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A OUTRA LISTA DOS MAIS VENDIDOS

Há uma outra lista dos mais vendidos. Será divertido exercício nesta quarentena imposta pelo coronavírus comparar os autores que estão numa lista e não estão em outra, pois todas são controversas.

Mas ao contrário do que ocorre nos hospícios e nas academias, onde muitos do que estão não são e dos que são não estão, nestas duas todos os autores e respectivos livros são conhecidos de todo o mundo. Ou deveriam ser…

Esta é de quinze autores e não dos dez habituais. São quase todos ingleses os autores mais vendidos do mundo deste novo “ranking”.

Estranhei a presença de apenas dois franceses, mas aparecem o chinês Cao Xueqin (Século XVIII), o espanhol Cervantes (Século XVI), o russo Mikhail Bulgákov e o brasileiro Paulo Coelho (ambos do Século XX) e nenhum autor italiano ou alemão.

Há listas de todo gosto, mas esta, da revista BULA, exclui dicionários, livros religiosos, educacionais, políticos e de curiosidades, fixando-se nos literários.

Do contrário, a Bíblia , o Alcorão e O Livro Vermelho de Mao, todos de leitura obrigatória, seriam os mais vendidos do mundo.

1. Cervantes, Dom Quixote.

2. Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo.

3. Charles Dickens, Um Conto e Duas Cidades.

4. A. de Saint-Éxupery, O Pequeno Príncipe.

5. J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis.

6. Paulo Coelho, O Alquimista.

7. L. E. James, Cinquenta Tons de Cinza.

8. J. J. Rowling, Harry Potter e a Pedra Filosofal.

9. Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas.

10. Agatha Christie, O Caso dos Dez Negrinhos.

11. Mikhail Bulgákov, O Mestre e Margarida.

12. Cao Xueqin, O Sonho da Câmara Vermelha.

13. C. S. Lewis, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

14. Henry Rider Haggard, Ela, a Feiticeira.

15. J. D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio.

Foram consultadas prestigiosas entidades editoriais, como a International Publishers Association (IPA), a European and International Booksellers Federation (EIBF); a International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA); as empresas de auditagem e pesquisas de mercado Nielsen e a GfK, e os jornais “The Paris Review”, “Business Insider”, “Washington Post”, “The Guardian”, “Telegraph”, “Toronto Star”, “New York Times”, “New Yorker” “Reader’s Digest”, “Global Times”, “Financial Times”.
https://www.revistabula.com/475-os-10-livros-mais-vendidos-da-historia/

OS LIVROS MAIS VENDIDOS DO MUNDO

por DEONÍSIO DA SILVA *

É verdade que Paulo Coelho vendeu 60 milhões de exemplares e que do Prêmio Nobel Gabriel García Márquez compramos 30 milhões de livros.

Mas o número um da lista é a Bíblia, que vendeu 6 bilhões de exemplares.

Em segundo lugar vem “O Peregrino”, do pastor inglês John Bunyan, com 900 milhões.

Em terceiro lugar, temos “Dom Quixote “, de Miguel de Cervantes, 500 milhões.

O quarto lugar é de “O Conde de Monte Cristo”, que vendeu 300 milhões. Seu autor é o francês Alexandre Dumas, pai, que escreveu também “Os Três Mosqueteiros”, que afinal eram quatro.

Cheio de peripécias inauditas, “O Conde Monte Cristo” conta a história do marinheiro Edmond Dantés. Vítima de calúnias e de um complô, ele é condenado à prisão, de onde um dia escapa. Tornando-se um homem livre, planeja e executa uma vingança espantosa, cheia de lances mirabolantes.

O filho bastardo que Alexandre Dumas teve com uma costureira recebeu o mesmo nome do pai, também foi escritor e está em quinto lugar com
“A Dama das Camélias”, que Giuseppe Verdi transformou na ópera “La Traviata”.

Conta a história da cortesã Violetta, de triste final: às portas da morte, ela oferece um retrato a um dos amantes e diz para ele entregá-lo à próxima mulher por quem se apaixonar. “Traviare” em italiano é desviar, decair, perder-se, do mesmo étimo do Latim “via”, que deu extraviado, perdido.

