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FALAMOS BEM, MAS ESCREVEMOS MAL: POR QUÊ?

PORTUGUÊS: FALAMOS BEM, MAS ESCREVEMOS MAL. POR QUÊ?

Deonísio Da Silva *

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, escreveu Apparício Torelly, Barão de Itararé.

O brasileiro é senhor de uma habilidade verbal impressionante. Nos estádios, nos restaurantes, nos bares, nas ruas e em muitos outros lugares, é fácil comprovar que não somos um povo silencioso.

À beira de copos, pratos e rostos, falamos com objetividade, clareza, desenvoltura e graça. Todos nos entendemos admiravelmente. Todos temos o que dizer e sabemos como dizê-lo.

Quando, porém, precisamos escrever, parece que a língua nos assusta, as ideias travam e de nossas cabeças não sai nada que mereça o papel.

É fácil reunir exemplos de que escrevemos mal. É só consultar anúncios, editais, placas, memorandos, cartas, ofícios, relatórios, petições, sentenças. E em anos recentes as redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os milhões de zeros atribuídos a alunos cuja entrada na universidade foi impedida por insuficiência no português. É triste, mas necessária exclusão. Como vai aprender quem não domina a língua culta, se todas as disciplinas são ensinadas em português?

Esses textos foram escritos por ignaros e analfabetos? Não! Foram e são redigidos por profissionais competentes, a maioria deles já com curso superior!

Onde e como a universidade falhou na preparação? Como podemos evitar futuras derrotas? Como consertar a situação? Será que escrevemos mal porque lemos pouco? Temos dificuldades porque nossa gramática é muito complicada?

O que podemos fazer para resolver o problema? A empresa Oficina das Palavras, com sede em Curitiba (PR), que administra nossos direitos autorais, de texto, voz e imagem, foi criada em 2005 para viabilizar nossos trabalhos de professor, escritor e conferencista, depois que nos aposentamos por tempo de serviço na Universidade Federal de São Carlos (SP). Tínhamos exercido atividades docentes ou sido professor por quase quatro décadas (1968 a 2003). E desde então não paramos de trabalhar. De 2003 a 2020, permanecemos vinculados à Universidade Estácio de Sá.

O propósito da Oficina das Palavras é coordenar esforços para melhorar sempre o desempenho em língua portuguesa e suas literaturas nessas atividades, especialmente nos atos de ouvir, falar, ler e escrever.

Já prestamos trabalhos importantes a universidades como a Estácio (RJ), no Rio e em outros estados da federação, à Unisul (SC), a editoras diversas, especialmente à Lexikon, Ibis Libris, ao grupo editorial Almedina, à rádio BandNews e a comissões julgadoras de concursos, entre outros.

Cuidemos da língua portuguesa, vítima de tentativas de assassinato a tecladas diariamente na mídia.

Fechemos este artigo reiterando a advertência bem-humorada do gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

Quem tem o gosto de ler escreve melhor. Até mesmo sem querer. O texto sai das teclas com naturalidade, tal como as palavras saem da boca.

  • escritor e professor, da Academia das Ciências de Lisboa e Doutor em Letras pela USP. Seu livro mais recente é “De onde vêm as palavras” (São Paulo, Editora Almedina, 2021, 18a edição, 1.192 páginas).

O PORTUGUÊS DAS BULAS

As embalagens de remédios consagraram o latim “vide” no lugar do português vede. Mas a segunda pessoa do plural no imperativo afirmativo é vede, como se lê já no Século XVI em Os Lusíadas, a obra referencial de Camões e da língua portuguesa, no episódio de Inês de Castro, aquela que depois de morta foi rainha: “As filhas do Mondego a morte escura/ Longo tempo chorando memoraram,/ E, por memória eterna, em fonte pura/ As lágrimas choradas transformaram;/ O nome lhe puseram, que inda dura,/ Dos amores de Inês que ali passaram./ Vede que fresca fonte rega as flores,/ Que lágrimas são a água, e o nome amores”.

Mas este é um pequeno viés do português das bulas de remédios. Vamos ao essencial. As bulas de remédios são inúteis para os consumidores. Além de trazerem informações desnecessárias e assustadoras, vêm carregadas de advertências confusas, que podem abalar a confiança que os clientes têm nos médicos.,

O objetivo é fornecer argumentos aos advogados dos laboratórios em eventuais ações judiciais. Os consumidores que se danem.

Numa viagem que fizemos juntos, vi Frei Betto tomando um suplemento vitamínico diferente do meu.

Ele aparentava muito menos idade do que os gloriosos sessenta e poucos aos quais tinha acabado de chegar, mas o segredo da juventude não está apenas naquele concentrado que tomava e, sim, na meditação que fazia todos os dias. E ainda faz.

Li a bula daquele concentrado e em 2006 publiquei um artigo no Jornal do Brasil, onde escrevia três vezes por semana, depois republicado em diversos blogues e outros lugares da mídia digital que surgia.

Minhas observações seguiram este Norte: a bula deveria prestar informações indispensáveis aos consumidores.

Mas não o faz com eficiência. A primeira dificuldade é o tamanho das letras. Quem lê as bulas? Quase
sempre as pessoas mais velhas. Ou porque vão tomar aqueles remédios ou porque vão administrá-los a
quem, mesmo sabendo ler, não entenderia o que ali vai escrito. Os laboratórios não pensaram nisso ao
escolher letras tão pequeninas. Ou pensaram e quiseram economizar papel. Seus consultores diriam ‘otimizar recursos’.

