Arquivo da categoria: Sem categoria

BEIJO: ÀS VEZES, É DE TRAIÇÃO


Há um beijo de traição famoso, aquele que Judas deu em Jesus para identificá-lo aos soldados romanos no Horto das Oliveiras.

Horto e não jardim, como em algumas traduções, pois não era de flores de ornamentação, era de cultivo de ingrediente indispensável à vida na Palestina daqueles anos: o óleo de oliva estava presente nas casas, não apenas para a comida, mas também para iluminar as residências.


Beijo veio do latim “basium”. Outras línguas neolatinas, como o italiano e o espanhol, grafam “baccio” e “beso”, respetivamente.

E uma curiosidade japonesa marca este vocábulo, uma vez que os nipônicos referem-se ao beijo como “kissu”, do inglês “kiss”.


É célebre a passagem dos Evangelhos em que Judas Iscariotes, identificado como ladrão do grupo por seu colega João, recebe trinta dinheiros para trair o mestre de ambos: “aquele a quem eu der um beijo na face, é ele; prendei-o”.

Augusto dos Anjos, escritor brasileiro famoso por seu pessimismo e talento singular, assim definiu o beijo: “O beijo, amigo, é a véspera do escarro”.

Quase sinônimo, ósculo, veio do latim “osculum”, boquinha. Designa o beijo pela forma que tomam os lábios ao serem contraídos, tornando a boca mais arredondada.


O beijo pode não ser casto, aliás, raramente o é, mas o ósculo é pudico porque exclui a língua e não faz sucção, livrando-nos por conseguinte de certos desconfortos do carinho público, quando casais indiscretos nos obrigam a ouvir ruídos de desentupidores de pia, acompanhados de trilhas sonoras que semelham o barulho de locomotivas prestes a partir.

Mas como a temperança parece ser a grande medida das coisas amorosas, é bonito o beijo dos amados em praça pública… (Mais em: DE ONDE VÊM AS PALAVRAS, São Paulo e Lisboa, Editora Almedina, 2021, 18a edição)

DEU BARRABÁS NO PLEBISCITO

E depois a mãe de Jesus encontrou a mãe de Judas, segundo o relato “Les deux mères”, ainda inédito no Brasil.

Em meu romance Goethe e Barrabás, lemos no capítulo A luz que te falta: “Salomé, com os sentimentos desarrumados por amar um homem que lança abismos e pontes entre ele e ela, mistura vigília, sono e sonho, aumentando a confusão que toma conta de suas almas, depois de vinhos rascantes e de amores insensatos”.

Estava num desses eventos em que os leitores querem que o escritor fale se algumas personagens se baseiam em pessoas conhecidas, quando uma leitora muito sagaz, de 83 anos, me perguntou, respeitosa: “O senhor deu-lhe o nome de Salomé por que ela perdeu a cabeça por Barrabás num amor insensato, depois de ter feito João Batista perder a dele? Aliás, todos os amores têm um quê de insensato, mas como o senhor tomou dois personagens bíblicos, deslocando-os para atuarem unidos, pois Salomé é aquela que dançou para o rei Herodes, e Barrabás aparece na Semana Santa, eu lhe pergunto: as más escolhas de que fala o senhor são construídas por nós deliberadamente ou são obra do destino?”.

O debate acontecia bem próximo a outra Páscoa e o assunto era muito pertinente. Respondi que acredito nas transcendências de nossas vidas, que somos bem diferentes de um pé de couve ou repolho, pois nascemos para olhar o que está no alto e não para chafurdar em nossa pobre condição humana. Que isso pode ser chamado de destino, talvez!

Temperei com o célebre paradoxo de Blaise Pascal, escritor francês do século XVII, que disse: “o homem não é anjo, nem besta, mas quem quer ser anjo, acaba sendo besta.” A dulcíssima velhinha prosseguiu: “jamais esquecerei de outra passagem” – estava com o livro na mão e leu: “A moça descobre também que se na Judéia criassem frangos, em vez de cordeiros, Jesus teria sido o frango de Deus que tira os pecados do mundo, sem contar que para frangos e famintos o destino será sempre um só: a morte para todos.