Nem todos os títulos mais vendidos podem ser qualificados como romances, apesar de tramas e personagens muito semelhantes.

“O Peregrino” é do inglês John Bunyan, pastor protestante que ficou doze anos preso por pregar sem licença. Foi libertado depois de um decreto de indulgência religiosa do rei inglês Carlos I.

Bunyan morreu de gripe, o rei foi executado no próprio palácio, por ordem de Oliver Cromwell, líder da guerra civil que aboliu a monarquia. Cromwell morreu de malária, mas seu cadáver foi decapitado em praça pública por ordens do rei Carlos II, filho de Carlos I.

Quer dizer, no entorno havia material e personagens para outro “bestseller”, mas os leitores preferiram as peripécias do peregrino chamado Cristão, rumo a Cidade Celestial, por um caminho estreito, guiado por Evangelista. Seu companheiro de viagem é Fiel, executado na Feira das Vaidades. É substituído por Esperançoso.

Na faixa dos 200 milhões de exemplares vendidos, temos “O Pequeno Príncipe”, do francês Antoine de Saint-Éxupéry, e “Uma história de duas cidades”, do inglês Charles Dickens.

Os ingleses J. R. Tolkien e Agatha Christie escreveram livros que venderam 100 milhões.

Todas as listas dos livros mais vendidos são controversas, mas são sempre uma referência. (xx)

BATEU AS BOTAS


Esta frase, indicando que o sujeito morreu, é uma variante das tradicionais “Esticou as canetas”, “Abotoou o paletó”, “Partiu desta para melhor”.

O curioso, porém, é que se
aplica apenas a morto adulto, do sexo masculino, que tenha o costume de andar de botas ou ao menos calçado.

O sapato tem sido símbolo de qualificação social ao longo de nossa história, tendo partilhado seu prestígio com certas marcas de tênis, em busca dos quais adolescentes delinqüentes chegam a matar.

Provavelmente, bate as botas ao morrer alguém de
certas posses, ao menos remediado. Outros mortos apenas esticam as canelas ou partem desta para melhor. No segundo caso, partem com estilo, fazendo dupla elipse, já que está subentendido que partiram desta para outra vida, que os
comentadores antevêem mais favorável a quem partiu. Dependendo da herança, sua partida é mais favorável a quem
ficou.

As origens da frase residem no bom trato despendido aos
mortos, postos arrumadinhos nos caixões, com paletó
abotoado.

Como, porém, as mulheres passaram a usar roupas
semelhantes às dos homens, também elas podem abotoar o paletó à triste hora de partida.

A pergunta, entretanto,
permanece: triste para quem? Sábios, os latinos cunharam outra frase: “Requiescat in pacem” (descanse em paz). E há um emblema para as cerimônias da morte, o Requiem
(Descanso).

Um dos mais célebres é o de Mozart. Há ainda uma explicação adicional: ao bater as botas em continência, o subordinado se retira. Na morte, bate as botas para o Criador e também se retira…da vida.

O BUCENTAURO DA DOGARESSA

Em Portugal, algumas palavras que aqui não são palavrões, lá são. E outras que aqui são, lá não são.

Certa vez fui comprar um casaco para a minha mulher em Lisboa e a vendedora ofereceu-se para experimentá-lo, perguntando se seu corpo era parecido com o de minha então esposa.

Concordei. Ela ainda perguntou: “de bóias também somos parecidas?”. Devo ter dado ares de ignorar a palavra. Ela esclareceu: “como sua esposa é de catarinas?”.

A dona resolveu ajudar: “as tetinas de sua esposa são menores, maiores ou mais pequenas do que as da rapariga que está a experimentar o cabedal?”.

Arregalei os olhos e a simpática atendente ainda disse: “As maminhas dela são mais ou menos assim?” – e tomou os próprios seios nas mãos para explicar.

Assenti e balbuciei um duplo “sim”, já meio envergonhado. Ela vestiu o casaco, olhou-se de perfil no espelho e, virando a cabeça para mim, puxou a parte de trás da veste e deu o fecho final no diálogo: “Este lhe cairá bem, pois cobre-lhe bem o rabo”.

