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VIDA DE ESCRITOR (1)

O escritor Rubem Fonseca e eu caminhávamos por Ipanema. Certa moça não parava de olhar para ele numa farmácia. Ele me acompanhou para comprar neosaldina, que nesse tempo eu não tomava, comia.

Eu já sabia que Rubem não gostava de ser identificado. Senti receptividade no olhar dela e disse:

“A senhora está comprando um creme de eficiência comprovada. Meu amigo aqui, o Dr. Araújo, dermatologista, sabe tudo dessas coisas que eu ignoro. Dessas e de outras”.

Rubem Fonseca arrebatara o prêmio Status de Literatura com o pseudônimo Dr. Araújo, fazia mais de vinte anos.

E ela, dirigindo-se a Rubem,no carregado dialeto do Rio no erre francês e no esse lisboeta: “Ah, o senhor é dermatologista?”.

E ele: “sim e tenho um sócio que nos traz a maioria dos clientes”.

A conversa era nonsense total. Meio desconfiada, ela aceitou o convite para ser apresentada ao sócio.

“Ele está ali fora”, disse Rubem. “Aqui, ele não entra”. A moça que atendia quis saber por quê.

Eu disse: “O sócio dele não entra em farmácia, igreja, açougue, desses lugares ele não gosta”.

A atendente ficou desconcertada na sua cara de espanto: igreja, farmácia e açougue, o que teriam de comum?

Na calçada, Rubem Fonseca mostrou seu sócio à moça, apontando para o Sol, que brilhava lindo no céu da pátria aquele instante. E em todos os outros de um dia de verão no Rio, e para todos, sobre bons ou maus, sabemos desde o Eclesiastes.

Viveu bem até o fim, e não morreu de Covid-19, mas de infarto. Não fumava, não bebia nada com álcool e não tomava mais café. Mas gostava muito dessas três coisas.

Bebi vinho, fumei charuto e tomei café em sua companhia, menos vezes do que gostaria. “A Barra da Tijuca fica no além-túnel”, diz outro querido, o embaixador João Clemente Baena Soares : “A gente nem sabe se há vida lá, só sabe que o Deonísio mora naquele subúrbio”.

Muitas saudades do meu querido amigo, amigo desde que o conheci, em 1973. Faz tempo e ele partiu em abril de 2020, a poucas semanas de completar 95 anos. Mas não morreu de Covid-19, morreu de infarto.

LÍDERES IDOSOS VENCERAM A II GUERRA

O FUTURO NÃO ABRE A PORTA ANTES DA HORA

por Deonísio Da Silva

Por que eu perderia para um bêbado, um cotó e um aleijado?”.

Fevereiro de 1942. Adolf Hitler, então com 52 anos, era vegetariano, não fumava, estava com saúde de ferro e se referia aos líderes das três grandes potências que enfrentavam a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

O bêbado era Winston Leonard Spencer-Churchill, de 68 anos, primeiro-ministro inglês, um carnívoro, na verdade onívoro, que bebia e fumava. Aliás, posava para fotos de charuto aceso.

Com o braço esquerdo mais curto do que o direito por causa de um ferimento ocorrido em seus verdes anos, comendo, bebendo e fumando muito, o cotó era o georgiano Iossif Vissarionovitch Djugatchvli, mais conhecido pelo pseudônimo de Josef Stalin, de 63 anos, supremo comandante da Rússia, depois União Soviética.

O aleijado era o presidente dos EUA, o norte-americano Franklin Delano Roosevelt, de 60 anos, que usava cadeira de rodas ou era carregado por assessores por causa de uma poliomielite contraída aos 39 anos

Quando a famosa frase foi proferida, já fazia três anos que Hitler assustava o mundo inteiro com suas vitórias retumbantes. Naquele mesmo mês, aliás, vivendo refugiado em Petrópolis, no Rio, o escritor judeu-austríaco Stefan Zweig morria em companhia de sua amada Lotte, num duplo suicídio que sempre me pareceu duplo assassinato.

