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TRIO ELÉTRICO VERBAL

Deonísio Da Silva *

A habilidade verbal é marca registrada do brasileiro. Gostamos de conversar, a boa prosa nos fascina.

De repente, porém, a infantaria da língua portuguesa começou a sofrer ataques maciços de uma estranha e abrutalhada cavalaria que arrasa a beleza e a cordialidade de nossas conversas ao telefone.

O tormento atual é um insólito gerúndio acoplado ao indicativo e ao infinitivo.

Mas os abusos começaram antes.

Depois de insondáveis diálogos com uma gravação, o cliente ouve, enfim: ‘digite nove para falar com um de nossos atendentes’. ‘Pois não’. ‘Preciso falar com quem decide’. ‘Quem gostaria?’ ‘Como, gostaria?’ ‘É, o senhor, enquanto cliente, gostaria de falar com quem?’ ‘Enquanto ainda nos entendemos, quero dizer que sou cliente de vocês há décadas, mas já faz bastante tempo que não consigo falar com ninguém. Quem sempre me atende é uma gravação. E se eu fizer o mesmo quando vocês ligarem para mim? Deixaremos as máquinas conversando isoladas em seus solilóquios?’

‘Desculpe, senhor, o senhor quer falar com quem?’ ‘Com quem decide. Com o chefe, o gerente, o supervisor, o capataz’.

O cliente sabe que muitas empresas brasileiras não substituíram o capitão do mato. Substituíram seu instrumento de castigo. Em vez do chicote, o computador ou o telefone, quando não os dois combinados.

‘E quem gostaria de falar com ele, por favor?’ ‘João.’ ‘João de onde?’ ‘De São Paulo’. ‘Um momento, por favor, que eu vou estar encaminhando a sua ligação.’

A mão de obra é um dos grandes problemas nacionais. E nesses tempos em que as empresas transformaram o telefone em ferramenta de trabalho, as deficiências no domínio da língua portuguesa irritam demais os cidadãos.

A culpa é do invento de Graham Bell? Não. O brasileiro e o telefone se entendiam bem, desde que Dom Pedro II experimentou o aparelho apresentado pelo célebre físico e professor de surdos-mudos.

É uma pena que não tenhamos gravado certas conversas. Não a do alto funcionário do Palácio do Planalto com o famoso bicheiro cujo nome o humor de Elio Gaspari transformou no neologismo ‘Charlie Waterfall’ (Carlinhos Cachoeira), mas a prosa amena que poderia levar a certas antologias.

Não seria delicioso ouvir os melhores telefonemas de Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende, por exemplo? A tarefa poderia ter sido atribuída à escritora Edla van Steen, responsável por antológicas coleções de contos, poemas e crônicas.

A utilidade e o prazer da conversa ao telefone viraram um tormento. Por que perder tempo em indagar de onde a pessoa ligou, ainda mais nesses tempos em que a ligação é indexada e o destinatário, ainda antes de atender, sabe, não apenas a localidade, mas também o número do telefone de quem ligou?

Este tipo de sigilo tornou-se impossível. O número é identificado assim que o telefone toca.

Atendentes de diversas empresas e, o que é mais grave, funcionários públicos, amontoam numa única sentença o presente do indicativo, o infinitivo e o gerúndio para formar este inusitado trio elétrico verbal que dá choques incríveis no interlocutor.

A atendente ‘vai estar encaminhando a reclamação’ de João, ‘enquanto cliente’ e ‘a nível de diretoria’. Mas assim que abre a boca, põe o gerúndio em má companhia.

O escritor Eliziário Goulart Rocha foi um dos primeiros a registrar a perplexidade. ‘Num mero pedido de pizza, ouvimos: vamos estar entregando’.

Se a língua portuguesa for eliminatória para candidatos a algum emprego que requer o uso do telefone, haverá menos trabalho para excluir os despreparados.

Se acoplarem indicativo, infinitivo e gerúndio numa frase só, o examinador ‘vai estar mandando os candidatos de volta para a escola’.”

* Publicado no Observatório da Imprensa.

IONESCO E A ARTE MALANDRA DE ENGANAR OS OUTROS

por DEONÍSIO DA SILVA *

Nesses dias estive relendo O RINOCERONTE, do romeno Eugène Ionesco. Era professor de francês (professor doutor) e achava absurdas as frases para se aprender uma nova língua. Abominava também o teatro: “Fingimos todos os dias em todas as situações, para que fingir no palco também?”.