Este diálogo seria impossível sem risos no Brasil. Mas eis que, para ilustrar palavras de uso frequente no Português e outras de uso raro, numa recente aula à distância recorri a dois escritores e jornalistas que sempre tiveram notável domínio de nossa língua.

Um deles é Carlos Menezes, já falecido, autor de “Elesbão, o bleso”, que escrevia em “O Globo”. “Elesbão sofria de ofíase e criava em casa um gimnuro”.

Outro é Carlos Heitor Cony, que escreveu muitos anos na “Folha”.

Era cheio de verve e tínhamos vários pontos em comum, entre os quais os anos de seminário. Dele reli recentemente “O harém das bananeiras”, de crônicas.

A uma delas comparecem um doge e uma dogaressa que, recém-casados, navegam pelo mar Adriático num bucentauro.

Pois é. Dogaressa é feminino de doge. E o bucentauro é semelhante ao centauro, com a diferença de que a metade do corpo é de boi, não de cavalo. Dá nome a embarcação luxuosa ainda existente em Veneza. “Boûs” é boi ou touro em Grego.

Que depois de tais explicações, a dogaressa navegue alegremente no bucentauro.

TRIO ELÉTRICO VERBAL

Deonísio Da Silva *

A habilidade verbal é marca registrada do brasileiro. Gostamos de conversar, a boa prosa nos fascina.

De repente, porém, a infantaria da língua portuguesa começou a sofrer ataques maciços de uma estranha e abrutalhada cavalaria que arrasa a beleza e a cordialidade de nossas conversas ao telefone.

O tormento atual é um insólito gerúndio acoplado ao indicativo e ao infinitivo.

Mas os abusos começaram antes.

Depois de insondáveis diálogos com uma gravação, o cliente ouve, enfim: ‘digite nove para falar com um de nossos atendentes’. ‘Pois não’. ‘Preciso falar com quem decide’. ‘Quem gostaria?’ ‘Como, gostaria?’ ‘É, o senhor, enquanto cliente, gostaria de falar com quem?’ ‘Enquanto ainda nos entendemos, quero dizer que sou cliente de vocês há décadas, mas já faz bastante tempo que não consigo falar com ninguém. Quem sempre me atende é uma gravação. E se eu fizer o mesmo quando vocês ligarem para mim? Deixaremos as máquinas conversando isoladas em seus solilóquios?’

‘Desculpe, senhor, o senhor quer falar com quem?’ ‘Com quem decide. Com o chefe, o gerente, o supervisor, o capataz’.

O cliente sabe que muitas empresas brasileiras não substituíram o capitão do mato. Substituíram seu instrumento de castigo. Em vez do chicote, o computador ou o telefone, quando não os dois combinados.

‘E quem gostaria de falar com ele, por favor?’ ‘João.’ ‘João de onde?’ ‘De São Paulo’. ‘Um momento, por favor, que eu vou estar encaminhando a sua ligação.’

A mão de obra é um dos grandes problemas nacionais. E nesses tempos em que as empresas transformaram o telefone em ferramenta de trabalho, as deficiências no domínio da língua portuguesa irritam demais os cidadãos.

A culpa é do invento de Graham Bell? Não. O brasileiro e o telefone se entendiam bem, desde que Dom Pedro II experimentou o aparelho apresentado pelo célebre físico e professor de surdos-mudos.

É uma pena que não tenhamos gravado certas conversas. Não a do alto funcionário do Palácio do Planalto com o famoso bicheiro cujo nome o humor de Elio Gaspari transformou no neologismo ‘Charlie Waterfall’ (Carlinhos Cachoeira), mas a prosa amena que poderia levar a certas antologias.

Não seria delicioso ouvir os melhores telefonemas de Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende, por exemplo? A tarefa poderia ter sido atribuída à escritora Edla van Steen, responsável por antológicas coleções de contos, poemas e crônicas.

A utilidade e o prazer da conversa ao telefone viraram um tormento. Por que perder tempo em indagar de onde a pessoa ligou, ainda mais nesses tempos em que a ligação é indexada e o destinatário, ainda antes de atender, sabe, não apenas a localidade, mas também o número do telefone de quem ligou?

