BENJAMIN, SOLIDÉU: O NOME CURIOSO QUE CERTAS COISAS TÊM

Há algum tempo venho pesquisando por que razão chamamos benjamim o plugue que nos permite ligar mais do que um aparelho na mesma tomada.

As versões predominantes dizem que o nome é homenagem ao célebre inventor Benjamin Franklin, feita por seu xará, Reuben Berkeley Benjamin, que o teria feito originalmente acoplado ao soquete de uma lâmpada para a empresa Benjamin Electric Company. Ele patenteou o plugue em 1898, em Chicago, nos EUA. E passou a comercializá-lo na empresa que fundou com a esposa.

Curiosidade: na América espanhola, o benjamim e conhecido por ladrón (ladrão), que para nós é palavra que designa, entre outras coisas, uma calha para esvaziar reservatórios d´água.

Andando pelo mundo, pessoas com um saber de coisas práticas, que vai muito além dos dicionários, têm registrado coisas interessantes sobre as palavras. Há muitas coisas ocultas sob elas. Como é chamado o benjamin na linguagem do cotidiano de outros países? No inglês dos EUA, predominante no ambienteinternacional, é “adaptor, plug”, me diz Glauco Ortolano.

Deve estar em alguma comunidade o solidéu que o vento levou da cabeça do papa Francisco em sua lendária viagem ao Rio, quando, tendo recusado o papamóvel, perdeu-se no trânsito carioca num Fiat Ideia. Interessante porque aquele boné cobre justamente a cabeça do papa, onde estavam suas boas ideias para mudar a Igreja. O anel de outro papa, João Paulo II, está no Vidigal. Sua Santidade fez uma doação.

O jornalista Ricardo Boechat me perguntou ao vivo, fora da pauta, como era seu assustador costume, para mim, mas delicioso para os ouvintes, por que solidéu tinha esse nome. A palavra veio da expressão do latim “soli Deo” (somente a Deus) para simbolizar que apenas para Deus o Sumo Pontífice tira o chapéu.

Sic transit gloria mundo (assim passa a glória do mundo).

INFÂNCIA EM SIDERÓPOLIS: história de uma nova e antiga solidão


Toda localidade tem figuras marcantes. Da primeira minha infância, em Siderópolis, nos verdes anos, me lembro da parteira, do guarda-noturno e de um ladrão de galinha.


Este último nos assustou muito. Estávamos brincando na frente da casa, de repente uma senhora gritou “pega o ladrão!” e ele passou em disparada por nós e sumiu na escuridão de uns eucaliptos atrás da vila.

Somente as ruas eram iluminadas. Vestia uma calça cáqui, o ladrão, e estava descalço, de boné, e a camisa era de riscado.


A luz elétrica era fraquinha, todas as lâmpadas eram de 40 watts, que se dizia “velas”, nas casas e na ruas, mas pareciam muito fortes, pois quando faltava luz, o que era raro, e era preciso acender as candeias ou as lamparinas, a gente percebia a diferença.


As lamparinas e suas sombras favoreciam histórias lendárias de almas mortas que apareciam assustando as vivas. O cenário noturno estava sempre armado. E as almas vinham com muita frequência.


Os aparecimentos compõem a cultura brasileira com uma força impressionante. Não é à toa que a padroeira do Brasil é uma Aparecida, Nossa Senhora Aparecida. Imagine se ela, quando apareceu aos pescadores, abrisse bem a boca e gritasse “bah”. Todos sairiam correndo.

Vim de um outro Brasil. Importantes eram os parentes, os vizinhos, a igreja, a escola, a farmácia, o hospital.

E a ponte. As cidades brasileiras, em sua maioria, cresceram à beira de rios. Você atravessava o rio e ia à escola, à igreja, à casa dos amigos. A ponte ligava os dois lados do rio.


Se fosse hoje, o verbo não era ligar, era conectar. A ponte era uma conexão.


Uma enchente que derrubasse a ponte, era uma tragédia. Hoje a tragédia é quando cai o sinal da internet.


Para muitos, até o ano passado, só quando caía a conexão da internet é que eles faziam outras coisas e talvez se lembrassem de ir à rua conversar com os vizinhos, observar os que passavam.

Mas agora, por causa do coronavírus, ninguém passa: algum covidado poderá torná-lo o mais recente convidado da Covid-19. E isso ninguém quer. Para ninguém.