Barrabás, porém, diz à amada que a vida dele é bem diferente da de um frango. Diz também que foi Barrabás quem apareceu a Goethe, no final da vida, oferecendo-lhe a luz que faltava, mas já era tarde”.

No romance, faço referência a dois personagens com o nome de Barrabás e a duas Páscoas. Na Páscoa do Antigo Testamento, os hebreus matam cordeiros e esfregam o sangue na porta das casas, para que o Anjo da Morte não mate os primogênitos.

Na Páscoa do Novo Testamento, Jesus é chamado Cordeiro de Deus. Pois bem! Semana passada, depois de proferir palestra a convite do presidente do Tribunal de Justiça, em São Paulo, José Roberto Nalini, visitei outro querido amigo ali: o poeta Paulo Bonfim.

E, em nossa agradável conversa, ele lembrou um livro Les deux mères (As duas mães), sobre um suposto encontro da mãe de Jesus com a mãe de Judas. Ainda não encontrei esse livro que já antevejo admirável pelo tema. Quem sabe, na próxima Páscoa possa falar dele a vocês. Tenho aprendido muito a cada Páscoa, principalmente com pessoas cuja amizade para mim é um privilégio! (xx)

LADRÃO E LARÁPIO

por Deonísio da Silva *

Ladrão veio do Grego “látron”, pelo Latim “latro”. Em grego, “látron”, do mesmo étimo do verbo “latréo”, servir, designava o pagamento feito aos mercenários (soldados contratados) e aos empregados domésticos, isto é, que trabalhavam na “domus”, casa, residência, palavra que nos deu também domicílio. Escrevemos ladrão, com til, porque a fonte portuguesa foi “latro” declinado em “latrone”.

Cada qual recebia o seu “latro”, às vezes pago em sal, gerando a palavra “salarium” (quantia paga em sal, indispensável à conservação dos alimentos), salário, passados um mês, uma semana, quinze dias ou outro período fixado.

À medida que o império romano foi entrando em decadência, sobrevieram fatos desagradáveis, entre os quais o atraso de pagamento a soldados, mercenários e servidores, que, descontentes, formavam bandos perigosos de salteadores à mão armada, roubando, pilhando e saqueando, sem misericórdia.

Essa decadência dos costumes mudou o significado da palavra “latron”, que deixou de designar os antes incorruptíveis soldados imperiais.

A corrupção gerou também a palavra larápio. Como registrado em meus livros “De onde vêm as palavras” e “A Vida Íntima das Frases”, havia na antiga Roma um pretor, cujo nome era Lucius Antonius Rufus Appius.

Pretor era uma espécie de juiz entre os romanos. Esse fabricava e vendia sentenças a quem melhor pagasse por suas decisões.

Como se percebe, o costume é antigo. Lucius Antonius Rufus Appius abreviava o nome para L.A.R. Appius. Essa rubrica originou o neologismo larápio, e veio a designar o juiz ladrão, aplicando-se também a gatunos de outros ofícios e profissões.

* professor federal aposentado, é escritor e colunista da Rádio BandNews FM.

INFÂNCIA EM SIDERÓPOLIS: história de uma nova e antiga solidão


Toda localidade tem figuras marcantes. Da primeira minha infância, em Siderópolis, nos verdes anos, me lembro da parteira, do guarda-noturno e de um ladrão de galinha.


Este último nos assustou muito. Estávamos brincando na frente da casa, de repente uma senhora gritou “pega o ladrão!” e ele passou em disparada por nós e sumiu na escuridão de uns eucaliptos atrás da vila.

Somente as ruas eram iluminadas. Vestia uma calça cáqui, o ladrão, e estava descalço, de boné, e a camisa era de riscado.


A luz elétrica era fraquinha, todas as lâmpadas eram de 40 watts, que se dizia “velas”, nas casas e na ruas, mas pareciam muito fortes, pois quando faltava luz, o que era raro, e era preciso acender as candeias ou as lamparinas, a gente percebia a diferença.