Tais curiosidades vêm muito a propósito. A mídia e os institutos de pesquisa anunciam um dom que não têm, o da profecia. Já erraram feio outras vezes.

Três idosos: um bêbado e dois aleijados lideraram a vitória

Nas guerras, como no futebol, o jogo só termina quando o juiz dá o apito final. Sim, este jogo também tem juiz.

BOCETA NÃO ERA PALAVRÃO

Originalmente, boceta ou buceta designou caixinha feita de uma madeira chamada buxo, do grego “búxys”, pelo latim “buxus”.

Veja o mito da Boceta de Pandora, recipiente onde estavam guardados todos os males do mundo.

As mulheres gregas e romanas da Antiguidade usavam esse tipo de caixa para guardar suas joias e outras preciosidades.

No século XVIII, a vulva já era comparada a boceta, mas com este significado, a palavra só caiu na boca do povo (epa!) três séculos depois.

No Século XIX, com o antigo significado, aparece no romance “Helena “, de Machado de Assis, de sua fase romântica. Nada do segundo significado ainda.

Os homens também carregavam consigo uma pequena boceta com rapé. Era chique cheirar a boceta e espirrar.

Boceta em casa e no bolso, escarradeiras nas residências abastadas, nenhum cinzeiro, que só chegará mais tarde, quando bocetas e escarradeiras tinham ido embora. E agora o cinzeiro também está dando adeus e já sumiu de muitos lugares.

A história das palavras revela muito dos usos e costumes.

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Leia:
“…— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa
bocetinha de joalheiro.” (Helena, de Machado de Assis, capítulo XI).

ESTAR NA PINDAÍBA

De onde veio a expressão? Com a haste da pindaíba, a planta que dá também a fruta de mesmo nome, se faz vara de pescar.

Inclusive a pequena árvore frutífera (acho que é um arbusto) tem seu nome vindo do tupi “pindá”, anzol, e “yba”, vara.


Segundo o professor emérito da USP, Francisco da Silveira Bueno, que foi um dos maiores etimólogos do Brasil, a expressão estar na pindaíba vem da situação de miséria em que ficava o índio que não conseguia apanhar peixe, pois a pesca era um dos principais meios de sustento de muitas tribos.

Sua agricultura era incipiente. Viviam de caça e pesca. Sentir-se na pindaíba é estar reduzido àquele índio, com caniço e anzol, e sem pescar nada, também no sentido metafórico.

O verbete PINDAÍBA estará no meu livro “De onde vêm as palavras”, 18a edição, http://www.almedina.com.br e http://www.almedina.net

CARNAVAL: O PRIMEIRO AUTORIZADO

Foi o papa Paulo II quem, no Século XV, redimiu o Carnaval para a Igreja e assim espalhou os festejos por todo o mundo cristão.

Sucedendo ao tio, Pio II, em descarado nepotismo, assumiu o trono de São Pedro, mas não sua homossexualidade, que continuou a exercer nos bastidores e concordou entretanto em levar adiante dois projetos que não cumpriu: combater os turcos e convocar um concílio.

Em vez disso, liberou o Carnaval, palavra que tinha ido do latim “carrus navalis” e agora voltava do italiano “carnevale” disfarçada de penitência na expressão “carne, vale “, adeus, carne, pois a comilança, a luxúria e outros prazeres seriam temporariamente suspensod ao “introitus”, entrada, da “quaresima”, na pronúncia vulgar do clássico “quadragesimam diem” , quadragésimo dia, antes da Páscoa, que resultaria em entrudo e quaresma no português.

Sobrinho de outro pontífice, tornara-se cardeal aos 22 anos. Nascido em Veneza, então matriz do carnaval italiano, usava tantas joias e enfeites de metal que num inverno muito frio morreu de pneumonia.

Seus costumes peculiares, a vivência veneziana e também sua juventude por certo influenciaram sua decisão. (…)

No primeiro Carnaval autorizado pelo papa, proliferaram as alegorias, as comparações, as corridas de corcundas e de anões, os atos de jogar farinha e ovos uns nos outros etc., que perduraram por séculos!

