Arquivo da categoria: Leituras por prazer

O DIA DE AMANHÃ

SÃO JERÔNIMO É O ORIXÁ XANGÔ

O rapaz era de uma simplicidade extraordinária para dizer coisas profundíssimas com clareza e poucas palavras. Era um estilista do aramaico falado.

A tradução do grego para o latim, na Vulgata, feita por São Jerônimo entre os séculos IV e V, perdeu muito desta simplicidade.

Ele traduzia a bíblia rodeado de guris com o fim de fazer cópias simultâneas em papiros e couros, e alguns dos rapazes cometiam erros que nem sempre o piedoso sacerdote podia corrigir em todas as cópias.

São Jerônimo é tão conhecido de tantos que é venerado também nos cultos afro-brasileiros, como é o caso da umbanda, em que o santo é sincretizado no orixá Xangô.

BAIRROS DO RIO: POR QUE ESSES NOMES (1)

BAIRROS DO RIO
Por que esses nomes?

Ipanema quer dizer água podre. Dom Pedro, que conhecia diversas línguas europeias e também o tupi-guarani, divertia-se com os títulos nobiliárquicos que vendia à nobreza territorial para melhorar o caixa da coroa.

O Barão de Ipanema era o latifundiário dono das terras onde surgiu a povoação.

Urca, do holandês hulk pelo francês antigo hourque, barco de fundo chato, para transporte de mercadorias. Um deles ficou abandonado ali por muito tempo.

Copacabana, do quíchua Kota Kawana, imagem que um índio aimará fez de uma N. Sra. que teria aparecido aos incas: a imagem foi trazida por navegadores e comerciantes católicos.

Leme, porque visto de cima parece o leme de um navio aquela pedra que marca o limite do bairro.

Flamengo, da invasão holandesa pelo pessoal de Flandres, os flaming, flamengus em latim: os índios chamam o bairro Uruçu-mirim, abelha pequenina, pois havia muitas ali.

Botafogo, porque o comandante de um galeão chamado Botafogo comprou terras ali.

Continua em próximo artigo.

HISTÓRIA DAS BEBIDAS

Tom Standage faz uma história do mundo em seis bebidas (está no kindle; e na Zahar desde 2005): cerveja, vinho, café, chá, destilados e Coca-Cola. Marco Neves fez uma bonita coluna sobre o tema, que se tornou assunto para mim também. Vejamos.

As bebidas definiram políticas e práticas sociais. A descoberta da cerveja na Mesopotâmia alterou a agricultura e demandou a escrita entre as tribos nômades que ali se estabeleceram.

O vinho surgiu no apogeu da civilização greco-romana. De porre, conceberam religião, direito, tribunais, cultura.

Os destilados e o chá mudaram as metrópoles europeias, e as revoltas contra os impostos sobre eles trouxeram guerras, inclusive a da independência dos EUA.

O aroma e o sabor do café, bebida de místicos árabes considerada coisa do Demônio, encantaram até o papa Clemente VIII, que o liberou depois de tomar cafezinhos enquanto queimava Giordano Bruno.

Os cafés públicos reuniram milhares de pessoas, foram ambiente propício a novas ideias e instituíram o primeiro Facebook, onde hoje só bebemos sozinhos, cada qual na sua casa.

A Coca-Cola hoje domina o mundo. Tornou-se um ícone da globalização, é consumida na URSS e na China, outrora símbolos da oposição aos EUA.

Temos ainda as primeiras bebidas da Humanidade: o leite e a água potável.

Rios trouxeram os rivais e a rivalidade, cujo étimo latino é “rivus”, o vulgar que substituiu o “flumen”.

E não nos esqueçamos dos sucos. Voltaremos ao assunto.

MACHADO: ESCRAVA, BEBÊ E ABORTO

Em todas as escolas e universidades onde tenho ensinado, muitos alunos podem ter entrado sem ter lido Machado de Assis, mas nenhum saiu dali sem o ler.