Um dia, em 1949, ele estava com 39 anos, tudo mudou. Tirou frases de seu primeiro livro, “Inglês Sem Dor” (Anglais Sons Peine), mostrando como eram absurdas, ao levá-las para seu primeiro texto de teatro, “A Cantora Careca” (La Cantatrice Chauve, 1950).

O Sr. e a Sra. Smith, principais personagens da peça, conversam assim: “Quantos são os dias da semana? Os dias da semana são sete”. “E como se chamam?” “Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira,
sábado e domingo”. “Que coisa inacreditável!”

Frequentemente, Ionesco ia aos jornais defender sua própria obra, coisa que não fazemos diante dos absurdos da mídia BRASILEIRA, que há mais de vinte anos nos apresenta autores medíocres como se fossem gênios e colunistas que não seriam aceitos por nossos editores de revistas de grêmios literários por não saberem PORTUGUÊS.

Se você escreve, o requisito é dominar a língua, assim como para pintar deve saber manejar pincéis e tintas, e para filmar entender de câmera, enfim as coisas tão óbvias foram esquecidas, chegando ao ponto de nas UNIVERSIDADES um grupo de atores cutucar o fiofó uns dos outros e chamar isso de teatro, arte e outras coisas dignas e elevadas nas quais a Humanidade se esmera há milhares de anos.

Se você, porém, manifesta esta inconformidade básica, passa a ser suspeito para essa “burritzia” encastelada em seus costumeiros tugúrios, que dominam há décadas e ampliaram muito com as redes sociais.

Eles dividiram nosso mundo, repleto de complexas sutilezas, em dois: o deles e os mundos dos outros, para eles todos agrupados num só: são aqueles contra os quais eles se insurgem, sentados, manipulando teclados como se tivessem o poder de antigos feitores e tivessem na mão chicotes e não teclados.

Os caras se orgulham de ter milhares de seguidores. O Brasil inteiro não tem em leitores o número de seguidores de um único “youtuber”. Usar esse critério seria como você escolher mel pela quantidade de abelhas que te deram ferroadas. Mas, como ensina o Talmud, nunca se esqueça de que a abelha tem mel e ferrão. E nós também!

Mas, lembrai-vos, nem sempre foi assim…E provavelmente depois do coronavírus jamais será.

* escritor e professor, autor de “Stefan Zweig deve morrer” e “Avante, soldados: para trás”, entre outros livros.

PADRE ANCHIETA AJUDOU A ENFORCAR UM FRANCÊS?

“Era chegado o momento da execução do último francês. Para a sua desgraça, seu suplício foi aumentado por causa da incompetência do carrasco Joselito, que deu uma laçada muito malfeita. O homem se debatia pendurado pelo pescoço, sem morrer. Para dar breve fim a essa aflição, Padre Anchieta deu uma bronca no carrasco, para que fizesse direito seu trabalho. O laço foi então refeito do modo correto, e o francês finalmente morreu, tendo abreviado os seus tormentos.”

Ver mais em: http://ocatequista.com.br/archives/12684#sthash.APaT1SEL.dpuf

Era 2014. Depois do café, na casa onde moram ele e sua esposa Márcia, na serra, nos arredores de Petrópolis, Leonardo Boff me convidou a deflagrarmos uma campanha para canonizar o profeta Gentileza.

Eu todo animado com a minha santinha, estou escrevendo sobre a catarinense Albertina Berkenbrock, já beatificada e prestes a ser canonizada, e o Boff chamando atenção para outro santo.

“Ele ainda não fez nenhum milagre”, ponderei. “Ah, milagre”, me disse o meu conterrâneo, catarinense de Concórdia, “milagre a gente inventa”.

O padre José de Anchieta, colega de farda do jesuíta Bergoglio, agora Papa Francisco, estava na fila da subida aos altares há vários séculos, mas havia este pormenor.

Não que Anchieta não quisesse ser o que sempre foi, santo, mas é que o complexo e por vezes caviloso processo de canonização é transformado em combate contra as forças patrocinadoras de certos candidatos.

Uma campanha de canonização custa caro! Mas, além dos custos orçamentários, alguma coisa a mais houve intramuros na Santa Sé para a canonização de Anchieta ser prorrogada para o dia seguinte.

Todavia esse Papa é da ponta daquele mastro onde fica a cesta da gávea e onde estava o anônimo marinheiro que descobriu o Brasil! Viram a volta que dei para não dizer um palavrão? Mocinhas cariocas, quando admiradas de alguma coisa ou pessoa, ou apenas irritadas, dizem “caraca!”

Francisco, conquanto argentino, é admirado e corajoso paca! Paca e caraca são eufemismos, modos de designar a mesma coisa.

José de Anchieta foi canonizado por decreto!