A sátira também teve seu lugar. Rainhas, princesas e outras autoridades eram representadas por célebres beldades, como as prostitutas mais conhecidas e devidamente disfarçadas no meio de mulheres virtuosas, sem excluir os bobos da corte, também misturados a outros bobos, tratados como reis nos desfiles.

Até clérigos se misturavam à multidão vestindo suas roupas litúrgicas de trás pra frente, debochando dos superiores, carregando missais virados, desde que com o rosto devidamente disfarçado por trás de máscaras, pois nos dias seguintes rezariam missas, atenderiam confissões, enfim voltariam a ministrar os sacramentos.

O recurso das máscaras permitiu, como já acontecia em Veneza, que os nobres matassem a vontade de se divertir e se misturassem ao povo. Afinal, uma das coisas que o povo sempre fez melhor do que aqueles que o dominaram foi divertir-se.

Paulo II foi sucedido por Sisto IV, que contratou Michelângelo e fez a Capela Sistina. Foram dois estilos de governar que podemos avaliar pelos respectivos resultados.

MACHADO, BORGES, PELÉ, MARADONA

Deonísio da Silva *

Os judeus têm a palavra haftará (permissão ou despedida) para designar trechos proféticos lidos nas sinagogas depois da Torá nas manhãs de sábado, do hebraico “xabbat”, descanso, cujo étimo está em sábado, que, ao lado de domingo, compõe a dupla que não sucumbiu ao “feira” de todos os outros dias.

A Lua, Marte, Júpiter, Mercúrio e Vênus foram substituídos por “feria secunda, feria tertia” etc., o que viria a dar no português segunda-feira, terça-feira etc. A mudança começou no século VI, na Galícia e em Portugal.

O primeiro registro de segunda-feira é a lápide de uma ermida trazida para a igreja de São Vicente, em Braga, cuja inscrição informa ter a defunta morrido a 1º de maio de 618, “dia de segunda-feira, em paz, amen”.

Abro esta conversa de sábado à la haftará porque um dos quatro personagens deste artigo fazia constantes referências à herança judaica do Ocidente, cuja evidência maior é best-seller número um do mundo, a bíblia.

Num texto muito curioso de “Otras Inquisiones”, intitulado “De alguien a nadie”, Borges diz que o sujeito da primeira frase do Gênesis é o plural Eloim (Deuses), ainda que o verbo esteja no singular: “No príncípio criou Deus os céus e a terra”. Leiam-se “Deuses”, pois foi Eloim o Criador.

Muito antes de Borges, o herege luso-brasileiro Pedro de Rates Henequim destacou que o Gênesis é claro com este plural: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Se é façamos, disse ele, é mais do que um.

Interrogado por diversos inquisidores, disse que as pessoas divinas eram sete, o Paraíso ficava no Brasil, o fruto do pecado original tinha sido a banana, e o idioma do Céu era a língua portuguesa. Foi executado em 1744, aos 64 anos.

Dá-se algo semelhante com as heresias ao redor de Jorge Luís Borges, Joaquim Maria Machado de Assis, Diego Armando Maradona e Edson Arantes do Nascimento, deuses nos respectivos ofícios, que e se tornaram incomparáveis mas há outros nas respectivas listas…

Não se discute qual dos deuses é mais importante, se Eloim, Jeová, Adonai, a Trindade, o Pai, o Filho ou o Espírito Santo. Ou por outros momesco pelos quais seja conhecido, como Alá. Mas dá-se o contrário no futebol e na literatura.

Nestas considerações, talvez o primeiro erro de nosso tempo seja a velocidade. E o segundo a falta de silêncio. Coisas da modernidade líquida de que falava o filósofo e sociólogo judeu-polonês Zygmunt Baugman.

