é muito suave para o que objetivam. É preciso ameaçar o povo, não libertá-lo!

Depois disso, nas altas horas principalmente, vem o resto, aquilo que não pôde ser proclamado nos programas matutinos e vespertinos, em meio a receitas culinárias e conselhos matrimoniais. Que vemos, então? Nos mais contidos, muitas lingeries. Nos mais explícitos, nenhuma! Mas o que querem elas e eles? Querem apenas rosetar? Não! Agora todos querem se mostrar! E há olhos por todos os cantos, vendo tudo, à frente de ouvidos, que tudo ouvem.

E o cérebro, propriamente? Bem, parodiando Cesare Pavese, o escritor italiano de “Lavorare estanca” (“Trabalhar cansa”) que, cansado de combater o fascismo, que o pôs atrás das grades, se suicidou em Turim aos 42 anos, inconformado e desesperado com os rumos de seu país no após-guerra, pensar também cansa! Bom mesmo é olhar! E olhar sem que o outro te veja, eis a chave do sucesso dessas permitidas invasões de privacidade.

A porta está aberta. Entre e olhe. Você não será visto! A impunidade está garantida. Será? Já se instalam câmeras em televisores para que sejam avaliadas as reações dos telespectadores. Na maioria deles as reações são as mesmas de uma alface ou de um repolho. Enquanto isso, na mesma sociedade que parece tudo vigiar, como mostram as multas de trânsito, inumeráveis crimes continuam sem solução, ao contrário do que ocorria em “Invasão de privacidade”. (xx)

Os exibicionistas e narcisistas se

afirmam na internet, na TV, em todos

os lugares onde podem fazer isso

Freud, o pai da psicanálise – mas registremos que a Literatura, a Dramaturgia e Outras Artes chegaram ao inconsciente antes de Freud! – ficava chateado quando seus críticos diziam que os psicanalistas interpretam arbitrariamente as falas do paciente, sempre de modo a confirmar teorias preconcebidas. Ele usa em seus escritos o verbo alemão bejahen, consentir, aprovar, concordar, afirmar, em conjunto verneinen, negar.

Talvez tenhamos que recorrer a olhares mais perspicazes para entendermos tamanha exibição e narcisismo nos dias que correm. Algumas referências solares mudaram nosso modo de ver a nós mesmos e ao mundo, até então um olhar hesitante entre a Terra e o Céu, que no fim explicava tudo. Era a luta do Bem contra o Mal. A felicidade estava no alto, no Céu. A infelicidade estava em baixo, na Terra. E certamente bem além das camadas do pré-sal, ainda não conhecidas, ficavam os Infernos, para onde, depois de viver num vale de lágrimas, iríamos arder por toda a eternidade num fogo inextinguível.

Assim como a Igreja, Freud deu muita atenção aos fundamentos da família, por ele descritos como um repertório de patologias. O pai, e principalmente a mãe, enchiam de traumas e doenças psíquicas os seus filhos, depois de seus pais terem feito o mesmo com eles. Os filhos, uma vez mais, iam repetindo o esquema. Naturalmente a escola ajudava a família a afundar o indivíduo, como muito mais tarde dois autores demonstrariam num livro clássico. Jean-Claude Passeron e Pierre Bourdieu nem eram psicanalistas, eram sociólogos, quando publicaram “La Reproduction: élements por une théorie de l’énseignement”. Os conceitos ali desposados sobre escolas e professores deviam muito a Michel Foucault de “L´ordre du discurs”.

Mas, se Freud explica muitos exibicionistas pelo mundo afora, apesar de Santo Agostinho ter assegurado que um rosto irado não é latino nem grego, alguns exibicionismos são, como a jabuticaba, exclusivamente brasileiros. Sim, no fim a condição humana é a mesma em qualquer espaço e tempo, mas é que no Brasil ganha uma curiosa cor local.

Vamos a alguns exemplos. Em que outro país temos mulher-pera, mulher-melancia, mulher-morango, mulher-uva etc.? Depois de terem arrasado com a pecuária e a veterinária – já foram potrancas, cavalas, galinhas, vacas, peixões etc. – as metáforas migraram do reino animal para o vegetal. E agora são frutas. E frutas que se exibem dia e noite.