E estava lembrando disso, hoje, quando passava pela Rua da Ajuda, que tem este nome por começar na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, ali perto. No Rio, é comum você perambular por onde andaram, devagar ou apressadamente. personagens de Machado de Assis.

Lemos em PAI CONTRA MÃE, a história de Cândido Neves, que, para livrar da Roda dos Enjeitados o filho recém-nascido, sai à caça de Arminda, uma escrava fugitiva.

“Reviu todas as suas notas de escravos fugidos . (…) Uma, porém, subia a cem mil-réis. (…) No extremo da rua, quando ela ia
a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela.

Era a mesma, era a mulata fujona. –Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio. Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era
já impossível.

Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

–Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! — Siga! repetiu Cândido Neves.

(…).
Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a
luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
(…)
–Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. — É ela mesma. –Meu senhor! –Anda, entra…

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,
levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
(…)

Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
–Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração”.

BOCETA NÃO ERA PALAVRÃO

Originalmente, boceta ou buceta designou caixinha feita de uma madeira chamada buxo, do grego “búxys”, pelo latim “buxus”.

Veja o mito da Boceta de Pandora, recipiente onde estavam guardados todos os males do mundo.

As mulheres gregas e romanas da Antiguidade usavam esse tipo de caixa para guardar suas joias e outras preciosidades.

No século XVIII, a vulva já era comparada a boceta, mas com este significado, a palavra só caiu na boca do povo (epa!) três séculos depois.

No Século XIX, com o antigo significado, aparece no romance “Helena “, de Machado de Assis, de sua fase romântica. Nada do segundo significado ainda.

Os homens também carregavam consigo uma pequena boceta com rapé. Era chique cheirar a boceta e espirrar.

Boceta em casa e no bolso, escarradeiras nas residências abastadas, nenhum cinzeiro, que só chegará mais tarde, quando bocetas e escarradeiras tinham ido embora. E agora o cinzeiro também está dando adeus e já sumiu de muitos lugares.

A história das palavras revela muito dos usos e costumes.

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Leia:
“…— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa
bocetinha de joalheiro.” (Helena, de Machado de Assis, capítulo XI).

PRESO NO ALEMÃO COM OS CANGURUS

Ricardo Boechat e eu rimos muito e divertimos os ouvintes no dia em que comentamos na Bandnews FM um suposto livro que ensina alemão.

O livro nos conta que os cangurus (Beutelratten) são capturados e colocados em jaulas (Kotter) cobertas de um tecido (Lattengitter), para abrigá-los do mau tempo.

Essas jaulas são chamadas jaulas cobertas de tecido (Lattengitterkotter). Assim que botam um canguru dentro delas, o bicho passa a ser identificado assim:Lattengitterkotterbeutelratten, canguru da jaula coberta de tecido.

Um dias os hotentotes capturaram um assassino (Attentater), acusado de ter matado uma mãe (Mutter) hotentote ( Hottentottermutter ), que tinha um filho tonto e gago (stottertrottel).

Essa pobre mãe se chama em alemão “Hottentottenstottertrottelmutter”. E seu assassino é chamado “Hottentottenstottertrottelmutterattentater”.

A polícia prendeu o assassino e o enfiou provisoriamente numa gaiola de canguru (Beutelrattenlattengitterkotter), mas o prisioneiro escapou.

As buscas mal tinham começado, quando surgiu um guerreiro hotentote, gritando:

— Capturei o assassino! (Attentater).

— Sim? Qual? — perguntou o chefe.

— O Lattengitterkotterbeutelratterattentater! — respondeu o guerreiro.

— Como assim? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tecido? — perguntou o chefe dos hotentotes.

— É, sim, é o Hottentottenstottertrottelmutteratentater (o assassino da mãe hotentote de um menino tonto e gago) — respondeu o nativo.

Ora , replicou o chefe, tu poderias ter dito desde o início que tinhas capturado o Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotter beutelrattenattentater.

Como se vê o alemão é uma língua fácil; basta a gente se interessar um pouquinho…