Tinha que ser um jesuíta para ter um atrevimento desses e proceder como Getúlio Vargas. Negociava com o Congresso ou baixava um decreto.

Assim foi criada a “Petrobrás”, que parece sigla, mas não é! Resume “petróleo” e de “brasileiro”.

E o profeta Gentileza? José Datrino, este o nome dele, era paulista de Cafelândia, onde nasceu em 1917. Tinha 11 irmãos, a família era pobre e ele ganhava a vida de carroça, vendendo lenha. Sabia como poucos amansar burros e com métodos semelhantes se disse mais tarde “amansador de burros da cidade que não tinham esclarecimento”.

Ele criou o lema “gentileza gera gentileza”, daí seu apelido. Era proprietário de vários caminhões quando um incêndio destruiu um circo em Niterói, em 17 de dezembro de 1961, matando mais de 500 pessoas.

O bandido Dequinha, demitido dias antes, confessou o crime.

Destacaram-se no atendimento às vítimas um jovem médico chamado Ivo Pitanguy e José Datrino que, depois disso, vendeu tudo o que tinha e saiu às ruas pregando gentileza.

Ainda hoje suas frases podem ser lidas em pilastras da Avenida Brasil, no Rio.

Homenageado em canções, o profeta Gentileza foi também personagem da telenovela “Caminho das Índias”, de 2009, representado pelo ator gaúcho Paulo José (Gómez de Sousa).

Estão na fila das canonizações: Gentileza, o padre Teixeira, que é nome de rua em São Carlos, e Albertina Boeing Berkenbrock, adolescente degolada em tentativa de estupro por empregado dos pais dela.(xx). •

  • escritor e professor federal, Doutor em Letras pela USP, da Academia das Ciências de Lisboa.

ALEGRIA E DOR NOS CALENDÁRIOS

Por DEONÍSIO DA SILVA *

Publicado em O Globo, em 21 de janeiro de 2017.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda.

A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis.

Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas.

O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro.

Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc.

Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos.

Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do Latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação.

As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor.

tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar.

O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday.

Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo Latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender.

Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”.

A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos.

DOIS ALIENISTAS: um em brasília, outro nos eua

Os presidentes do Brasil e dos EUA parecem o personagem Simão Bacamarte de O Alienista, de Machado de Assis. O médico, referência solar desta narrativa curta, muda radicalmente de opinião ao correr dos acontecimentos. Primeiramente, interna todos os habitantes na Casa Verde, o hospício de Itaguaí, porque a seu juízo todos estão loucos. No desfecho, dá alta a todos e vai ele para o lugar dos doidos:

“Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo”.

O PRIMEIRO ACIDENTE DE TRÂNSITO FOI OBRA DE ESCRITORES

LÍNGUA PORTUGUESA

“Flores e desastres do português”, copyright Jornal do Brasil, 25/05/03

“Nossa língua portuguesa foi concebida em célebre poema de Olavo Bilac como a “última flor do Lácio, inculta e bela” e “ouro nativo”, além de “esplendor e sepultura”.

Pasquale Cipro Neto, dedicado professor e homem de letras, mantém coluna semanal sobre temas e problemas de nosso idioma, ensinando a norma culta em espaço semelhante a este nosso Língua Viva. Lá, Inculta e bela. Não somos concorrentes e nem adversários. Somos aliados. E estamos interessados em atingir objetivos semelhantes, cada qual ao seu estilo e à luz das especificidades de nossos respectivos ofícios.

Semana passada, aliás, na Bienal do Livro, no Rio, os organizadores puseram-nos frente ao distinto público de um Café Literário, de que participaram também Reinaldo Pimenta e Sérgio Nogueira. Tivemos todos um agradável convívio, à entrada e à saída dos debates, o que, convenhamos, não é muito usual entre intelectuais e professores.

Embora nosso preparo físico fosse ligeiramente superior ao dos ministros do presidente Lula, alguns dos quais marcam passo e dão maus passes nas peladas do paço, foi-nos providenciado um veículo pequeno que vem substituindo a maca nos campos de futebol e em recintos reservados a eventos, como era o caso.

Ainda assim, pareceu-me que já chegávamos estropiados, precisando de maca, palavra de origem controversa, provavelmente com raízes no baixo alemão Hangmat, que na língua culta equivaleria a Hängematte, tapete suspenso. Fez escala no espanhol hamaca, rede estendida entre duas árvores. Tendo servido de cama, passou depois a ser utilizada como veículo para transporte de doentes e feridos. Nos países tropicais, a maca é a liteira dos pobres. É muito conhecida nos campos de futebol, servindo para retirar o atleta que, machucado, não pode locomover-se por seus próprios meios. Jogadores fingidos, quando postos sobre a maca motorizada, parecem à beira da morte. Uma vez retirados do gramado, saltitam alegremente, pois foram curados no trajeto. Pois nós também saltamos, recebemos alta daquela ambulância e fomos ao trabalho.