Nesses trópicos, a Contrarreforma, cujos brasões, lemas e conteúdos foram colados na pele dos brasileiros como breu pela Companhia de Jesus, com a ajuda de outras ordens religiosas, naturalmente, mas com os jesuítas liderando o processo, tudo na base da condenação ao corpo para vivificação da alma, eis que os corpos e seus pecados triunfaram alegremente depois disso. Já tinham triunfado antes, pois o pecado ainda não tinha chegado ao Brasil. Foi trazido por portugueses. Nas areias brasileiras, um herege famoso viu ainda fresquinhos os rastros de Adão.

À sombra e embaixo de bananais, as bananas estavam em boa ordem. Umas eram alimento, outras produziam filhos. Freud adoraria saber que dar uma banana, ofensa de fundo sexual – mas em Freud o que é que não é sexo, se até o cocô das crianças é? – apontava a fruta em outra direção. Freud adorava etimologia e procurava as fundas raízes e verdades dos vocábulos alemães para fixar neles o exato conceito operacional de seu palavreado. Ajudemos o nosso pai psicanalítico, então. É só mais um parágrafo.

Banana veio do árabe banana, dedo, talvez tenha se mesclado à palavra de som semelhante, presente no galibi, língua ameríndia da família caribe, falada no Norte do Amapá. A banana aparece classificada nas ciências como angiosperma, subdivisão do reino vegetal que inclui plantas que dão flores e cujas sementes estão encerradas no pericarpo. Nenhuma dessas mulheres-frutas quis ainda ser banana. Banana, por enquanto, só o indivíduo amorfo, moleirão, preguiçoso, sem vontade própria. Mesmo para a conotação sexual, banana perdeu o posto para a berinjela!

Angiosperma é um perigo etimológico. Karpós designa fruto, em grego. O pericarpo designa tudo o que, no fruto, está ao redor da semente, o seu perímetro. Angiosperma é a semente encapsulada, o que fica evidente na formação da própria palavra: angio, vaso; sperma, semente. A angina, por exemplo, uma cardiopatia, doença do coração, indica aperto, sufoco.

Dar uma banana não significa presentear alguém com a fruta. A expressão visual consiste em apontar o cotovelo para o interlocutor, a título de deboche ou escárnio. A frase é comum no Brasil, em Portugal, Espanha, França e Itália, com o mesmo significado de vingança, ofensa ou desabafo. Mas a banana na expressão é ingrediente do português falado no Brasil, já que as outras línguas não ilustram o gesto com frutas. Madame Pompadour encomendou um quadro ao pintor francês Joseph-Marie Vien intitulado “La Marchand d’Amours” em que um dos amores aparece dando uma banana. Já a expressão “a preço de banana” remonta a um tempo em que a banana dispensava poucos cuidados e integrava aquelas frutas já existentes no Brasil antes do descobrimento, não sendo nem necessário plantá-la para que frutificasse.

Pero Vaz de Caminha, autor da famosa Carta, cunhou expressões famosas, uma das quais aludia às excelências da nova terra: “Em se plantando, tudo dá.” O minucioso escrivão tinha, porém, um estilo menos sintético e emitiu o mesmo juízo em outras palavras: “Querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo.” A frase, porém, permaneceu na memória popular, não com o contorno original dado por Caminha, mas na forma que a tradição consagrou. Ainda que reconhecida como atividade para a qual tudo lhe era favorável – terra, irrigação, clima, vegetação etc. – a agricultura foi ali evitada pela primeira vez. Havia outros interesses. O próprio Caminha termina sua Carta pedindo emprego público ao genro, eximindo-o de trabalhar a terra, ofício considerado indigno de nobres no século XVI. Apesar de sua importância, também foi adiada a publicação da certidão de nascimento do Brasil, que só apareceu em 1817. Nela são postas em relevo as belezas naturais e a inocência dos índios, cuja evangelização ele indicou como a tarefa principal de um rei cristão. Acusados de indolentes e incapazes para o trabalho, os índios ficaram plantando bananeiras, em vez de cultivá-las comercialmente, que é como se denomina a brincadeira que consiste em firmar as mãos no chão e elevar o corpo, de modo a que os pés semelhem a árvore da banana. Tal metáfora se inspirou no formato do pé dessa erva de grande porte, cujo nome latino é musa paradisiaca (musa do paraíso), mas que entre sua parentalha conta com a banana-anã, a banana-caturra, a banana-d’água, a banana-nanica e outras. A banana petiça, que tem esse nome por ser baixinha, é a mais cultivada em todo o mundo, por ser tão profícua quanto as de maior porte, porém mais resistente aos climas frios.