Alguns anos depois vi que a Agência Nacional de Saúde (ANVISA) tinha definido um novo modelo para as bulas.

A resolução prescrevia que as bulas deveriam ser impressas em letras Times New Roman, corpo 10, isto é, quase o dobro do então usado.

As bulas teriam um tipo de informações para os pacientes e outro para os
profissionais.

Foram incluídas também nove perguntas respondidas pela bula, explicando quais as indicações do remédio e quais os males que ele pode causar.

Alguém na ANVISA leu o nosso artigo. E acatou todas as sugestões ali contidas.

Mas, agora, examinando bulas mais recentes, constatei que o estilo pode ser melhorado: ter mais objetividade e menos palavras, dispensar redundâncias e com isso evitar o desperdício de papel e de tinta.
(fim)

MARX: FILHAS SUICIDAS E OUTRAS TRAGÉDIAS

Deonísio da Silva º

O suicídio é tema inconveniente em todo o mundo, não apenas no Brasil.

Quando pesquisava o tema do suicídio para escrever o romance Sfefan Zweig deve morrer, já publicado também em Portugal e na Itália, li de passagem coisas que me desconcertaram a respeito da vida de Marx, pensador referencial dos tempos modernos.

Soube então que duas filhas de Karl Marx e também seu genro, Paul Lafargue, se suicidaram. Quantos leitores sabem disso? Poucos. E quem lê isso fica às vezes tão chocado que faz o que a mídia tem por hábito fazer: omite esses fatos sombrios.

Todavia é preciso lembrar a frase emblemática que realça serem fatos e fatias da realidade circundante emissoras de clarões sobre pessoas cuja biografia deveríamos conhecer melhor. Disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em Meditações do Quixote: Eu sou eu e minha circunstância”. E se não salvo a ela, não me salvo a mim

Karl Marx está entre os vultos históricos dos quais as qualidades e o mérito das obras são realçados sobremaneira, mas pouco se diz sobre quem foi o homem, o filho, o marido, o pai, o amigo.

Faltou compaixão a Marx, que maltratou a esposa e teve um filho bastardo com Helena Demuth, empregada do casal. Helena, cujo apelido era Lenchen, tornou-se amiga da mulher de Marx, Jenny von Westphalen, que não fazia apenas as tarefas domésticas. Também cultivou flores pontiagudas na cabeça da patroa, mais conhecidas vulgarmente por cornos. Eram encontros apressados esses do amor ilegítimo sob o mesmo teto onde viviam todos. Mas certa vez Jenny viajou e ficou fora de casa por uma semana. Foi nessa temporada que o libidinoso Marx engravidou a assanhada Lenchen.

Talvez ambos tivessem sido libidinosos e assanhados todas as outras vezes, mas aquela viagem da patroa coincidiu com os dias férteis de Lenchen. E ela concebeu do patrão.

Para salvar seu casamento com Jenny, Marx escreveu a Engels pedindo que assumisse a paternidade do menino desta união, a quem foi dado o nome de Frederick: “Devo revelar-lhe um mistério tragicômico“, disse Marx a Engels, como conta Saul Padover em “Karl Marx: an Intimate Biography”.

Mas como o filho bastardo foi descoberto? Pai verdadeiro, pai adotivo e filho de ambos guardaram este segredo por toda a vida. Mas, então, Eleonora, filha de Marx,  veio a conhecer Frederick em 1895. Ele estava com 44 anos. E morreu em 1929.

Não se sabe que influências podem ter tido sobre as filhas e o genro de Marx estas e outras circunstâncias, mas o certo é que Eleonora e Laura, filhas de Marx, e o genro dele, Paul Lafargue, tiveram  os três um triste fim: os três se suicidaram.

Sobre tais fatos e sobre as hemorroidas de Marx poucos falam, embora sobre as hemorroidas Edmund Wilson assegure que elas foram decisivas para os capítulos mais contundentes contra a burguesia, pois foi nas crises da enfermidade que Marx os escreveu.

Essas circunstâncias diminuem Marx ou o engrandecem? O leitor é o senhor desta interpretação. Mas o que não podem é ser omitidas em nome do culto à personalidade.

Há mais. Um dos filhos de Marx morreu tão magro, mas tão magro, que escondia os braços finos sob o lençol para a mãe não os ver e parar de chorar. E foi o pai quem ficou ao lado da cama até o último suspiro do filho.

Não são, pois, apenas possíveis restrições nas circunstâncias. Marx era pai amoroso e gostava muito das crianças. Os filhos adoravam brincar de cavalinho com ele, montando sobre o pai, que galopava pela casa toda e depois voltava ao trabalho.

Ah, sim: e desconfiando de que sua teoria não seria lida direito, Karl Marx escreveu um romance, que estava inédito até há poucos anos. Não sei se já foi publicado. (xx)

Deonísio da Silva,  professor federal aposentado, é escritor e editor. Dirige para o grupo editorial Almedina a coleção Abelha: Mel & Ferrão.

A HISTÓRIA VISTA POR TEM-TEM

Encrenqueiros causam problemas aos outros, mas antes de tudo a si mesmos.

Tirando falhas estruturais de caráter, os contenciosos podem ser resolvidos com um procedimento mágico: imagine-se no lugar do outro, procure entender as razões de seu discordante e esforce-se por expor, com brevidade e clareza, as suas.