Antes dele, o nosso Machado de Assis trabalhou com o mesmo conceito ainda no século XIX. E antes de nosso maior escritor, diz o Eclesiastes, escrito no século VI a.C., enbora seu autor tenha vivido no século X a.C., caso seja mesmo o rei Salomão: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo sob o sol”.

Nós recortamos as coisas para melhor entendê-las. No caso de Diego Maradona e de Pelé sempre haverá dúvidas se eles foram de fato os melhores de sua época.

Vejamos alguém melhor do que eles nos três minutos que mudaram o futebol, em 15.06.1958, na Suécia: https://www.youtube.com/watch?v=ojLKzLuvni8

Nestas cenas, onde despontam outros deuses tão grandes como Garrincha, Didi e Vavá, o fabuloso goleiro da então URSS, Yashin, o Aranha Negra, grita desesperado para os marcadores de Garrincha “não, assim; não, assim”.

Um ano antes, no México, nasceu o costume da torcida gritar olé, como nas touradas, a cada vez que Mané Garrincha passava por seu marcador.

Todavia há bons motivos para quem insiste em Pelé como único rei do futebol.

Em https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8 estão os gols que ele não fez, ainda que até seus erros milimétricos sejam apreciados pela beleza com que ele tentou fazê-los: https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8

Também Maradona mostrou todos os motivos pelos quais poderia ser igual ou superior a Pelé. Vejamos dez destes motivos emhttps://www.youtube.com/watch?v=uSpX2DEvSo4

O melhor árbitro, e talvez o único, seja o leitor. Veja amostras de como escrevem Borges e Machado sobre temas semelhantes.

“Uma comunidad de musulmanes fue instigada por los demonios a reconocer a Mahoma como Dios. Para aplacar el disturbio, Mahoma fue traído a los infiernos e lo exibieron. En esta ocasión yo lo vi. Se parecía a los spíritus corpóreos que no tienen percepción interior, y su cara era muy oscura”. (Borges, El doble de Mahoma).

“Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos.” (Machado de Assis, A Igreja do Diabo).

Como se vê, sempre houve muitos deuses, ontem como hoje, que, a seu modo deixaram suas marcas no tempo deles, que é também o nosso, pois já aconteceu. Só não é nosso o que ainda não aconteceu. Mas será. Será? (xx)

Este texto foi publicado no Correio do Povo, para atender a pauta do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva.

º escritor e professor, é editor de Abelha: Mel e Ferrão, no grupo editorial Almedina, e colunista semanal na BandNews FM.

A OUTRA LISTA DOS MAIS VENDIDOS

Há uma outra lista dos mais vendidos. Será divertido exercício nesta quarentena imposta pelo coronavírus comparar os autores que estão numa lista e não estão em outra, pois todas são controversas.

Mas ao contrário do que ocorre nos hospícios e nas academias, onde muitos do que estão não são e dos que são não estão, nestas duas todos os autores e respectivos livros são conhecidos de todo o mundo. Ou deveriam ser…

Esta é de quinze autores e não dos dez habituais. São quase todos ingleses os autores mais vendidos do mundo deste novo “ranking”.

Estranhei a presença de apenas dois franceses, mas aparecem o chinês Cao Xueqin (Século XVIII), o espanhol Cervantes (Século XVI), o russo Mikhail Bulgákov e o brasileiro Paulo Coelho (ambos do Século XX) e nenhum autor italiano ou alemão.

Há listas de todo gosto, mas esta, da revista BULA, exclui dicionários, livros religiosos, educacionais, políticos e de curiosidades, fixando-se nos literários.

Do contrário, a Bíblia , o Alcorão e O Livro Vermelho de Mao, todos de leitura obrigatória, seriam os mais vendidos do mundo.

1. Cervantes, Dom Quixote.

2. Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo.

3. Charles Dickens, Um Conto e Duas Cidades.

4. A. de Saint-Éxupery, O Pequeno Príncipe.

5. J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis.

6. Paulo Coelho, O Alquimista.

7. L. E. James, Cinquenta Tons de Cinza.

8. J. J. Rowling, Harry Potter e a Pedra Filosofal.

9. Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas.