As lamparinas e suas sombras favoreciam histórias lendárias de almas mortas que apareciam assustando as vivas. O cenário noturno estava sempre armado. E as almas vinham com muita frequência.


Os aparecimentos compõem a cultura brasileira com uma força impressionante. Não é à toa que a padroeira do Brasil é uma Aparecida, Nossa Senhora Aparecida. Imagine se ela, quando apareceu aos pescadores, abrisse bem a boca e gritasse “bah”. Todos sairiam correndo.

Vim de um outro Brasil. Importantes eram os parentes, os vizinhos, a igreja, a escola, a farmácia, o hospital.

E a ponte. As cidades brasileiras, em sua maioria, cresceram à beira de rios. Você atravessava o rio e ia à escola, à igreja, à casa dos amigos. A ponte ligava os dois lados do rio.


Se fosse hoje, o verbo não era ligar, era conectar. A ponte era uma conexão.


Uma enchente que derrubasse a ponte, era uma tragédia. Hoje a tragédia é quando cai o sinal da internet.


Para muitos, até o ano passado, só quando caía a conexão da internet é que eles faziam outras coisas e talvez se lembrassem de ir à rua conversar com os vizinhos, observar os que passavam.

Mas agora, por causa do coronavírus, ninguém passa: algum covidado poderá torná-lo o mais recente convidado da Covid-19. E isso ninguém quer. Para ninguém.

Quanto a mim, nasci trinta anos depois da peste, que na época chamou-se gripe espanhola, e ela, disfarçada, com outro nome, veio me esperar em outra idade.

Por enquanto, nós, os sobreviventes, nos defendemos como no romance que mais leitores me trouxe: “Avante, soldados: para trás “.

Senão, vocês não vão. Vocês vão para a Cochinchina procurar joguinho e rede social, as duas coisas mais buscadas na internet. Cada um sozinho diante da telinha. (xx)

VIDA DE ESCRITOR (1)

O escritor Rubem Fonseca e eu caminhávamos por Ipanema. Certa moça não parava de olhar para ele numa farmácia. Ele me acompanhou para comprar neosaldina, que nesse tempo eu não tomava, comia.

Eu já sabia que Rubem não gostava de ser identificado. Senti receptividade no olhar dela e disse:

“A senhora está comprando um creme de eficiência comprovada. Meu amigo aqui, o Dr. Araújo, dermatologista, sabe tudo dessas coisas que eu ignoro. Dessas e de outras”.

Rubem Fonseca arrebatara o prêmio Status de Literatura com o pseudônimo Dr. Araújo, fazia mais de vinte anos.

E ela, dirigindo-se a Rubem,no carregado dialeto do Rio no erre francês e no esse lisboeta: “Ah, o senhor é dermatologista?”.

E ele: “sim e tenho um sócio que nos traz a maioria dos clientes”.

A conversa era nonsense total. Meio desconfiada, ela aceitou o convite para ser apresentada ao sócio.

“Ele está ali fora”, disse Rubem. “Aqui, ele não entra”. A moça que atendia quis saber por quê.

Eu disse: “O sócio dele não entra em farmácia, igreja, açougue, desses lugares ele não gosta”.

A atendente ficou desconcertada na sua cara de espanto: igreja, farmácia e açougue, o que teriam de comum?

Na calçada, Rubem Fonseca mostrou seu sócio à moça, apontando para o Sol, que brilhava lindo no céu da pátria aquele instante. E em todos os outros de um dia de verão no Rio, e para todos, sobre bons ou maus, sabemos desde o Eclesiastes.

Viveu bem até o fim, e não morreu de Covid-19, mas de infarto. Não fumava, não bebia nada com álcool e não tomava mais café. Mas gostava muito dessas três coisas.

Bebi vinho, fumei charuto e tomei café em sua companhia, menos vezes do que gostaria. “A Barra da Tijuca fica no além-túnel”, diz outro querido, o embaixador João Clemente Baena Soares : “A gente nem sabe se há vida lá, só sabe que o Deonísio mora naquele subúrbio”.