Brevidade e síntese nem sempre são possíveis. Mas entre lero-lero e silêncio, escolha o silêncio, é claro, pois este diz mais ao bom entendedor. Algum consenso emerge deste diálogo.

E se o interlocutor der sucessivas mostras de não ter vontade de entender o que vê, sente, ouve ou lê?

Daí você impõe a lei do silêncio. Do teu silêncio. E, se você crê nas transcendências, estenda o penúltimo manto redentor sobre o discordante que, diabólico, persevera no erro: a prece.

Penúltimo por quê? Porque sempre haverá outro recurso: aqui se faz e aqui se paga. Às vezes, no Judiciário. E nem sempre termina ali.

Em resumo, convém ir apenas até ao penúltimo recurso. Assim você evita escovar cabeça de burro com sabonete cheiroso ou perfumado xampu. O cuidado é dispensável porque talvez o animal conheça apenas sabão e não possa jamais perceber a diferença entre os produtos.

  • De pedaços de conversas com as psicanalistas Betty Milan, paulistana, e Gilda Pitombo Mesquita, gaúcha de Alegre-RS, amigas queridas.
  • Tem-tem é um passarinho. No romance “Stefan Zweig deve morrer” (Almedina, 2020), ele observa e é observado pelo escritor judeu-austríaco. Stefan, Lotte e Tem-tem vivem na mesma casa em Petrópolis (RJ), mas há um confinamento adicional para ele: a gaiola. O casal foi assassinado por nazistas. A versão das biografias, apoiadas na mídia e na delegacia de polícia, na época dominadas por um governo autoritário, é de que se suicidaram.

DEONÍSIO (DABOIT) DA SILVA: HISTÓRIA DE CADA UM

Imigração e migração: nossos ancestrais vieram de longe antes de chegar ao Brasil, onde se espalharam por muitos outros lugares.

Como as palavras, cada um de nós tem sua história. Pergunto a cada leitor: qual é a sua?

Quanto a mim, tudo começou em Siderópolis (SC), que mudou de nome. Chamou-se originalmente Nova Belluno. Os imigrantes italianos, saudosos da terra natal, davam o nome da localidade de onde tinham vindo, acrescentando o adjetivo “nova” na frente do nome. E assim sugiram Nova Trento, Nova Veneza etc. E Nova Belluno.

Belluno é uma palavra de origem etrusca. Virou “Béllum” (guerra), em latim, depois “bellúm” no latim vulgar, e “Bellún” no dialeto vêneto. Província e cidade têm o mesmo nome. A cidade fica a 100 km de Veneza e tem hoje 36 mil habitantes.

Quando o governo Getúlio Vargas instalou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Nova Belluno, os engenheiros mudaram o nome do então distrito de Urussanga para Siderópolis, do mesmo étimo de siderurgia, o grego “síderos”, ferro, que está entretanto também no étimo de sideral, por onde viajam planetas, foi grego “planetes”, viajante e também vagabundo, no sentido de vagamundo. “Um vagabundo como eu/ também merece ser feliz”, cantava em italiano o Giani Morandi na minha juventude.

Urussanga veio do tupi-guarani, uma junção de muitas línguas indígenas, e quer dizer Riacho dos Pássaros.

Acontece que ao passar para o latim, “sideris”, declinação de “sidus”, ferro, ensejou novo significado, como é fácil comprovar na expressão “espaço sideral”.

Quando os meteoritos conseguem chegar à Terra e são encontrados – podemos ver isso em museus -, comprovamos que eles são feitos de ferro.

Meu pai, um Correia da Silva, cujos ancestrais eram de Canela (RS), casou-se com uma Daboit, de família italiana que viera do Vêneto, e ambos, já com duas filhas, chegaram a Siderópolis, ex-Nova Belluno, atraídos pelas novas oportunidades de trabalho da CSN.

Eu fui o primeiro de seus filhos a nascer ali. Fui batizado pelo padre Agenor Neves Marques (que morreu em 2006), autor do livro “Catequista Ideal”.

Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 24 de agosto de 1954, nós já morávamos em Jacinto Machado, o novo nome que Volta Grande recebera para homenagear o brigadeiro Jacinto Machado Bittencourt, comandante militar que lutara na Guerra do Paraguai.

Lá ficamos sabendo que padre Agenor tinha sido denunciado ao arcebispo de Florianópolis, Dom Joaquim Domingues de Oliveira (morreu em 1967), como incitador das greves e revoltas dos mineiros na terna luta capital x trabalho.

A denúncia: “é elemento perigosíssimo à ordem pública, com palavra fácil e fluente, tem grandes recursos oratórios, é arrojado e de fértil fantasia”.

Dom Joaquim pediu explicações a padre Agenor, que assim respondeu: “Serei sempre revolucionário do bem, enquanto não vir o respeito dos fortes para com os fracos, a condescendência dos poderosos para com os humildes, a complacência dos ricos para com os pobres, a paz dos perseguidos contra a fúria dos perseguidores. Serei sempre revolucionário, enquanto houver na minha paróquia o ódio e a vingança, a perseguição e a calúnia, o orgulho e a prepotência!”.

Foram sermões desse padre que o menino Deonísio (Daboit) da Silva ouviu muitas vezes no colo de seus pais. E certamente o padre e todo o contexto lhe influenciaram o destino! (fim)

& este texto integra livro inédito para celebrar 30 anos do romance ‘Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os 10 de “Stefan Zweig deve morrer” ” (PrêmioNacional de romance de autor catarinense em 2012).