Mas a banana fará sua mais sinistra estreia na condenação do primeiro herege brasileiro, Pedro de Rates Henequim, que não pôde dar uma banana para a Inquisição. Para o teólogo, Deus tinha criado o paraíso terrestre, o famoso éden, no Brasil. Convicto dessa certeza, passou a elaborar suas teses e desdobrá-las em complexas afirmações. O fruto proibido tinha sido a banana. Nem figos nem maçãs, como quiseram os renascentistas. Havia uma banana na História da Salvação. Para cometer o primeiro pecado, Eva não descascou o abacaxi, mas a banana. E Adão pisou no tomate!

Surgiu recente controvérsia no meio científico dando conta que no Brasil a banana está ameaçada de extinção. Outras expressões, como embananado e bananosa, significando confusão, podem estar ligadas aos primórdios da comercialização da banana, que era vendida em dúzias, cachos e quilos. Misturando tais medidas, surgia a inevitável confusão. Em sentido conotativo indica pessoa lerda, frouxa, sem iniciativa. O demônio, que tem todos os defeitos, tem também o da avareza e em vez de oferecer maçã à segunda mulher – a primeira, como sabemos, foi Lilith, a lua negra – ofereceu-lhe banana, muito mais barata já naquele tempo. A expulsão do éden saiu a preço de banana para o príncipe das trevas, que fez um bom negócio e até hoje está comprando almas a preço de banana. É verdade que por algumas ele paga um pouco mais, como no caso do lendário Mefistófeles, depois personagem central do famoso romance “Fausto”, do autor alemão Johann Wolfgang Goethe, que vendeu sua alma ao demônio por um alto preço, numa operação mercantil que envolveu um contrato complexo. A dialética, porém, nos ensina que do mal pode nascer o bem. Desse negócio com o demônio resultaram lendas memoráveis, grandes romances, sendo “Fausto” o melhor de todos, no qual foram baseadas óperas de músicos famosos como Berlioz e Gounod.

Quem põe o dedo nessas feridas de narcisistas e exibicionistas que nadam de braçadas na mídia chamando desesperadamente a atenção de todos? Podemos dar uma banana para eles e voltarmos a nossos ofícios? Não! Precisamos examinar o que nos dizem, o que escondem. Há um recado por trás dessa disparatada e obsessiva exposição. E há também uma lógica, inclusive uma lógica histórica, geográfica, climática! O fio dental – cordão cheiroso, na Bahia, e de todo modo uma nada discreta alusão à boca – teria que suceder à tanga, esta vinda dos índios, num clima quente! E do maiô e da tanga para o fio dental, passou-se da proteção às partes pudendas para um fetiche! É assim que o Diabo gosta!

Mas que Diabo havia no Brasil antes do Descobrimento? O primeiro diabo por aqui era o tupi Anhanguá, mas havia também Anhanguera, diabo velho ou espírito do diabo. As deidades indígenas foram descritas por tradutores cristãos – em geral, padres jesuítas –, havendo contaminação ainda na fonte. Com efeito, Anhangá, dado como equivalente a Satanás, ao Diabo ou a outro nome que tenha o Coiso, não corresponde a ele em quase nada. Anhanguera significa diabo velho, mas não com o sentido de mais antigo habitante do inferno, Lúcifer, derrotado no primeiro cisma que houve no céu, quando foi lançado aos abismos pelas forças de São Miguel Arcanjo. Falecem-lhe também poderes adicionais por, sendo diabo e velho a um só tempo, ser mais ardiloso em razão de um saber de experiências feito. Não, o Anhanguera indígena é um diabo velho exatamente porque, estando na velhice, não detém mais os antigos poderes, tendo diminuído a prática de malefícios, não por súbita conversão ao Bem, mas por diminuição das forças. Pode queimar um copo de água ardente, mas não um rio inteiro.