Este tipo de sigilo tornou-se impossível. O número é identificado assim que o telefone toca.

Atendentes de diversas empresas e, o que é mais grave, funcionários públicos, amontoam numa única sentença o presente do indicativo, o infinitivo e o gerúndio para formar este inusitado trio elétrico verbal que dá choques incríveis no interlocutor.

A atendente ‘vai estar encaminhando a reclamação’ de João, ‘enquanto cliente’ e ‘a nível de diretoria’. Mas assim que abre a boca, põe o gerúndio em má companhia.

O escritor Eliziário Goulart Rocha foi um dos primeiros a registrar a perplexidade. ‘Num mero pedido de pizza, ouvimos: vamos estar entregando’.

Se a língua portuguesa for eliminatória para candidatos a algum emprego que requer o uso do telefone, haverá menos trabalho para excluir os despreparados.

Se acoplarem indicativo, infinitivo e gerúndio numa frase só, o examinador ‘vai estar mandando os candidatos de volta para a escola’.”

* Publicado no Observatório da Imprensa.

IONESCO E A ARTE MALANDRA DE ENGANAR OS OUTROS

por DEONÍSIO DA SILVA *

Nesses dias estive relendo O RINOCERONTE, do romeno Eugène Ionesco. Era professor de francês (professor doutor) e achava absurdas as frases para se aprender uma nova língua. Abominava também o teatro: “Fingimos todos os dias em todas as situações, para que fingir no palco também?”.

Um dia, em 1949, ele estava com 39 anos, tudo mudou. Tirou frases de seu primeiro livro, “Inglês Sem Dor” (Anglais Sons Peine), mostrando como eram absurdas, ao levá-las para seu primeiro texto de teatro, “A Cantora Careca” (La Cantatrice Chauve, 1950).

O Sr. e a Sra. Smith, principais personagens da peça, conversam assim: “Quantos são os dias da semana? Os dias da semana são sete”. “E como se chamam?” “Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira,
sábado e domingo”. “Que coisa inacreditável!”

Frequentemente, Ionesco ia aos jornais defender sua própria obra, coisa que não fazemos diante dos absurdos da mídia BRASILEIRA, que há mais de vinte anos nos apresenta autores medíocres como se fossem gênios e colunistas que não seriam aceitos por nossos editores de revistas de grêmios literários por não saberem PORTUGUÊS.

Se você escreve, o requisito é dominar a língua, assim como para pintar deve saber manejar pincéis e tintas, e para filmar entender de câmera, enfim as coisas tão óbvias foram esquecidas, chegando ao ponto de nas UNIVERSIDADES um grupo de atores cutucar o fiofó uns dos outros e chamar isso de teatro, arte e outras coisas dignas e elevadas nas quais a Humanidade se esmera há milhares de anos.

Se você, porém, manifesta esta inconformidade básica, passa a ser suspeito para essa “burritzia” encastelada em seus costumeiros tugúrios, que dominam há décadas e ampliaram muito com as redes sociais.

Eles dividiram nosso mundo, repleto de complexas sutilezas, em dois: o deles e os mundos dos outros, para eles todos agrupados num só: são aqueles contra os quais eles se insurgem, sentados, manipulando teclados como se tivessem o poder de antigos feitores e tivessem na mão chicotes e não teclados.

Os caras se orgulham de ter milhares de seguidores. O Brasil inteiro não tem em leitores o número de seguidores de um único “youtuber”. Usar esse critério seria como você escolher mel pela quantidade de abelhas que te deram ferroadas. Mas, como ensina o Talmud, nunca se esqueça de que a abelha tem mel e ferrão. E nós também!

Mas, lembrai-vos, nem sempre foi assim…E provavelmente depois do coronavírus jamais será.

* escritor e professor, autor de “Stefan Zweig deve morrer” e “Avante, soldados: para trás”, entre outros livros.

PADRE ANCHIETA AJUDOU A ENFORCAR UM FRANCÊS?