SABOR DE MORANGO

por Deonísio da Silva

A igreja de minha adolescência profunda era a sede ou matriz da Paróquia Santa Teresinha, em Jacinto Machado (SC). Ali fui coroinha. A foto é de meu amigo de infância, o querido Enio Frassetto.

Em certo domingo, depois da missa, um ciclista foi atropelado por um caminhão. Foi um auê danado.

Ainda paramentados, o padre e os coroinhas, Elói Semprebom e eu, os três também fomos ver o que tinha acontecido, pois era grande a perturbação no primeiro acidente de trânsito com vítimas humanas na localidade.

Cachorros e galinhas já tinham morrido ou sido machucados, mas, gente, não, nunca até então.

Estendido na rua de cascalho, em meio ao sangue e à dor, “gemente et flente”, como em famosa oração litúrgica que rezávamos em latim, o rapaz atropelado pensou que sua hora tinha chegado e aquela fosse a extrema-unção.

Sobreviveu manco e torto, o doutor Carlos Saboia fez as devidas cirurgias. Feliz da vida, apesar do susto e do trauma, ele casou-se com u’a moça tão linda como Nossa Senhora das Dores, “clemens, pia, santissima”, como na mesma prece, que passou a amar e cuidar do rapaz. Ele nunca mais andou de bicicleta.

Mas ela, sim, com uma Monark, sem varão, especial para mulheres, freiras e padres, com saia vermelha apertada, um batom lindo e unhas pintadas da mesma fascinante cor, ia confessar-se fora do horário com um padre que substituiu o pároco por algumas semanas. Ela ia todo dia nesse interstício, deveria ter muitos pecados a contar ou gostava de repeti-los.

Eu era menino estudioso, sempre, e obediente, quase sempre, e morava na Casa Paroquial para ser preparado para o pré-seminário, no Educandário São Joaquim, em São Ludgero, onde seria preparado para o Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, cujos padres me preparariam para cursar Filosofia e Teologia, em Vimão (RS). Se tudo desse certo, depois de 18 anos de estudo, por volta de 26 de idade, eu seria considerado apto para o sacerdócio e, fazendo os votos de castidade e de obediência, seria ordenado “sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec” (sacerdote, para sempre, segundo a ordem de Melquisedec) , pois é um rito radicado no Antigo Testamento que o cristianismo, dileto filho do judaísmo, aproveitou.

Nessas ocasiões, o padre interrompia meus estudos na mesa em frente à dele e me mandava colher moranguinhos no pomar atrás da igreja. E eu não gostava dessas interrupções.

Um dia voltei muito depressa, a mulher ainda estava no escritório do padre, que me mandou colher mais.

Fui de novo. Ao voltar com uma pequena bacia cheia de moranguinhos, ela tinha ido embora, e o padre disse que eu tinha colhido demais, tinha acabado com os moranguinhos.

Nunca soube a quantidade de moranguinhos a colher, mas uma coisa aprendi com Teresinha Vecchi, irmã do padre Carlos Vecchi, ambos de Laguna, ela era xará da padroeira, empregada doméstica de todo serviço e espécie de mordoma, e trabalhou a vida inteira com o padre Herval Fontanella, eterno vigário ou pároco de Jacinto Machado: “esse padre coadjutor vai ficar poucos dias, só até o padre Herval voltar, ele é diferente, quando ele atende no escritório, a gente não pode entrar lá, nem que seja para pegar alguma coisa que esqueceu”.

Esqueci muito e talvez tenha omitido ou acrescentado algo a essas lembranças. Os moranguinhos tinham diversos sabores: se mais para o vermelho, como os batons, se mais para o verde, como eu ficara quando assustado pelos tapas na cara recebidos por Artur, sobrinho do padre Herval, que ficara uns dias com o tio e esquecera de apagar as velas da igreja em certa noite, podendo ter causado um incêndio que destruiria a igreja inteira, como já tinha ocorrido com o seminário que estavam reconstruindo em São Ludgero, mas que podia ter sido incendiado de propósito por um político que brigara com o bispo, Dom Anselmo Pietrula.

Outros incêndios tomaram conta do menino, em grandes ou pequenas labaredas, às vezes ocultos em brasas como nesta outra idade, quando brotam tantas lembranças, e eu cumpro o destino que me coube, segundo o vaticínio do monsenhor Bernardo Peters ao me entregar os documentos do que estudei, alguns anos depois de desligado: “Gloria in excelsis Deo, tu non eris sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec, sed bonus puer”.(Glória a Deus, tu não serás nunca sacerdote, mas um eterno bom guri).

Talvez os honrados sacerdotes preceptores tenham insistido pouco, piedosamente ou não, para que o menino fosse o que lhe estava destinado, mas de algum modo ele tomou caminhos de domínio conexo ao tornar-se escritor e professor. As tentações sempre foram muitas, para os discípulos e para os mestres.

Àquele antigo menino coube viver para escrever estas lembranças e ensinar a outros o gosto de ler boas prosas que muito admiro e degusto, diante das quais considera a apenas um pequeno pedaço de sombra do que elas têm sido para ele.

Esse menino em mim jamais morrerá, nem mesmo depois de morrer, pois descerá como barro velho e subirá como barro novo, como ouvi outro dia em vernáculo numa igreja, nesses tempos em que os antigos ritos e o latim foram abolidos para que, soberano, mas sem que ainda se tenha educado o soberano, triunfasse outra vez, como sempre, o povo, que, por sua vez, evita e dificulta o caminho novo dos meninos, sejam eles filhos, netos, alunos ou discípulos.