Quanto a mim, nasci trinta anos depois da peste, que na época chamou-se gripe espanhola, e ela, disfarçada, com outro nome, veio me esperar em outra idade.

Por enquanto, nós, os sobreviventes, nos defendemos como no romance que mais leitores me trouxe: “Avante, soldados: para trás “.

Senão, vocês não vão. Vocês vão para a Cochinchina procurar joguinho e rede social, as duas coisas mais buscadas na internet. Cada um sozinho diante da telinha. (xx)

DEONÍSIO (DABOIT) DA SILVA: HISTÓRIA DE CADA UM

Imigração e migração: nossos ancestrais vieram de longe antes de chegar ao Brasil, onde se espalharam por muitos outros lugares.

Como as palavras, cada um de nós tem sua história. Pergunto a cada leitor: qual é a sua?

Quanto a mim, tudo começou em Siderópolis (SC), que mudou de nome. Chamou-se originalmente Nova Belluno. Os imigrantes italianos, saudosos da terra natal, davam o nome da localidade de onde tinham vindo, acrescentando o adjetivo “nova” na frente do nome. E assim sugiram Nova Trento, Nova Veneza etc. E Nova Belluno.

Belluno é uma palavra de origem etrusca. Virou “Béllum” (guerra), em latim, depois “bellúm” no latim vulgar, e “Bellún” no dialeto vêneto. Província e cidade têm o mesmo nome. A cidade fica a 100 km de Veneza e tem hoje 36 mil habitantes.

Quando o governo Getúlio Vargas instalou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Nova Belluno, os engenheiros mudaram o nome do então distrito de Urussanga para Siderópolis, do mesmo étimo de siderurgia, o grego “síderos”, ferro, que está entretanto também no étimo de sideral, por onde viajam planetas, foi grego “planetes”, viajante e também vagabundo, no sentido de vagamundo. “Um vagabundo como eu/ também merece ser feliz”, cantava em italiano o Giani Morandi na minha juventude.

Urussanga veio do tupi-guarani, uma junção de muitas línguas indígenas, e quer dizer Riacho dos Pássaros.

Acontece que ao passar para o latim, “sideris”, declinação de “sidus”, ferro, ensejou novo significado, como é fácil comprovar na expressão “espaço sideral”.

Quando os meteoritos conseguem chegar à Terra e são encontrados – podemos ver isso em museus -, comprovamos que eles são feitos de ferro.

Meu pai, um Correia da Silva, cujos ancestrais eram de Canela (RS), casou-se com uma Daboit, de família italiana que viera do Vêneto, e ambos, já com duas filhas, chegaram a Siderópolis, ex-Nova Belluno, atraídos pelas novas oportunidades de trabalho da CSN.

Eu fui o primeiro de seus filhos a nascer ali. Fui batizado pelo padre Agenor Neves Marques (que morreu em 2006), autor do livro “Catequista Ideal”.

Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 24 de agosto de 1954, nós já morávamos em Jacinto Machado, o novo nome que Volta Grande recebera para homenagear o brigadeiro Jacinto Machado Bittencourt, comandante militar que lutara na Guerra do Paraguai.

Lá ficamos sabendo que padre Agenor tinha sido denunciado ao arcebispo de Florianópolis, Dom Joaquim Domingues de Oliveira (morreu em 1967), como incitador das greves e revoltas dos mineiros na terna luta capital x trabalho.

A denúncia: “é elemento perigosíssimo à ordem pública, com palavra fácil e fluente, tem grandes recursos oratórios, é arrojado e de fértil fantasia”.

Dom Joaquim pediu explicações a padre Agenor, que assim respondeu: “Serei sempre revolucionário do bem, enquanto não vir o respeito dos fortes para com os fracos, a condescendência dos poderosos para com os humildes, a complacência dos ricos para com os pobres, a paz dos perseguidos contra a fúria dos perseguidores. Serei sempre revolucionário, enquanto houver na minha paróquia o ódio e a vingança, a perseguição e a calúnia, o orgulho e a prepotência!”.

Foram sermões desse padre que o menino Deonísio (Daboit) da Silva ouviu muitas vezes no colo de seus pais. E certamente o padre e todo o contexto lhe influenciaram o destino! (fim)

& este texto integra livro inédito para celebrar 30 anos do romance ‘Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os 10 de “Stefan Zweig deve morrer” ” (PrêmioNacional de romance de autor catarinense em 2012).