“Era chegado o momento da execução do último francês. Para a sua desgraça, seu suplício foi aumentado por causa da incompetência do carrasco Joselito, que deu uma laçada muito malfeita. O homem se debatia pendurado pelo pescoço, sem morrer. Para dar breve fim a essa aflição, Padre Anchieta deu uma bronca no carrasco, para que fizesse direito seu trabalho. O laço foi então refeito do modo correto, e o francês finalmente morreu, tendo abreviado os seus tormentos.”

Ver mais em: http://ocatequista.com.br/archives/12684#sthash.APaT1SEL.dpuf

Era 2014. Depois do café, na casa onde moram ele e sua esposa Márcia, na serra, nos arredores de Petrópolis, Leonardo Boff me convidou a deflagrarmos uma campanha para canonizar o profeta Gentileza.

Eu todo animado com a minha santinha, estou escrevendo sobre a catarinense Albertina Berkenbrock, já beatificada e prestes a ser canonizada, e o Boff chamando atenção para outro santo.

“Ele ainda não fez nenhum milagre”, ponderei. “Ah, milagre”, me disse o meu conterrâneo, catarinense de Concórdia, “milagre a gente inventa”.

O padre José de Anchieta, colega de farda do jesuíta Bergoglio, agora Papa Francisco, estava na fila da subida aos altares há vários séculos, mas havia este pormenor.

Não que Anchieta não quisesse ser o que sempre foi, santo, mas é que o complexo e por vezes caviloso processo de canonização é transformado em combate contra as forças patrocinadoras de certos candidatos.

Uma campanha de canonização custa caro! Mas, além dos custos orçamentários, alguma coisa a mais houve intramuros na Santa Sé para a canonização de Anchieta ser prorrogada para o dia seguinte.

Todavia esse Papa é da ponta daquele mastro onde fica a cesta da gávea e onde estava o anônimo marinheiro que descobriu o Brasil! Viram a volta que dei para não dizer um palavrão? Mocinhas cariocas, quando admiradas de alguma coisa ou pessoa, ou apenas irritadas, dizem “caraca!”

Francisco, conquanto argentino, é admirado e corajoso paca! Paca e caraca são eufemismos, modos de designar a mesma coisa.

José de Anchieta foi canonizado por decreto!

Tinha que ser um jesuíta para ter um atrevimento desses e proceder como Getúlio Vargas. Negociava com o Congresso ou baixava um decreto.

Assim foi criada a “Petrobrás”, que parece sigla, mas não é! Resume “petróleo” e de “brasileiro”.

E o profeta Gentileza? José Datrino, este o nome dele, era paulista de Cafelândia, onde nasceu em 1917. Tinha 11 irmãos, a família era pobre e ele ganhava a vida de carroça, vendendo lenha. Sabia como poucos amansar burros e com métodos semelhantes se disse mais tarde “amansador de burros da cidade que não tinham esclarecimento”.

Ele criou o lema “gentileza gera gentileza”, daí seu apelido. Era proprietário de vários caminhões quando um incêndio destruiu um circo em Niterói, em 17 de dezembro de 1961, matando mais de 500 pessoas.

O bandido Dequinha, demitido dias antes, confessou o crime.

Destacaram-se no atendimento às vítimas um jovem médico chamado Ivo Pitanguy e José Datrino que, depois disso, vendeu tudo o que tinha e saiu às ruas pregando gentileza.

Ainda hoje suas frases podem ser lidas em pilastras da Avenida Brasil, no Rio.

Homenageado em canções, o profeta Gentileza foi também personagem da telenovela “Caminho das Índias”, de 2009, representado pelo ator gaúcho Paulo José (Gómez de Sousa).

Estão na fila das canonizações: Gentileza, o padre Teixeira, que é nome de rua em São Carlos, e Albertina Boeing Berkenbrock, adolescente degolada em tentativa de estupro por empregado dos pais dela.(xx). •

  • escritor e professor federal, Doutor em Letras pela USP, da Academia das Ciências de Lisboa.

ALEGRIA E DOR NOS CALENDÁRIOS

Por DEONÍSIO DA SILVA *

Publicado em O Globo, em 21 de janeiro de 2017.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda.

A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis.

Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas.

O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro.

Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc.

Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos.

Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do Latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação.

As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor.

tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar.

O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday.

Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo Latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender.

Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”.

A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos.