O PORTUGUÊS DAS BULAS

As embalagens de remédios consagraram o latim “vide” no lugar do português vede. Mas a segunda pessoa do plural no imperativo afirmativo é vede, como se lê já no Século XVI em Os Lusíadas, a obra referencial de Camões e da língua portuguesa, no episódio de Inês de Castro, aquela que depois de morta foi rainha: “As filhas do Mondego a morte escura/ Longo tempo chorando memoraram,/ E, por memória eterna, em fonte pura/ As lágrimas choradas transformaram;/ O nome lhe puseram, que inda dura,/ Dos amores de Inês que ali passaram./ Vede que fresca fonte rega as flores,/ Que lágrimas são a água, e o nome amores”.

Mas este é um pequeno viés do português das bulas de remédios. Vamos ao essencial. As bulas de remédios são inúteis para os consumidores. Além de trazerem informações desnecessárias e assustadoras, vêm carregadas de advertências confusas, que podem abalar a confiança que os clientes têm nos médicos.,

O objetivo é fornecer argumentos aos advogados dos laboratórios em eventuais ações judiciais. Os consumidores que se danem.

Numa viagem que fizemos juntos, vi Frei Betto tomando um suplemento vitamínico diferente do meu.

Ele aparentava muito menos idade do que os gloriosos sessenta e poucos aos quais tinha acabado de chegar, mas o segredo da juventude não está apenas naquele concentrado que tomava e, sim, na meditação que fazia todos os dias. E ainda faz.

Li a bula daquele concentrado e em 2006 publiquei um artigo no Jornal do Brasil, onde escrevia três vezes por semana, depois republicado em diversos blogues e outros lugares da mídia digital que surgia.

Minhas observações seguiram este Norte: a bula deveria prestar informações indispensáveis aos consumidores.

Mas não o faz com eficiência. A primeira dificuldade é o tamanho das letras. Quem lê as bulas? Quase
sempre as pessoas mais velhas. Ou porque vão tomar aqueles remédios ou porque vão administrá-los a
quem, mesmo sabendo ler, não entenderia o que ali vai escrito. Os laboratórios não pensaram nisso ao
escolher letras tão pequeninas. Ou pensaram e quiseram economizar papel. Seus consultores diriam ‘otimizar recursos’.

Alguns anos depois vi que a Agência Nacional de Saúde (ANVISA) tinha definido um novo modelo para as bulas.

A resolução prescrevia que as bulas deveriam ser impressas em letras Times New Roman, corpo 10, isto é, quase o dobro do então usado.

As bulas teriam um tipo de informações para os pacientes e outro para os
profissionais.

Foram incluídas também nove perguntas respondidas pela bula, explicando quais as indicações do remédio e quais os males que ele pode causar.

Alguém na ANVISA leu o nosso artigo. E acatou todas as sugestões ali contidas.

Mas, agora, examinando bulas mais recentes, constatei que o estilo pode ser melhorado: ter mais objetividade e menos palavras, dispensar redundâncias e com isso evitar o desperdício de papel e de tinta.
(fim)

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