10. Agatha Christie, O Caso dos Dez Negrinhos.

11. Mikhail Bulgákov, O Mestre e Margarida.

12. Cao Xueqin, O Sonho da Câmara Vermelha.

13. C. S. Lewis, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

14. Henry Rider Haggard, Ela, a Feiticeira.

15. J. D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio.

Foram consultadas prestigiosas entidades editoriais, como a International Publishers Association (IPA), a European and International Booksellers Federation (EIBF); a International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA); as empresas de auditagem e pesquisas de mercado Nielsen e a GfK, e os jornais “The Paris Review”, “Business Insider”, “Washington Post”, “The Guardian”, “Telegraph”, “Toronto Star”, “New York Times”, “New Yorker” “Reader’s Digest”, “Global Times”, “Financial Times”.
https://www.revistabula.com/475-os-10-livros-mais-vendidos-da-historia/

OS LIVROS MAIS VENDIDOS DO MUNDO

por DEONÍSIO DA SILVA *

É verdade que Paulo Coelho vendeu 60 milhões de exemplares e que do Prêmio Nobel Gabriel García Márquez compramos 30 milhões de livros.

Mas o número um da lista é a Bíblia, que vendeu 6 bilhões de exemplares.

Em segundo lugar vem “O Peregrino”, do pastor inglês John Bunyan, com 900 milhões.

Em terceiro lugar, temos “Dom Quixote “, de Miguel de Cervantes, 500 milhões.

O quarto lugar é de “O Conde de Monte Cristo”, que vendeu 300 milhões. Seu autor é o francês Alexandre Dumas, pai, que escreveu também “Os Três Mosqueteiros”, que afinal eram quatro.

Cheio de peripécias inauditas, “O Conde Monte Cristo” conta a história do marinheiro Edmond Dantés. Vítima de calúnias e de um complô, ele é condenado à prisão, de onde um dia escapa. Tornando-se um homem livre, planeja e executa uma vingança espantosa, cheia de lances mirabolantes.

O filho bastardo que Alexandre Dumas teve com uma costureira recebeu o mesmo nome do pai, também foi escritor e está em quinto lugar com
“A Dama das Camélias”, que Giuseppe Verdi transformou na ópera “La Traviata”.

Conta a história da cortesã Violetta, de triste final: às portas da morte, ela oferece um retrato a um dos amantes e diz para ele entregá-lo à próxima mulher por quem se apaixonar. “Traviare” em italiano é desviar, decair, perder-se, do mesmo étimo do Latim “via”, que deu extraviado, perdido.

Nem todos os títulos mais vendidos podem ser qualificados como romances, apesar de tramas e personagens muito semelhantes.

“O Peregrino” é do inglês John Bunyan, pastor protestante que ficou doze anos preso por pregar sem licença. Foi libertado depois de um decreto de indulgência religiosa do rei inglês Carlos I.

Bunyan morreu de gripe, o rei foi executado no próprio palácio, por ordem de Oliver Cromwell, líder da guerra civil que aboliu a monarquia. Cromwell morreu de malária, mas seu cadáver foi decapitado em praça pública por ordens do rei Carlos II, filho de Carlos I.

Quer dizer, no entorno havia material e personagens para outro “bestseller”, mas os leitores preferiram as peripécias do peregrino chamado Cristão, rumo a Cidade Celestial, por um caminho estreito, guiado por Evangelista. Seu companheiro de viagem é Fiel, executado na Feira das Vaidades. É substituído por Esperançoso.

Na faixa dos 200 milhões de exemplares vendidos, temos “O Pequeno Príncipe”, do francês Antoine de Saint-Éxupéry, e “Uma história de duas cidades”, do inglês Charles Dickens.

Os ingleses J. R. Tolkien e Agatha Christie escreveram livros que venderam 100 milhões.