SABOR DE MORANGO

por Deonísio da Silva

A igreja de minha adolescência profunda era a sede ou matriz da Paróquia Santa Teresinha, em Jacinto Machado (SC). Ali fui coroinha. A foto é de meu amigo de infância, o querido Enio Frassetto.

Em certo domingo, depois da missa, um ciclista foi atropelado por um caminhão. Foi um auê danado.

Ainda paramentados, o padre e os coroinhas, Elói Semprebom e eu, os três também fomos ver o que tinha acontecido, pois era grande a perturbação no primeiro acidente de trânsito com vítimas humanas na localidade.

Cachorros e galinhas já tinham morrido ou sido machucados, mas, gente, não, nunca até então.

Estendido na rua de cascalho, em meio ao sangue e à dor, “gemente et flente”, como em famosa oração litúrgica que rezávamos em latim, o rapaz atropelado pensou que sua hora tinha chegado e aquela fosse a extrema-unção.

Sobreviveu manco e torto, o doutor Carlos Saboia fez as devidas cirurgias. Feliz da vida, apesar do susto e do trauma, ele casou-se com u’a moça tão linda como Nossa Senhora das Dores, “clemens, pia, santissima”, como na mesma prece, que passou a amar e cuidar do rapaz. Ele nunca mais andou de bicicleta.

Mas ela, sim, com uma Monark, sem varão, especial para mulheres, freiras e padres, com saia vermelha apertada, um batom lindo e unhas pintadas da mesma fascinante cor, ia confessar-se fora do horário com um padre que substituiu o pároco por algumas semanas. Ela ia todo dia nesse interstício, deveria ter muitos pecados a contar ou gostava de repeti-los.

Eu era menino estudioso, sempre, e obediente, quase sempre, e morava na Casa Paroquial para ser preparado para o pré-seminário, no Educandário São Joaquim, em São Ludgero, onde seria preparado para o Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, cujos padres me preparariam para cursar Filosofia e Teologia, em Vimão (RS). Se tudo desse certo, depois de 18 anos de estudo, por volta de 26 de idade, eu seria considerado apto para o sacerdócio e, fazendo os votos de castidade e de obediência, seria ordenado “sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec” (sacerdote, para sempre, segundo a ordem de Melquisedec) , pois é um rito radicado no Antigo Testamento que o cristianismo, dileto filho do judaísmo, aproveitou.

Nessas ocasiões, o padre interrompia meus estudos na mesa em frente à dele e me mandava colher moranguinhos no pomar atrás da igreja. E eu não gostava dessas interrupções.

Um dia voltei muito depressa, a mulher ainda estava no escritório do padre, que me mandou colher mais.

Fui de novo. Ao voltar com uma pequena bacia cheia de moranguinhos, ela tinha ido embora, e o padre disse que eu tinha colhido demais, tinha acabado com os moranguinhos.

Nunca soube a quantidade de moranguinhos a colher, mas uma coisa aprendi com Teresinha Vecchi, irmã do padre Carlos Vecchi, ambos de Laguna, ela era xará da padroeira, empregada doméstica de todo serviço e espécie de mordoma, e trabalhou a vida inteira com o padre Herval Fontanella, eterno vigário ou pároco de Jacinto Machado: “esse padre coadjutor vai ficar poucos dias, só até o padre Herval voltar, ele é diferente, quando ele atende no escritório, a gente não pode entrar lá, nem que seja para pegar alguma coisa que esqueceu”.

Esqueci muito e talvez tenha omitido ou acrescentado algo a essas lembranças. Os moranguinhos tinham diversos sabores: se mais para o vermelho, como os batons, se mais para o verde, como eu ficara quando assustado pelos tapas na cara recebidos por Artur, sobrinho do padre Herval, que ficara uns dias com o tio e esquecera de apagar as velas da igreja em certa noite, podendo ter causado um incêndio que destruiria a igreja inteira, como já tinha ocorrido com o seminário que estavam reconstruindo em São Ludgero, mas que podia ter sido incendiado de propósito por um político que brigara com o bispo, Dom Anselmo Pietrula.

