Arquivo da categoria: Censura & Outras Proibições

O MUNDO VIRA

O movimento é cíclico. De vez em quando volta. Depois vai. E depois volta outra vez.

Talvez seja esta uma boa metáfora em vulgar para a dialética de Hegel, que, se tivesse emigrado, seria catarinense ou gaúcho. E depois iria para o Paraná ou para Rondônia.

Nos anos 30, a maior democracia do mundo proibiu álcool. Foi a Lei Seca. Liberaram em seguida, depois de muito sangue e violência. Veio a Segunda Guerra e a França foi libertada, mas os EUA também? Nos anos 50, os libertadores proibiram James Joyce de costa a costa. Ainda bem que um juiz federal disse que nada entendeu de “Ulysses” e designou um perito literário para perguntar-lhe se aquilo era literatura. O perito disse que era.

Dos EUA, a professora doutora Vania Winters, de Letras, minha ex-colega num câmpus de concentração da pátria amada, jamais ex-amiga, me escreveu em 2020 para dizer que algumas escolas estavam fazendo edições especiais de ROMEU E JULIETA para extirpar pênis, vagina e outras referências sexuais daquela e de outras obras de Shakespeare e de outros autores clássicos.

Nos países em que essa moda de proibir pega, nem podemos imaginar a confusão que pode rolar. Logo estão queimando ou ocultando livros.

O “politicamente correto ” é uma forma de censura. Como fazer na Espanha? Suprimir “judías” do cardápio? Ainda não pensaram em censurar os restaurantes!

O “politicamente correto” mutila ou exclui o contexto. Os companheiros de Pelé, negros, brancos ou pardos, bradavam em campo uns aos outros: “dá a bola pro negão que ele resolve”. Outros, como Gérson, substituíam “negão” por “crioulo”. Ninguém se ofendia. Eles se entendiam, dentro e fora do campo. E nós também.

Voltando. E a massa à putanesca, prato servido às prostitutas, como indica o étimo, tarde da noite ou já de madrugada, feito com restos de ingredientes dos restaurantes, que surgiu justamente para dar comida àquelas senhoras, vão tirar dos cardápios e dos dicionários? Valha-nos, Deus!

Essas coisas sabemos como começam, começam sempre do mesmo jeito, mas não sabemos como terminam. É aí que mora o perigo.

Daqui a pouco os retrógrados pegam alguém de grande popularidade e a personalidade vai à mídia defender a censura aos livros que ele e seus asseclas nunca leram e jamais consultaram. O ocultamento de obras referenciais na mídia já estão fazendo. E nas escolas já se fala mal de autores como Monteiro Lobato por erro de interpretação, isto é, por não saber ler.

Para quem nunca leu um livro, todos eles estão previamente e para sempre censurados.

Registro também o silêncio dos aiatolás do idioma, na divertida síntese de Augusto Nunes. Os sacristãos do vale-tudo nessas horas estão caladinhos!

Mas nós estamos acostumados: para defender a liberdade e seus avanços, sempre estivemos sem eles.

Depois que a luta que eles não travaram, foi vencida, eles aparecem para “outros” comentários!

Clarice Lispector tem um livro que até no título já diz muito: ONDE ESTIVESTES DE NOITE?

A questão é sempre a mesma, seja para deixar livros circularem livremente, seja para deixar as pessoas viverem em paz: defender a liberdade!

Inclusive defender a deles, de nos espinafrar nos conciliábulos que fazem às escuras ou nas redes sociais.

BOCETA NÃO ERA PALAVRÃO

Originalmente, boceta ou buceta designou caixinha feita de uma madeira chamada buxo, do grego “búxys”, pelo latim “buxus”.

Veja o mito da Boceta de Pandora, recipiente onde estavam guardados todos os males do mundo.

As mulheres gregas e romanas da Antiguidade usavam esse tipo de caixa para guardar suas joias e outras preciosidades.

No século XVIII, a vulva já era comparada a boceta, mas com este significado, a palavra só caiu na boca do povo (epa!) três séculos depois.

No Século XIX, com o antigo significado, aparece no romance “Helena “, de Machado de Assis, de sua fase romântica. Nada do segundo significado ainda.

Os homens também carregavam consigo uma pequena boceta com rapé. Era chique cheirar a boceta e espirrar.

Boceta em casa e no bolso, escarradeiras nas residências abastadas, nenhum cinzeiro, que só chegará mais tarde, quando bocetas e escarradeiras tinham ido embora. E agora o cinzeiro também está dando adeus e já sumiu de muitos lugares.

A história das palavras revela muito dos usos e costumes.

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Leia:
“…— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa
bocetinha de joalheiro.” (Helena, de Machado de Assis, capítulo XI).

O PAPA QUE QUEIMOU GIORDANO BRUNO LIBEROU O CAFÉ

Em 17 de fevereiro de 1600, Giordano Bruno foi queimado vivo. Sem ele, talvez não tivéssemos Galileu Galilei.

Em 1999, foram encontrados diversos volumes do processo, que estava perdido ou escondido há 400 anos.

O papa Clemente VIII, presidindo aos festejos da fogueira sagrada do Santo Ofício & Inquisição, tomou algumas xícaras de café, achou saborosa a “bebida do demônio” e a liberou para o mundo cristão.

Descoberto e cultivado por povos muçulmanos, o café era até então proibido aos católicos.

Clemente VIII herdou um mundo em ebulição. Era o quarto papa depois de Gregório XIII, aquele que mudou o calendário em 4 de outubro de 1582, tirando-lhe dez dias justamente no dia da morte de Teresa D’Ávila, que foi enterrada no dia seguinte, 15 de outubro.

Entre seus antecessores, o pontificado de um durou dez meses, o de outro apenas dez dias.

E se daqui a pouco surgir um poderoso que libere certas drogas? Não mudará o calendário, mas certamente mudará o mundo.