Arquivo da categoria: História do Português

QUARESMA E MARACUJÁ: POR QUE VINCULADOS?

O jornalista Ricardo Boechat e eu criamos o programa semanal de rádio “Sem Papas na Língua” em 2011. Desde então vai ao ar cinco vezes por semana na rede Bandnews FM.

Dia 18/2/2021, dei a
origem da expressão “arcar com as consequências” e das palavras “quaresma” (não são 40 dias, como indica o étimo, é número simbólico) e da bonita vinculação da flor branca e roxa do “maracujá”, comida na cuia, em tupi, pela formação mara (alimento) + cuya (recipiente) com os sofrimentos da Paixão, incluindo a semelhança das anteras com os espinhos da coroa imposta a Jesus por deboche adicional daqueles que O crucificaram.

Maracujá é fruto, mas não é fruta. Fruta é o fruto comestível. Nem todo fruto é fruta, mas toda fruta é fruto.

Esta distinção foi feita mais na fala do que na escrita. Fruta formou-se no latim vulgar do plural neutro de “fructum” (no latim culto, “fructum ” era e é “fructus “), resultando em “fructa”, depois “fruita” até consolidar-se em fruta, o fruto que se come na natureza, sem preparo algum.

A oração da ave-maria usa o latim culto em bela metáfora: “benedictus fructus ventris tui” ( bendito o fruto de teu ventre).

Para ouvir a coluna, clique aqui: http://bandnewsfmrio.com.br/colunistas-detalhes/deonisio-da-silva

PALAVRAS DA CHUVA


Se a chuva cai do céu e esteve antes no mar, por que não é salgada como a água de onde ela saiu ao subir? Sobe salgada e desce doce?


Mais: ao sair de casa levamos guarda-chuva ou sombrinha? Há um conceito embutido nas palavras. O guarda-chuva e a sombrinha nos protegem da chuva e do sol…

Como diz a Pollyanna Brêtas, limitarei um pouco os hiperlinks, como ela chama minhas janelinhas…


Dizemos CHUVA, mas ela não é medida pelo índice “chuviométrico”, e, sim, pelo índice PLUVIOMÉTRICO. Isto porque a língua portuguesa veio pouco do latim culto e muito do latim vulgar. Não tanto o latim escrito, mas o latim falado, que depois passou ao português escrito, como palavras do português escrito passaram para o português falado, nem sempre com facilidade.


Como o latim vulgar nem sempre predominou nos registros e anotações, as águas da chuva não são águas “chuviais”, mas águas PLUVIAIS. E essas águas não são escoadas pela rede “chuvial” da prefeitura, mas pela rede PLUVIAL. E deixam a cidade pela rede de galerias PLUVIAIS.

E aí temos uma outra palavra curiosa: GALERIA, originalmente o átrio de uma igreja onde ficavam gentios (judeus, não cristãos) a serem convertidos para entrarem na igreja propriamente dita. E por ali saírem! E este lugar chamava-se GALERIA porque era comparado à GALILEIA, região oposta à JUDEIA, berço do povo eleito em Israel.


Nas outras línguas que vieram do latim, as escolhas consolidadas foram outras: “lluvia”, em espanhol; “pluie”, em francês; “pioggia”, em italiano, mas “piovere” para chover. No inglês, é “rain”, como no alemão é “Regen”, ambas do latim, mas do étimo de outra palavra, regare, que deu irrigar em português.


Em resumo, reitero que há muitos conceitos embutidos nas palavras. Para se proteger dela, usamos o GUARDA-CHUVA, que o espanhol chama de “paraguas”; o italiano de “ombrello” (do atim “umbra”, sombra); o francês de parapluie; o inglês de “umbrella” (sombrinha, vinda do latim “umbra”, sombra); o alemão de “regenschirm”, guardar e proteger-se a chuva, pois o étimo de GUARDAR veio do germânico antigo “warden”, cuidar, vigilar, hoje “wärten”, no alemão moderno, esperar, proteger, cuidar, como abajur para a língua de Goethe é “Lampenschirm”, guardar ou proteger a lâmpada, quando para o francês é suavizar, quebrar, como deixa claro em “abat-jour”, abater o dia, quebrar o dia, regular a luz da lâmpada como se regulava a luz do Sol que entrava pela janela. E deu quebra-luz.


Mas quando se trata da chuva, a proteção é providenciada para fora de casa. A menos que haja goteira dentro de casa, do latim “gutta”, gota.

DE ONDE VEIO A BOLACHA MARIA

Deonísio da Silva *

A famosa bolacha maria foi criada em 1874 por um padeiro inglês para homenagear a grã-duquesa russa Maria Alexandrovna, filha do czar Alexandre II, então noiva do príncipe Alfred, filho da rainha Vitória.

Mas a palavra bolacha, de bolo, do latim “bulla”, bola (por sua forma esférica), mais o sufixo “acha”, quase sempre pejorativo, estava registrada na língua portuguesa desde 1543.

Provavelmente, o padeiro inglês designou “cracker” ou “cookie” o seu invento, por influência do vocábulo holandês “koekje”, cujo étimo está em cuca, bolo coberto com farofa doce.

Da Inglaterra, a bolacha foi para a Espanha, o México, a Austrália, o Brasil, a Índia, a África do Sul e Portugal, de onde chegou ao Brasil.

Bolacha e biscoito, embora às vezes usados como sinônimos, designam alimentos diferentes.

O biscoito, como o nome indica, do latim “biscoctum”, cozido duas vezes, não é macio como a bolacha, por ser torrado, e já tinha vindo com Cabral. Pero Vaz de Caminha registra que os índios detestaram a gororoba.

Já da bolacha, todo mundo gostava e comia em outros formatos, e continuou a comê-la.

  • de “site” no WordPress

AS VERGONHAS E AS PARTES

Por Deonísio da Silva

Talvez a primeira vez que ouvimos a palavra “vergonha” tenha sido da boca de nossa mãe para nos ensinar bons modos: “Não tem vergonha na cara, não?”. Sim, desde crianças, vigora a clássica oposição bons modos x maus modos.

“Vergonha” continuava a designar as partes pudendas, resumidas para partes apenas, aquelas partes do nosso corpo no baixo ventre das quais deveríamos ter vergonha.

A vergonha foi parar na cara, mas as vergonhas continuaram no baixo ventre.

É curioso este par singular e plural e talvez indício de machismo na língua portuguesa, uma vez que, como ensina o suíço Ferdinand Saussure, “o ponto de vista cria o objeto”.

A índia terá deixado à mostra só uma vergonha, como certificado por Pero Vaz de Caminha em sua famosa “Carta”, descoberta apenas no Século XIX, embora traduzida para o italiano ainda antes de chegar a Portugal para ser entregue a um dos magnatas genoveses ou venezianos que tinham financiado a viagem.

“E uma daquelas moças era toda tingida, de cima a baixo, daquela tintura; e era
tão bem feita e tão redonda, e a sua vergonha (que ela não tinha) era tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, faria vergonha por não terem a sua como a dela”. (Carta de Pero Vaz de Caminha).

Vergonha já designava no Século XV as partes sexuais e o sentimento.