FALAMOS BEM, MAS ESCREVEMOS MAL: POR QUÊ?

PORTUGUÊS: FALAMOS BEM, MAS ESCREVEMOS MAL. POR QUÊ?

Deonísio Da Silva *

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, escreveu Apparício Torelly, Barão de Itararé.

O brasileiro é senhor de uma habilidade verbal impressionante. Nos estádios, nos restaurantes, nos bares, nas ruas e em muitos outros lugares, é fácil comprovar que não somos um povo silencioso.

À beira de copos, pratos e rostos, falamos com objetividade, clareza, desenvoltura e graça. Todos nos entendemos admiravelmente. Todos temos o que dizer e sabemos como dizê-lo.

Quando, porém, precisamos escrever, parece que a língua nos assusta, as ideias travam e de nossas cabeças não sai nada que mereça o papel.

É fácil reunir exemplos de que escrevemos mal. É só consultar anúncios, editais, placas, memorandos, cartas, ofícios, relatórios, petições, sentenças. E em anos recentes as redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os milhões de zeros atribuídos a alunos cuja entrada na universidade foi impedida por insuficiência no português. É triste, mas necessária exclusão. Como vai aprender quem não domina a língua culta, se todas as disciplinas são ensinadas em português?

Esses textos foram escritos por ignaros e analfabetos? Não! Foram e são redigidos por profissionais competentes, a maioria deles já com curso superior!

Onde e como a universidade falhou na preparação? Como podemos evitar futuras derrotas? Como consertar a situação? Será que escrevemos mal porque lemos pouco? Temos dificuldades porque nossa gramática é muito complicada?

O que podemos fazer para resolver o problema? A empresa Oficina das Palavras, com sede em Curitiba (PR), que administra nossos direitos autorais, de texto, voz e imagem, foi criada em 2005 para viabilizar nossos trabalhos de professor, escritor e conferencista, depois que nos aposentamos por tempo de serviço na Universidade Federal de São Carlos (SP). Tínhamos exercido atividades docentes ou sido professor por quase quatro décadas (1968 a 2003). E desde então não paramos de trabalhar. De 2003 a 2020, permanecemos vinculados à Universidade Estácio de Sá.

O propósito da Oficina das Palavras é coordenar esforços para melhorar sempre o desempenho em língua portuguesa e suas literaturas nessas atividades, especialmente nos atos de ouvir, falar, ler e escrever.

Já prestamos trabalhos importantes a universidades como a Estácio (RJ), no Rio e em outros estados da federação, à Unisul (SC), a editoras diversas, especialmente à Lexikon, Ibis Libris, ao grupo editorial Almedina, à rádio BandNews e a comissões julgadoras de concursos, entre outros.

Cuidemos da língua portuguesa, vítima de tentativas de assassinato a tecladas diariamente na mídia.

Fechemos este artigo reiterando a advertência bem-humorada do gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

Quem tem o gosto de ler escreve melhor. Até mesmo sem querer. O texto sai das teclas com naturalidade, tal como as palavras saem da boca.

  • escritor e professor, da Academia das Ciências de Lisboa e Doutor em Letras pela USP. Seu livro mais recente é “De onde vêm as palavras” (São Paulo, Editora Almedina, 2021, 18a edição, 1.192 páginas).