Muitas saudades do meu querido amigo, amigo desde que o conheci, em 1973. Faz tempo e ele partiu em abril de 2020, a poucas semanas de completar 95 anos. Mas não morreu de Covid-19, morreu de infarto.

LÍDERES IDOSOS VENCERAM A II GUERRA

O FUTURO NÃO ABRE A PORTA ANTES DA HORA

por Deonísio Da Silva

Por que eu perderia para um bêbado, um cotó e um aleijado?”.

Fevereiro de 1942. Adolf Hitler, então com 52 anos, era vegetariano, não fumava, estava com saúde de ferro e se referia aos líderes das três grandes potências que enfrentavam a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

O bêbado era Winston Leonard Spencer-Churchill, de 68 anos, primeiro-ministro inglês, um carnívoro, na verdade onívoro, que bebia e fumava. Aliás, posava para fotos de charuto aceso.

Com o braço esquerdo mais curto do que o direito por causa de um ferimento ocorrido em seus verdes anos, comendo, bebendo e fumando muito, o cotó era o georgiano Iossif Vissarionovitch Djugatchvli, mais conhecido pelo pseudônimo de Josef Stalin, de 63 anos, supremo comandante da Rússia, depois União Soviética.

O aleijado era o presidente dos EUA, o norte-americano Franklin Delano Roosevelt, de 60 anos, que usava cadeira de rodas ou era carregado por assessores por causa de uma poliomielite contraída aos 39 anos

Quando a famosa frase foi proferida, já fazia três anos que Hitler assustava o mundo inteiro com suas vitórias retumbantes. Naquele mesmo mês, aliás, vivendo refugiado em Petrópolis, no Rio, o escritor judeu-austríaco Stefan Zweig morria em companhia de sua amada Lotte, num duplo suicídio que sempre me pareceu duplo assassinato.

Tais curiosidades vêm muito a propósito. A mídia e os institutos de pesquisa anunciam um dom que não têm, o da profecia. Já erraram feio outras vezes.

Três idosos: um bêbado e dois aleijados lideraram a vitória

Nas guerras, como no futebol, o jogo só termina quando o juiz dá o apito final. Sim, este jogo também tem juiz.

BOCETA NÃO ERA PALAVRÃO

Originalmente, boceta ou buceta designou caixinha feita de uma madeira chamada buxo, do grego “búxys”, pelo latim “buxus”.

Veja o mito da Boceta de Pandora, recipiente onde estavam guardados todos os males do mundo.

As mulheres gregas e romanas da Antiguidade usavam esse tipo de caixa para guardar suas joias e outras preciosidades.

No século XVIII, a vulva já era comparada a boceta, mas com este significado, a palavra só caiu na boca do povo (epa!) três séculos depois.

No Século XIX, com o antigo significado, aparece no romance “Helena “, de Machado de Assis, de sua fase romântica. Nada do segundo significado ainda.

Os homens também carregavam consigo uma pequena boceta com rapé. Era chique cheirar a boceta e espirrar.

Boceta em casa e no bolso, escarradeiras nas residências abastadas, nenhum cinzeiro, que só chegará mais tarde, quando bocetas e escarradeiras tinham ido embora. E agora o cinzeiro também está dando adeus e já sumiu de muitos lugares.

A história das palavras revela muito dos usos e costumes.

______________________________

Leia:
“…— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa
bocetinha de joalheiro.” (Helena, de Machado de Assis, capítulo XI).

ESTAR NA PINDAÍBA

De onde veio a expressão? Com a haste da pindaíba, a planta que dá também a fruta de mesmo nome, se faz vara de pescar.

Inclusive a pequena árvore frutífera (acho que é um arbusto) tem seu nome vindo do tupi “pindá”, anzol, e “yba”, vara.


Segundo o professor emérito da USP, Francisco da Silveira Bueno, que foi um dos maiores etimólogos do Brasil, a expressão estar na pindaíba vem da situação de miséria em que ficava o índio que não conseguia apanhar peixe, pois a pesca era um dos principais meios de sustento de muitas tribos.