Nosso tema era a origem de palavras e de expressões que se consolidaram de tal modo em nossa língua, a ponto de algumas delas servirem de vinhetas na imprensa, de que é exemplo o famoso verso “última flor do Lácio, inculta e bela”.

As vinhetas são assim chamadas porque os monges medievais enfeitavam seus escritos com desenhos de folhas e de cachos de videiras. No latim, videira é vinea. No francês, filho do latim, vinea tornou-se vigne. E a pequena vigne, vignette, que se tornou vinheta, no português. As vinhetas, antes de migrarem para a escrita, estavam em móveis e louças, onde, aliás, ainda permanecem.

Os leitores, repartidos, detestam ou veneram Olavo Bilac. Integro o segundo lote. Textos de pouca ou nenhuma isenção ideológica lembram com surpreendente obsessão que o conhecido escritor brasileiro inventou o livro didático e o serviço militar, ambos obrigatórios, ainda que o primeiro apenas para os homens. Mais cívicos, outros lembram que é autor de nosso Hino à Bandeira. A Bíblia já avisou que o justo sofre na boca dos ímpios. Mas os tempos mudam e quem hoje é ímpio, amanhã pode ser considerado justo e vice-versa. De todo modo, os ímpios hodiernos, quando referem Olavo Bilac, dão-no apenas como o autor do primeiro desastre de automóvel no Brasil.

E eis um caminho que se bifurca. Desastre veio do provençal antigo desastre, passando pelo francês désastre e pelo italiano disastro. Em todas as línguas citadas, designava originalmente desvio da rota do astro ou ?contra os astros?, dada a enorme influência da astrologia em tempos remotos. Os antigos pensavam que as grandes desgraças e calamidades decorriam de desordens entre os astros, impedidos momentaneamente de zelar pelas coisas terrenas. E não recolhiam impostos para tais proteções. É, mas não vivemos no Céu. Vivemos na Terra. E aqui há impostos e desastres. Não deixa, porém, de ser poética a designação de desastre.

Uma curiosidade marca o primeiro deles no Brasil, envolvendo dois escritores: o poeta Olavo Bilac pediu emprestado o automóvel de José do Patrocínio e destruiu o carro do célebre orador abolicionista numa batida antológica. Ora, o chofer barbeiro – chofer passou a motorista – era poeta dos bons e seu nome completo formava um decassílabo: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. E a última flor é a língua portuguesa, a última das filhas do latim. É inculta por descuido de seus filhos, mas é bela porque todos reconhecem a delicadeza de suas expressões, principalmente na fala, dadas as contribuições que recebeu dos novos falantes de além-mar, no Brasil, como na África e na Ásia.

A região do Lácio, localizada às margens do mar Tirreno, na Itália, foi subjugada pelos romanos no século IV a.C. Uma boa mostra de quanto a última flor do Lácio continua inculta são os programas apresentados no rádio e na televisão no horário eleitoral gratuito, no varejo e no atacado. E outros exemplos – no caso, maus exemplos – procedem de muitos de nossos parlamentares, desde há alguns anos cada vez mais expostos em programas de televisão de responsabilidade de assembleias estaduais e de câmaras de vereadores. E principalmente na TV Senado! Não será o caso de estipular algum tipo de sanção para a falta de decoro no trato com o instrumento por excelência do exercício de suas funções? Afinal, além de maltratar a língua-mãe, cometendo crimes de lesa-língua, fazem isso impunemente, em nome de milhões de brasileiros, a quem representam nos parlamentos.”

Artigo: O vírus que veio de longe

Epidemias, pandemias e democracias são periódicas no Brasil e no mundo.

Por DEONÍSIO DA SILVA *

O Globo, 23.03.2020

Epidemia, pandemia, democracia. Não confundir a segunda e a terceira com pandemônio, palavra que o poeta inglês John Milton, secretário de Línguas Estrangeiras, criou no Século XVII para designar o Palácio de Satanás no famoso livro “Paraíso perdido”.

Epidemia afeta apenas algumas regiões. Pandemia afeta o mundo todo. Epidemias, pandemias e democracias são periódicas no Brasil e no mundo. Vão e voltam, às vezes muito disfarçadas e quase irreconhecíveis.