É grande a diferença entre alunos e discípulos. Dos primeiros, o nome deles é legião ou povo, eles estudam e leem por necessidade. Dos outros, o nome deles é outro, existem em pequeno número, cada vez menor, e aprenderam a degustar as complexas sutilezas do tempo que lhes foi dado viver.

E, por isso, são para os outros motivo de preocupação ou desprezo. Podem até saborear moranguinhos, mas se repolho, alface ou capim, daria no mesmo. Certos gostos, sabores e saberes lhes são estranhos.

Quanto àquele menino, ele um dia aprendeu com o preceptor que lhe apresentou Terêncio, o Africano, que “homo sum, humani nihil a me alienum puto” (sou homem, nada do que é humano me é estranho).

Então, sua vida mudou para sempre, e tudo lhe desperta o gosto de invocar o memorial da vida, uma tarefa iniciada quando os gregos, tendo aprendido o alfabeto com os fenícios, começaram a registrar as histórias ouvidas para que fossem lidas por outros, sem os tomentos da pressa e do tempo.

Pois “ars longa, vita brevis” (a arte é longa, a vida é breve). Nossa vida é curta quando comparada à vida breve das borboletas, e longa quando comprada à das tartarugas, que vieram dos infernos, e à dos autores, anjos caídos que pretendem voltar.

  • Escritor e professor. Esta narrativa integra livro inédito que celebra os trinta anos do romance “Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os dez de “Stefan Zweig deve morrer”, já publicados também em outros países.

O MANUSCRITO DE MONTECÚCCOLO

Conto inédito, especial para o Correio do Povo ( 05/03/2016)


http://correiodopovo.digitalpages.com.br/#/edition/53242?page=4&section=2


Deonísio da Silva *


Parte I
Devemos ao italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, frade missionário capuchinho, a descrição de infanticídios que assombraram primeiramente os portugueses, depois o resto do mundo civilizado, e que serviram de motivo adicional para justificar a presença europeia naquelas terras, iniciada com a conquista portuguesa do litoral centro-africano, ocorrida entre os séculos XVI e XVII.

Tendo vivido treze anos na África, ele cumpriu todos os ofícios que lhe atribuíram a Cúria Romana e a Ordem de São Francisco, às quais servia, dedicando-se também, como era comum entre padres e outros letrados, a registrar tudo o que via, sentia e ouvia.

Ele fala com esmero das atrocidades e dos rituais violentos, que incluíam o genocídio de tribos rivais inteiras e o sacrifício de crianças que tinham a cabeça esmagada para que seus miolos fossem servidos em cerimônias religiosas, sob a alegação de que dariam mais força aos guerreiros. As mulheres, mães ou não, eram dispensadas destas refeições.

Tais atos eram perpetrados por uma etnia em especial, a dos jagas, guerreiros nômades que atacaram tribos rivais nas regiões conhecidas depois pelos nomes de Angola, Matamba e Congo, esta última transformada em país pelo rei belga Leopoldo II.

Sim, este monarca comprou um país só para ele, acumulando fortunas para si e para seus apaniguados, comercializando diamante, ouro, prata, marfim e borracha, extraídos com mão de obra grátis, explorada sob condições das mais degradantes, que, quando reveladas, deixaram o mundo enojado de tanta ambição e crueldade. Todavia, todas estas violações tiveram muito menos destaque do que o infanticídio descrito pelo religioso.

O piedoso homem de Deus livra a cara de muitas etnias e culturas primitivas da África, como os bacongos e os mbundos, mas talvez exacerbe o que presenciou ou lhe contaram sobre os jagas, registrando pormenores assustadores na sua Descrição Histórica de três reinos: Congo, Matamba e Angola, situados na Etiópia inferior ocidental e das missões apostólicas feitas por religiosos capuchinhos.

A conquista religiosa, é claro, diferiu muito das outras conquistas que compuseram a tríade sobre a qual outros governantes passaram a mandar. As outras duas eram a militar e a política, mas as três davam-se em consonância, pois padres, militares e diplomatas viajavam às vezes nos mesmos navios que ali aportavam. Contudo a conquista religiosa, se não foi cruel por meios reais, foi cruel por meios simbólicos, impondo virtudes de outro mundo, de valores e negativas a quem os desconhecia, e erradicando os vícios dos evangelizados, que, entretanto, resistiram, obrigando os europeus a algumas fusões, misturando procedimentos religiosos cristãos a superstições, e santos a entidades míticas dos cultos praticados por aqueles povos.

O frade era mais um eurocêntrico, naturalmente. Já chegou à África muito desconfiado, pois antes dele outros colegas de hábito, de outras ordens religiosas, sobretudo, haviam descrito e narrado muitas estranhezas.

Mas, além do infanticídio, o que mais reprovavam quase todos os autores destes registros? A poligamia, o concubinato e o sexo livre, praticado séculos antes de ser apresentado como bandeira juvenil no Festival de Woodstock, realizado em 1969 nos Estados Unidos, com a diferença de que neste último evento estiveram presentes 400.000 pessoas. Os donos do poder voltavam a assustar-se, vendo no fenômeno uma demonstração inequívoca de que o comunismo internacional dava sua arrancada para a vitória final sobre o capitalismo, que séculos antes vitimara a África, levando tantos negros para mão de obra escrava nas Américas, e realizaria a tarefa mediante a contracultura, vírus que então se instalara no coração dos EUA. Se uma das principais manifestações da repressão política era a sexual, os jovens teriam pensado que poderiam começar pelo sexo livre, reprovado por todos os poderes, mas especialmente pelo religioso.

Afinal, todo o clero sempre apreciou muito o assunto “vida sexual dos outros”, não apenas pelo que deveriam extrair das confissões epocais feitas pelo relato de pecadores e sobretudo de pecadoras, que deveria ser minucioso, como ordenavam os manuais dos confessores.

Parte II

Aline me ligou bem cedo. Ela sabe que eu madrugo. Ela não acha graça alguma na aurora, e prefere outras formas de luz. Tinha acabado de voltar do motel, para onde fora com o marido de sua amiga Alessandra, depois que ela deixou a sós o próprio marido, Sérgio, com a amiga, alegando estar muito cansada e precisando dormir. Mui amiga da outra, esta Aline.

Bem, a outra não foi dormir coisa nenhuma. Da despedida rumou para uma esticadinha na praia, onde Iemanjá era homenageada com flores muito bonitas. Na noite escura, Iemanjá recebia a todas, vestidas de branco, parecendo puras e belas. No dia seguinte, podia-se desconfiar de tanta pureza e beleza, pois Iemanjá devolvia, não apenas, muitas flores, como também algumas feiosas que tinha resolvido permanecer um pouco mais nas praias.

Alessandra, amiga de Aline, estava tranquila: deixara o marido e a amiga na Barra da Tijuca, e agora estava na zona sul, pois, como se sabe, o Rio não tem zona leste: nenhum território é conhecido por esta denominação, de resto frequente em todas as outras cidades brasileiras banhadas pelo Oceano Atlântico, cujas águas, como se sabe, vacilam entre ficar na costa africana e vir para cá, estando em constante vai e vem.

Aline amava um abastado chefe de bandidos, Elevador. Ele vivia no luxo e na riqueza. E Aline, filha de um banqueiro, ao comparar a vida do amante com a vida do pai, do sogro, do marido e do ficante habitual, constatava que, de todos eles, igualmente ricos, o mais livre era justamente Elevador.

Fascinado pela amante, Elevador a recebia como a uma princesa no morro. Por fora a construção não era muito diferente dos barracos que a rodeavam, a não ser pelo tamanho, pois era imensa. Lá dentro, ela encontrava todo o conforto que a casa do pai e do marido lhe proporcionavam, acrescido de uma coisa que nenhum deles tinha: a privilegiada vista da cidade do Rio de Janeiro, posta aos pés de quem mandava nela, isto é, os bandidos, que ali viviam em casas sem grades, sem portões e até sem fecho nas portas. Ali, sim, a autoridade imperava. Havia quem mandava e havia quem obedecia, tudo na mais perfeita hierarquia. E sem as delongas judiciárias que tanto prorrogam e às vezes impedem a justiça.

A pena de morte não era rara. Na primeira visita à casa de Elevador, antes de entrarem, ela viu que um capataz do amante conduzia três jovens amarrados ao pescoço por uma corda e com as mãos atadas em cipós. Há regiões do Rio em que o século XVI ficava bem pertinho…E era um pulinho da cidade até ali!

Ela olhou espantada para o amante e este lhe disse com certa displicência: “Infelizmente ainda temos que dar este tipo de lição, que vai ficando rara”, acrescentando: “ao roubar, eles acabaram matando umas criancinhas, e isto é crime que não se pode perdoar”.

Como ela fizesse uma segunda pergunta, ele disse: “Mas logo ninguém mais teria segurança e eles poderiam matar a nós também. Segurança! Já ouviu falar nisso?”. E deu-lhe um beijo de boas-vindas, dizendo, por fim: “Esquece! Eu cuido de tudo aqui. Nada de ruim pode acontecer a ninguém, muito menos a você. E aqueles três cometeram as barbaridades em outra comunidade, mas, se eu não punir, o povo de lá vem pra cá e pune a todos nós, culpados ou não”.

Era verdade. Minutos depois, sem abrir a porta, alguém perguntou lá de fora: “Chefe, quem vai levar os recado dos “morto” ?”.

Elevador largou os lábios de Aline, interrompendo o beijo comprido de línguas entrelaçadas para dar a ordem simples: “Ninguém! Só avisa o da TV”.

E, antes de voltar ao que fazia antes com a moça, disse: “Podia avisar pelo jornal, mas ninguém lê. Aviso pela TV, assim todo mundo vê. E o rádio dá também, porque quase sempre TV e rádio vêm junto”. “No jornal vai sair também”, disse Aline. “Vai, sim, meu amor, mas para gente como vocês. Para gente como nós, é a TV e o rádio”. Aline insistiu: “E a internet? Não sai na internet?”. Elevador sorriu: “Sim, sim, sim. Mas na internet sai tudo junto e misturado, é mais difícil do nosso povo entender”.

Ele tinha um reino, incluindo local, povo e uma língua, que só os iniciados a entendiam por inteiro. E voltaram ao amor, deixando a guerra para os comandados do rei Elevador.

Parte III

Os franciscanos pertencem a uma ordem religiosa fundada em 1221 por São Francisco de Assis. Provavelmente teria vida efêmera, não fosse o apoio da rainha Isabel, da Hungria, e de Luís IX, da França, ambos santos também. Isabel nasceu no Castelo de Bratislava e seu ancestral sangue nobre (era azul, mas não por cianose) já regara outras das mais poderosas casas reais europeias.

Isabel era sobrinha de Santa Edwiges, tia de Santa Cunegundes e de Santa Margarida e tia-avó de Santa Isabel, rainha de Portugal, casada com Dom Dinis I, rei, lavrador e poeta, fundador da primeira universidade portuguesa, em Lisboa, depois transferida para Coimbra.

Rezam os registros feitos por padres, fidalgos e outros cortesãos que o nascimento da padroeira da Ordem de São Francisco foi anunciado por Klingsohr da Transilvânia, um trovador medieval, com estas palavras: “Vejo uma estrela que se levanta da Hungria e brilhará no mundo inteiro”.

Isabel, como Francisco, gostava muito de pobres, de animais, de pássaros e da Mãe Natureza, enfim. O famoso Milagre das Rosas é atribuído às duas Isabel: à da Hungria e à de Portugal.

A primeira Isabel tornou-se viúva, seu marido morreu na primeira Cruzada. Expulsa do reino porque lhe usurparam o trono, recusou também casar-se de novo, como queria seu tio Otto, poderoso bispo de Bamberg, preferindo confiar a educação dos três filhos a parentes ao entrar para a Ordem Terceira de São Francisco.

Dela disse Bento XVI, antecessor do atual papa Francisco: “Ela vivia com os pobres e obtinha o sustento com o trabalho de suas próprias mãos”.

Pel’ amor de Deus, como os nobres tinham medo de trabalhar! Para isso, eles contavam com escravos ou servos, que tudo faziam para eles, às vezes explicitamente – como os serviçais da roça, da pecuária ou da casa, estes últimos até lavavam as partes de patrões e patroas quando não havia sido inventado ainda o papel higiênico – outros indiretamente, como os militares, que garantiam aquelas conquistas, feitas entretanto sob o domínio da lei, mas se sabendo de antemão que à falta do medo e do respeito às novas normas, viria a força armada.

Todavia ao tempo de Bento XVI, Igreja e Estado já não andavam lá muito unidos. Pensando bem, alguns atos daquele papa deram muito o que falar, como o que a Cúria Romana, de que era chefe máximo, inventou em 20 de novembro de 2007.

Foi assim. A Cidade do Vaticano fez emissão extraordinária de selo comemorativo da vida de Isabel com 300.000 séries completas e 10 selos por folha, vendidos a 65 centavos de euro cada um, arrecadando uma fortuna. E há quem diga que santidade é coisa de carola! Sem negar todos os outros benefícios humanitários, é também um grande negócio, pois sem dinheiro pouco se faz neste mundo e é por isso que Elevador faz o que faz no morro, vendendo um pó branco de muita pureza, pelo qual muitos ricos da orla do Rio são fascinados, devidos a seus poderes de arrebatamento semelhantes a êxtases de santidade.

Além dos temas aqui aludidos, na homilia daquela semana, numa igreja da Barra da Tijuca, outro franciscano, chamado Clóvis, citando São João, lembrou aos fiéis que tudo é da terra, não sai da terra e volta para a terra. Mas falava do céu.
Nos dias seguintes, na universidade que Aline frequentava, foram travadas acaloradas discussões sobre a cara de governantes de todas as alas e matizes, insensíveis ao surto de zika, à microcefalia, à violência urbana, às mortes no trânsito, aos assassinatos e a outras mortes encomendadas, incluindo o aborto naturalmente, do qual não encontramos nenhum registro nos documentos do frade capuchinho italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo.
Está presente nos tempos atuais, como se sabe, o fio vermelho de sangue que percorreu todo o conto que o Espírito soprou, que, como se sabe, não apenas sopra onde quer, mas sopra também como quer e nem sempre de forma que podemos compreender, pois seus sinais, ai, meu Deus, às vezes são quase ilegíveis. Ontem foi Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, mas hoje foi Deonísio da Silva. (xx)
º Deonísio da Silva é escritor e professor federal aposentado. Tem 35 livros publicados.

O PRIMEIRO NOME DO RIO FOI RIA

O primeiro nome do Rio de Janeiro foi “Ria” de Janeiro.

No século XVI, assim como o latim “rivus” deu ribeiro e ribeira, deu “ria” também, palavra hoje de pouco uso, mas que designa braço de mar, canal de água salgada ou mesmo um trecho sinuoso, maior do que uma enseada e menor do que um golfo. É este o caso do que veio a chamar-se Baía da Guanabara.

O experiente navegador Gaspar de Lemos, que a descobriu no dia 1º de janeiro de 1501, jamais confundiria água salgada com água doce, e a denominou “Ria” de Janeiro.

Naquele mesmo século, mas trinta anos depois, outro navegador, Pero Lopes de Sousa, escreveria um Diário da Navegação, e cometeria o erro de transcrição que ia mudar o nome da localidade de “Ria” de Janeiro para Rio de Janeiro…

Quando Estácio de Sá fundou a cidade, ainda dia no Século XVI, a 1º de março de 1565, já não se escrevia mais “Ria” de Janeiro e, sim, Rio de Janeiro.

Estava consolidado Rio de Janeiro, nome que hoje se aplica ao estado e à sua capital, que foi também capital do Brasil, depois de Salvador, na Bahia. Mas a mudança fatal para o Rio de Janeiro não foi mudar de Ria para Rio. Foi perder para Brasília, em 1960, o posto de capital do Brasil. O Rio, mais de meio século depois, ainda não se recuperou desta perda e tem recaídas ao agir e ser considerado como se ainda fosse. Não é mais. Nem Brasília o é. A capital do Brasil é São Paulo.