Sua agricultura era incipiente. Viviam de caça e pesca. Sentir-se na pindaíba é estar reduzido àquele índio, com caniço e anzol, e sem pescar nada, também no sentido metafórico.

O verbete PINDAÍBA estará no meu livro “De onde vêm as palavras”, 18a edição, http://www.almedina.com.br e http://www.almedina.net

CARNAVAL: O PRIMEIRO AUTORIZADO

Foi o papa Paulo II quem, no Século XV, redimiu o Carnaval para a Igreja e assim espalhou os festejos por todo o mundo cristão.

Sucedendo ao tio, Pio II, em descarado nepotismo, assumiu o trono de São Pedro, mas não sua homossexualidade, que continuou a exercer nos bastidores e concordou entretanto em levar adiante dois projetos que não cumpriu: combater os turcos e convocar um concílio.

Em vez disso, liberou o Carnaval, palavra que tinha ido do latim “carrus navalis” e agora voltava do italiano “carnevale” disfarçada de penitência na expressão “carne, vale “, adeus, carne, pois a comilança, a luxúria e outros prazeres seriam temporariamente suspensod ao “introitus”, entrada, da “quaresima”, na pronúncia vulgar do clássico “quadragesimam diem” , quadragésimo dia, antes da Páscoa, que resultaria em entrudo e quaresma no português.

Sobrinho de outro pontífice, tornara-se cardeal aos 22 anos. Nascido em Veneza, então matriz do carnaval italiano, usava tantas joias e enfeites de metal que num inverno muito frio morreu de pneumonia.

Seus costumes peculiares, a vivência veneziana e também sua juventude por certo influenciaram sua decisão. (…)

No primeiro Carnaval autorizado pelo papa, proliferaram as alegorias, as comparações, as corridas de corcundas e de anões, os atos de jogar farinha e ovos uns nos outros etc., que perduraram por séculos!

A sátira também teve seu lugar. Rainhas, princesas e outras autoridades eram representadas por célebres beldades, como as prostitutas mais conhecidas e devidamente disfarçadas no meio de mulheres virtuosas, sem excluir os bobos da corte, também misturados a outros bobos, tratados como reis nos desfiles.

Até clérigos se misturavam à multidão vestindo suas roupas litúrgicas de trás pra frente, debochando dos superiores, carregando missais virados, desde que com o rosto devidamente disfarçado por trás de máscaras, pois nos dias seguintes rezariam missas, atenderiam confissões, enfim voltariam a ministrar os sacramentos.

O recurso das máscaras permitiu, como já acontecia em Veneza, que os nobres matassem a vontade de se divertir e se misturassem ao povo. Afinal, uma das coisas que o povo sempre fez melhor do que aqueles que o dominaram foi divertir-se.

Paulo II foi sucedido por Sisto IV, que contratou Michelângelo e fez a Capela Sistina. Foram dois estilos de governar que podemos avaliar pelos respectivos resultados.

MACHADO, BORGES, PELÉ, MARADONA

Deonísio da Silva *

Os judeus têm a palavra haftará (permissão ou despedida) para designar trechos proféticos lidos nas sinagogas depois da Torá nas manhãs de sábado, do hebraico “xabbat”, descanso, cujo étimo está em sábado, que, ao lado de domingo, compõe a dupla que não sucumbiu ao “feira” de todos os outros dias.

A Lua, Marte, Júpiter, Mercúrio e Vênus foram substituídos por “feria secunda, feria tertia” etc., o que viria a dar no português segunda-feira, terça-feira etc. A mudança começou no século VI, na Galícia e em Portugal.

O primeiro registro de segunda-feira é a lápide de uma ermida trazida para a igreja de São Vicente, em Braga, cuja inscrição informa ter a defunta morrido a 1º de maio de 618, “dia de segunda-feira, em paz, amen”.

Abro esta conversa de sábado à la haftará porque um dos quatro personagens deste artigo fazia constantes referências à herança judaica do Ocidente, cuja evidência maior é best-seller número um do mundo, a bíblia.