O que poucos sabem é que o Brasil teve um Anhanguera Júnior, filho de Bartolomeu Bueno da Silva, célebre bandeirante paulista que iniciou a exploração de Goiás no século XVII, levada adiante no século seguinte por filho e neto. O filho do segundo Anhanguera, como era chamado o pai, tinha o mesmo nome do avô. E foi igualmente bandeirante, tendo enfrentado os índios caiapós. Há um pequeno município que homenageia os três. É Anhanguera, que tem apenas 869 habitantes e fica na microrregião de Catalão, município goiano com pouco mais de 50 mil habitantes. Foi, porém, o filho, e não o neto do primeiro Anhanguera, um dos principais responsáveis pela lenda da Serra dos Martírios, segundo a qual deveriam se embrenhar mata adentro até encontrar os sinais das chagas de Cristo num rochedo, ao pé do qual encontrariam esmeraldas, ouro e prata. A lenda inspirou o filme “No coração dos deuses”, longa-metragem de Geraldo Moraes, que homenageia o escritor Paulo Setúbal e transpôs para as telas a cena antológica narrada pelo romancista. Nela, outro famoso bandeirante, Fernão Dias Paes Leme, condena seu próprio filho à morte. O diretor contou no roteiro com as pesquisas de Paulo Bertran e Manoel Rodrigues Ferreira, estudiosos da redescoberta da Serra dos Martírios. Na primeira viagem, quando acompanhou o pai, o segundo Anhanguera tinha apenas 12 anos. Aquela, sim, foi uma aventura para o então adolescente!

A civilização ocidental, que tanto deve e tanto tem a haver da Igreja, fez um inferno simples, se comparado com o modelo que o inspirou, os infernos greco-latinos. As inferna latinas – plural de infernum, inferno – estavam situadas embaixo da terra. Comparando-o à geena judaica, Jesus Cristo diz que “ali há choro e ranger de dentes”. A religião católica tomou como modelos para seu inferno o judaico e o grego. Os infernos romanos, grafados no plural, eram de uma exuberância digna de esplêndido romance. Militarizados e estruturados segundo rígida hierarquia, tinham disciplina, autoridades indiscutíveis e leis a cumprir. Sua criação faz alegoria a uma cidade subterrânea. Tinham também precisa localização geográfica: suas sedes estavam na Grécia e na Itália. À entrada, estavam os Pesares, os Remorsos, as Doenças, a Velhice, o Medo, a Fome, a Pobreza, o Sofrimento, a Morte, a Guerra e a Discórdia. Seguia-se um pátio onde estavam os Sonhos e vários monstros, como o Centauro e a Quimera, que terminava no Rio Estige, onde o barqueiro Caronte cumpria seu ofício levando as almas para o outro lado. Transposto o rio, encontrava-se o cão Cérbero, que guardava a entrada do lugar onde estavam as crianças que, vítimas da mortalidade infantil, não tinham gozado a vida, os criminosos e os suicidas. Dali por diante, o Estige se dividia em nove braços. Seguia-se o Campo das Lágrimas, onde estavam os fratricidas, os ladrões, os incestuosos, os que provocaram guerras civis e os traidores da pátria ou dos consortes, como os adúlteros. Ultrapassados esses lugares de punição, vinham os Campos Elíseos, onde gozavam a vida eterna os poetas, os inventores, os sacerdotes e outras pessoas de bem. Por fim, ao fundo, corria o Rio do Esquecimento, onde inumeráveis almas defuntas formavam-se para outras encarnações. Podia-se sair do inferno através de duas portas: a do Sono, que dava saída aos sonhos verdadeiros, e a de marfim, por onde escapavam os sonhos falsos e mentirosos. Convenhamos, poucas são as obras da literatura surrealista com tamanha imaginação. E quantas prefeituras têm uma organização tão bem estruturada? E quantos prefeitos têm a competência do alcaide-mor dos Infernos?

Saibamos, porém, que a privacidade escancarada e a exibição desenfreada se inserem como mão à luva no contexto do maior dos pecados: o consumo a qualquer custo. As pessoas estão ali para se vender ou para serem vendidas. São os novos escravos que, aliás, às vezes só se alugam por algumas temporadas, como os jogadores de futebol.

Marx demonstrou que, ao contrário do que pensávamos, não vivíamos como pensávamos, mas pensávamos como vivíamos. E Saussure, liderando a tribo linguística, foi adiante e nos deu a entender que coisas misteriosas dentro de nós nos ordenam a dizer o que não queremos, que pensamos esconder em complexas redes de metáforas. Mas lá chegaram também Freud e Lacan.

Nós precisamos de autores como esses para entender a pretendida falta de privacidade que tantos querem e a exposição absoluta que almejam na mídia. Deus e Diabo já nos abandonaram faz tempo na tarefa de entender o que se passa!

deonisio.dasilva@gmail.com

PS. Este artigo foi originalmente publicado na revista INTELIGÊNCIA e está disponível em http://www.insightinteligencia.com.br