Todas as listas dos livros mais vendidos são controversas, mas são sempre uma referência. (xx)

BATEU AS BOTAS


Esta frase, indicando que o sujeito morreu, é uma variante das tradicionais “Esticou as canetas”, “Abotoou o paletó”, “Partiu desta para melhor”.

O curioso, porém, é que se
aplica apenas a morto adulto, do sexo masculino, que tenha o costume de andar de botas ou ao menos calçado.

O sapato tem sido símbolo de qualificação social ao longo de nossa história, tendo partilhado seu prestígio com certas marcas de tênis, em busca dos quais adolescentes delinqüentes chegam a matar.

Provavelmente, bate as botas ao morrer alguém de
certas posses, ao menos remediado. Outros mortos apenas esticam as canelas ou partem desta para melhor. No segundo caso, partem com estilo, fazendo dupla elipse, já que está subentendido que partiram desta para outra vida, que os
comentadores antevêem mais favorável a quem partiu. Dependendo da herança, sua partida é mais favorável a quem
ficou.

As origens da frase residem no bom trato despendido aos
mortos, postos arrumadinhos nos caixões, com paletó
abotoado.

Como, porém, as mulheres passaram a usar roupas
semelhantes às dos homens, também elas podem abotoar o paletó à triste hora de partida.

A pergunta, entretanto,
permanece: triste para quem? Sábios, os latinos cunharam outra frase: “Requiescat in pacem” (descanse em paz). E há um emblema para as cerimônias da morte, o Requiem
(Descanso).

Um dos mais célebres é o de Mozart. Há ainda uma explicação adicional: ao bater as botas em continência, o subordinado se retira. Na morte, bate as botas para o Criador e também se retira…da vida.

O BUCENTAURO DA DOGARESSA

Em Portugal, algumas palavras que aqui não são palavrões, lá são. E outras que aqui são, lá não são.

Certa vez fui comprar um casaco para a minha mulher em Lisboa e a vendedora ofereceu-se para experimentá-lo, perguntando se seu corpo era parecido com o de minha então esposa.

Concordei. Ela ainda perguntou: “de bóias também somos parecidas?”. Devo ter dado ares de ignorar a palavra. Ela esclareceu: “como sua esposa é de catarinas?”.

A dona resolveu ajudar: “as tetinas de sua esposa são menores, maiores ou mais pequenas do que as da rapariga que está a experimentar o cabedal?”.

Arregalei os olhos e a simpática atendente ainda disse: “As maminhas dela são mais ou menos assim?” – e tomou os próprios seios nas mãos para explicar.

Assenti e balbuciei um duplo “sim”, já meio envergonhado. Ela vestiu o casaco, olhou-se de perfil no espelho e, virando a cabeça para mim, puxou a parte de trás da veste e deu o fecho final no diálogo: “Este lhe cairá bem, pois cobre-lhe bem o rabo”.

Este diálogo seria impossível sem risos no Brasil. Mas eis que, para ilustrar palavras de uso frequente no Português e outras de uso raro, numa recente aula à distância recorri a dois escritores e jornalistas que sempre tiveram notável domínio de nossa língua.

Um deles é Carlos Menezes, já falecido, autor de “Elesbão, o bleso”, que escrevia em “O Globo”. “Elesbão sofria de ofíase e criava em casa um gimnuro”.

Outro é Carlos Heitor Cony, que escreveu muitos anos na “Folha”.

Era cheio de verve e tínhamos vários pontos em comum, entre os quais os anos de seminário. Dele reli recentemente “O harém das bananeiras”, de crônicas.

A uma delas comparecem um doge e uma dogaressa que, recém-casados, navegam pelo mar Adriático num bucentauro.

Pois é. Dogaressa é feminino de doge. E o bucentauro é semelhante ao centauro, com a diferença de que a metade do corpo é de boi, não de cavalo. Dá nome a embarcação luxuosa ainda existente em Veneza. “Boûs” é boi ou touro em Grego.

Que depois de tais explicações, a dogaressa navegue alegremente no bucentauro.