Num texto muito curioso de “Otras Inquisiones”, intitulado “De alguien a nadie”, Borges diz que o sujeito da primeira frase do Gênesis é o plural Eloim (Deuses), ainda que o verbo esteja no singular: “No príncípio criou Deus os céus e a terra”. Leiam-se “Deuses”, pois foi Eloim o Criador.

Muito antes de Borges, o herege luso-brasileiro Pedro de Rates Henequim destacou que o Gênesis é claro com este plural: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Se é façamos, disse ele, é mais do que um.

Interrogado por diversos inquisidores, disse que as pessoas divinas eram sete, o Paraíso ficava no Brasil, o fruto do pecado original tinha sido a banana, e o idioma do Céu era a língua portuguesa. Foi executado em 1744, aos 64 anos.

Dá-se algo semelhante com as heresias ao redor de Jorge Luís Borges, Joaquim Maria Machado de Assis, Diego Armando Maradona e Edson Arantes do Nascimento, deuses nos respectivos ofícios, que e se tornaram incomparáveis mas há outros nas respectivas listas…

Não se discute qual dos deuses é mais importante, se Eloim, Jeová, Adonai, a Trindade, o Pai, o Filho ou o Espírito Santo. Ou por outros momesco pelos quais seja conhecido, como Alá. Mas dá-se o contrário no futebol e na literatura.

Nestas considerações, talvez o primeiro erro de nosso tempo seja a velocidade. E o segundo a falta de silêncio. Coisas da modernidade líquida de que falava o filósofo e sociólogo judeu-polonês Zygmunt Baugman.

Antes dele, o nosso Machado de Assis trabalhou com o mesmo conceito ainda no século XIX. E antes de nosso maior escritor, diz o Eclesiastes, escrito no século VI a.C., enbora seu autor tenha vivido no século X a.C., caso seja mesmo o rei Salomão: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo sob o sol”.

Nós recortamos as coisas para melhor entendê-las. No caso de Diego Maradona e de Pelé sempre haverá dúvidas se eles foram de fato os melhores de sua época.

Vejamos alguém melhor do que eles nos três minutos que mudaram o futebol, em 15.06.1958, na Suécia: https://www.youtube.com/watch?v=ojLKzLuvni8

Nestas cenas, onde despontam outros deuses tão grandes como Garrincha, Didi e Vavá, o fabuloso goleiro da então URSS, Yashin, o Aranha Negra, grita desesperado para os marcadores de Garrincha “não, assim; não, assim”.

Um ano antes, no México, nasceu o costume da torcida gritar olé, como nas touradas, a cada vez que Mané Garrincha passava por seu marcador.

Todavia há bons motivos para quem insiste em Pelé como único rei do futebol.

Em https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8 estão os gols que ele não fez, ainda que até seus erros milimétricos sejam apreciados pela beleza com que ele tentou fazê-los: https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8

Também Maradona mostrou todos os motivos pelos quais poderia ser igual ou superior a Pelé. Vejamos dez destes motivos emhttps://www.youtube.com/watch?v=uSpX2DEvSo4

O melhor árbitro, e talvez o único, seja o leitor. Veja amostras de como escrevem Borges e Machado sobre temas semelhantes.

“Uma comunidad de musulmanes fue instigada por los demonios a reconocer a Mahoma como Dios. Para aplacar el disturbio, Mahoma fue traído a los infiernos e lo exibieron. En esta ocasión yo lo vi. Se parecía a los spíritus corpóreos que no tienen percepción interior, y su cara era muy oscura”. (Borges, El doble de Mahoma).

“Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos.” (Machado de Assis, A Igreja do Diabo).

Como se vê, sempre houve muitos deuses, ontem como hoje, que, a seu modo deixaram suas marcas no tempo deles, que é também o nosso, pois já aconteceu. Só não é nosso o que ainda não aconteceu. Mas será. Será? (xx)

Este texto foi publicado no Correio do Povo, para atender a pauta do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva.

º escritor e professor, é editor de Abelha: Mel e Ferrão, no grupo editorial Almedina, e colunista semanal na BandNews FM.