 Desta vez veio da China, com escalas em outros países antes de chegar ao Brasil, o vírus mais temido hoje no mundo, batizado pelos cientistas por Sars-CoV-2 (abreviação em inglês de Síndrome Respiratória Aguda Grave-Coronavírus-2), causa da doença designada por   Covid-19, abreviação em inglês de Coronavirus Disease 2019, ameaçando levar meio mundo para a cova. São velhos conhecidos dos cientistas, agora em edições  revistas e ampliadas

Também seu nome veio de longe. Somos filhos das antigas Grécia e Roma, não saímos do mundo greco-latino e ele não sai de nós. Corona e vírus são palavras latinas, coroa e coisa nociva, respectivamente, e disease, grega, significando doença, do latim vulgar dolentia, que dói, que o latim culto designava por morbus, e está  no português morbidez, mórbido. É do mesmo étimo de mordere, morder no sentido de matar, causar dano.

As palavras também têm suas biografias, autorizadas e não autorizadas, e ambas esclarecem muitas coisas. Vírus veio do latim virus, sumo de plantas prejudicial à saúde. Os antigos gregos o chamavam iós, veneno, e o tomaram da raiz indo-europeia weiss, fluir, escorrer.

Entre as voltas que as palavras dão, vírus já foi sumós, não um veneno, mas um caldo escuro, mélassumós, feito com carne de porco fervida no sangue do animal, temperada com azeite e vinagre. Muito apreciada pelos soldados espartanos, a sopa foi servida a seu senhor em Roma por um escravo que tinha sido cozinheiro em Esparta. “Agora sei por que eles não temiam a morte”, disse ele ao experimentá-la e cuspir.

Hoje, a ciência reina soberana, mas já houve muitas explicações estapafúrdias. Demócrito e Aristóteles, entre outros, defendiam a geração espontânea. Eles davam o exemplo da carne podre, de onde nasciam moscas. E a humanidade acreditou nos imaginosos gregos por dois milênios.

No Século XIV, ainda vigorava a crença popular de que árvores à margem de rios e lagos davam gansos, e outras à beira de pastos davam melões recheados de carneiros. No século XVI, o cientista Paracelso concluíra que sapos, ratos, enguias e tartarugas podiam nascer da água, de madeira podre, de montes de palha etc.

Entre os séculos XVI e XVII, o cientista holandês Jan Baptista van Helmont, contestando as dúvidas de Thomas Browne sobre a geração espontânea, deu até uma receita para produzir camundongos: manter num recipiente aberto uma camisa suja de suor e algumas sementes de trigo. Em três semanas nasceriam ratos.

Mas no século XVII o italiano Francesco Redi provou que os vermes só apareciam na carne podre se esta tivesse tido contato com moscas vivas. Quando o francês Louis Pasteur e o inglês Thomas Huxley, ambos no século XIX, pesquisavam a miúda bicharada das bactérias, já sabiam que era impossível a abiogênese: do Grego á, sem, + bíos, vida, + génesis, criação, então definida como um princípio ativo.

Ativos, de fato, eram e são os vírus. O vírus deixou de ser sumo, suco ou veneno depois que em 1892 o russo Dimitri Ivanovski mostrou que havia seres ainda menores do que as bactérias de Pasteur, por cujo filtro de porcelana eles passavam e se reproduziam nas células.

Pasteur adotara “bactérie”, bactéria, como a chamara em francês o alemão Christian Gottfried Ehrenberg, adaptando-a do grego bakteria e do latim bacterium, nessas duas línguas designando apenas bastonete, pela forma de bastão dos micro-organismos. Também o coronavírus recebeu seu nome pela aparência de coroa que o vírus tem.

Hoje, nem sopa nem veneno, os vírus parecem ter encontrado o eterno retorno e sempre voltam mudados e mais fortes. O mais terrível voltou rei: coronavírus. E já tem sucessor: o novo coronavírus. A vida é luta renhida contra ele, viver é lutar.

Deonísio da Silva é professor e escritor

UNIVERSIDADE SEM PORTUGUÊS

A Revolução Russa de 1917 abriu as portas da universidade a todos. Mas em menos de oito anos impôs uma espécie de vestibular, pois alunos despreparados faziam a universidade descer ladeira abaixo.

É um horror, mas já faz tempo que setores obscurantistas de nossas universidades ensinam a seus alunos que eles não precisam aprender a norma culta. Nem antes nem depois de entrar para a universidade.

Como todos os livros estão escritos em norma culta, eles não entendem o que leem. E não aprendem.

Para entrar para a universidade, há requisitos como este, que não estão sendo cumpridos.