TPM FOI CAUSA DA ROTA DA SEDA

Disse um escritor já na idade bíblica dos setenta, portanto um homem experiente, que há outra teoria para a descoberta da Rota da Seda.

Foi assim: a poligamia já estava em vigor há algum tempo entre os árabes. Não se sabe o motivo, um dia todas as mulheres amanheceram de TPM. Os homens ficaram desesperados.

Não havia ainda bares ou restaurantes. E eles, apavorados, mesmo sem ter para onde ir, saíram todos de casa.

Alguns já corriam risco de vida por terem criticado o véu ou a burca das esposas. Alguns maridos reclamantes levaram esfirras e quibes pela cara. Marco Polo ainda não tinha trazido o macarrão da China. Portanto, ainda não havia pau de macarrão.

Outros observaram discrepância semelhante (“com essa ventania, por que ela pôs de novo este vestido arrastando pelo chão ?”), ficaram quietos, mas assustados com as mulheres da casa cortando cebola com certa violência naquela manhã, sem esvaziar o coração de sentimentos de vingança ao fazer isso. Algumas tinham vindo fazer perguntas com a faca torta na mão: “está quieto por quê?”.

Então, sem combinar, como fazem os homens, eles arrearam os camelos e saíram sem rumo pelo deserto. Estava descoberta a Rota da Seda. Sem querer. E assim tornara-se mais uma contribuição feminina involuntária para a História. Mulher não fica de TPM por querer. Ela mesma a detesta.

Mas por que os homens voltaram? Eles e elas ficaram com saudades mútuas. E homem algum resiste à saudade de uma mulher, quanto mais da mulher amada, ainda mais de duas, três ou quatro na mesma casa, querendo rosetar (ainda se usa este verbo tão bonito e delicado?).

E por que partiram de novo? Porque a TPM vem todo mês.

E por que voltaram de novo? Ora, porque na vida tudo passa. As safras da TPM são ainda mais breves do que a vida. Devem tomar em média menos da metade da existência da mulher.

200 ANOS DE ANITA

POR QUEM OS SINOS DOBRAM? POR ANITA GARIBALDI.

Desta casa, em Laguna (SC), ela saiu toda arrumadinha, aos catorze anos, para casar-se com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar.

Tão linda quanto mal amada, três anos depois, no frescor dos dezessete, viveria o grande amor de sua vida com o italiano Giuseppe Garibaldi na Guerra dos Farrapos, que proclamou duas repúblicas.

Em julho de 1839, ambos proclamaram a República Juliana, declarando a independência de Santa Catarina. A nova forma de governo durou 129 dias. A República Piratini, dos gaúchos, sustentou a independência do Rio Grande do Sul por dez anos (1835-1845).

Anita Garibaldi foi encontrada estrangulada, este é um dos mistérios. Pode ter sido eutanásia ou alguém puxou o cadáver enlaçando-o pelo pescoço.

Ela estava combatendo na Itália, aos 27 anos, depois de ter lutado no Uruguai e no Brasil, que segundo os gaúchos são repúblicas vizinhas e anteparos do RS ao Sul e ao Norte, respectivamente. Suas façanhas são conhecidas em toda a terra, como proclama o hino deles.

O casal é nome de cidades , avenidas, ruas, praças, estátuas, museus, escolas etc. Brasil afora e também em Cuba, na Itália etc.

Em 2021 faz 200 anos que ela nasceu.

Até 1998, houve controvérsia sobre o local de nascimento de Anita: se Lages ou Laguna.

A polêmica foi dirimida por sentença judicial em 5.12.1998:

“Ante o exposto, julgo procedente o pedido inicial, a fim de determinar o registro de nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro, nascida em 30 de agosto de 1821, na cidade de Laguna, filha de Bento Ribeiro da Silva, natural de São José dos Pinhais, Paraná, e de Maria Antônia de Jesus Antunes, natural de Lages, Santa Catarina, sendo seus avós paternos Manuel Collaço e Ângela Maria da Silva e avós maternos Salvador Antunes e Quitéria Maria de Sousa, o que faço embasado no artigo 50, § 4º combinado com o 52, § 2º, da Lei n.º 6.015/73. (Ação de Registro de Nascimento Tardio n.: 040.98.000395-4).

Muito a pesquisar e a escrever sobre a heroína catarinense de dois mundos, que em vida disputou também o amor de Giuseppe Garibaldi com a gaúcha Manoela Amália Ferreira, de Pelotas (RS), filha de uma rica família de estancieiros, que já estava prometida a Joaquim, filho de Bento Gonçalves. Manoela morreu do coração, solteira, aos 83 anos, e foi sempre conhecida como a noiva de Garibaldi.

Nos anos 80, Josué Guimarães e eu escrevemos, sob encomenda, duas histórias curtas sobre essas mulheres emblemáticas da vida brasileira e da história: a de Josué chamou-se Amor de Perdição”.

Ele morreu logo após escrevê-la e, por iniciativa de sua viúva, Nydia Machado Guimarães, veio a ser publicada pela editora L&PM, em Porto Alegre. “Balada por Anita Garibaldi” está em meu livro “Contos Reunidos”, publicado em 2010 pela editora Leya.