Outros incêndios tomaram conta do menino, em grandes ou pequenas labaredas, às vezes ocultos em brasas como nesta outra idade, quando brotam tantas lembranças, e eu cumpro o destino que me coube, segundo o vaticínio do monsenhor Bernardo Peters ao me entregar os documentos do que estudei, alguns anos depois de desligado: “Gloria in excelsis Deo, tu non eris sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec, sed bonus puer”.(Glória a Deus, tu não serás nunca sacerdote, mas um eterno bom guri).

Talvez os honrados sacerdotes preceptores tenham insistido pouco, piedosamente ou não, para que o menino fosse o que lhe estava destinado, mas de algum modo ele tomou caminhos de domínio conexo ao tornar-se escritor e professor. As tentações sempre foram muitas, para os discípulos e para os mestres.

Àquele antigo menino coube viver para escrever estas lembranças e ensinar a outros o gosto de ler boas prosas que muito admiro e degusto, diante das quais considera a apenas um pequeno pedaço de sombra do que elas têm sido para ele.

Esse menino em mim jamais morrerá, nem mesmo depois de morrer, pois descerá como barro velho e subirá como barro novo, como ouvi outro dia em vernáculo numa igreja, nesses tempos em que os antigos ritos e o latim foram abolidos para que, soberano, mas sem que ainda se tenha educado o soberano, triunfasse outra vez, como sempre, o povo, que, por sua vez, evita e dificulta o caminho novo dos meninos, sejam eles filhos, netos, alunos ou discípulos.

É grande a diferença entre alunos e discípulos. Dos primeiros, o nome deles é legião ou povo, eles estudam e leem por necessidade. Dos outros, o nome deles é outro, existem em pequeno número, cada vez menor, e aprenderam a degustar as complexas sutilezas do tempo que lhes foi dado viver.

E, por isso, são para os outros motivo de preocupação ou desprezo. Podem até saborear moranguinhos, mas se repolho, alface ou capim, daria no mesmo. Certos gostos, sabores e saberes lhes são estranhos.

Quanto àquele menino, ele um dia aprendeu com o preceptor que lhe apresentou Terêncio, o Africano, que “homo sum, humani nihil a me alienum puto” (sou homem, nada do que é humano me é estranho).

Então, sua vida mudou para sempre, e tudo lhe desperta o gosto de invocar o memorial da vida, uma tarefa iniciada quando os gregos, tendo aprendido o alfabeto com os fenícios, começaram a registrar as histórias ouvidas para que fossem lidas por outros, sem os tomentos da pressa e do tempo.

Pois “ars longa, vita brevis” (a arte é longa, a vida é breve). Nossa vida é curta quando comparada à vida breve das borboletas, e longa quando comprada à das tartarugas, que vieram dos infernos, e à dos autores, anjos caídos que pretendem voltar.

  • Escritor e professor. Esta narrativa integra livro inédito que celebra os trinta anos do romance “Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os dez de “Stefan Zweig deve morrer”, já publicados também em outros países.

TODOS TÊM SOBRENOMES. MAS POR QUE ESSES?


Os antigos romanos originalmente deram nomes apenas até o quarto filho.
Para os seguintes davam números. Por isso houve tantos homens chamados por números, como foi o caso de Otávio, seu primeiro imperador.


Fizeram assim também com os meses do ano: março, abril, maio, junho. Dali por diante eram designados por números, como indica o étimo de Setembro, outubro, novembro e dezembro, designados7 antes do acréscimo de janeiro e fevereiro.


Na tradição luso-brasileira, são usuais dois sobrenomes: o da mãe e o do pai. Os espanhóis driblaram o limite de dois sobrenomes juntando dois maternos e dois paternos, cada par com um hífen. Predominam seis motivos nos sobrenomes:


1) o lugar onde viviam nossos ancestrais: quem morava em cidades perto de matas era Silva; e eram Campos, se ali viviam; no litoral, eram Costa;


2) honras recebidas: Valente, Nobre e Bandeira remetem a comportamentos, principalmente em batalhas;


3) aparência ou ligação com bichos: Barata, Cão, Coelho, Peixoto (peixinho), Lobato (lobinho);


4) religião: o santo do dia é seu nome;

5) profissão: os Penteado usavam ou fabricavam perucas, costume copiado de franceses e ingleses;


6) repetição de nomes de familiares: Neto, Filho ou Júnior, Sobrinho, Genro.


Em outras línguas há exemplos semelhantes: o inglês Wood, bosque, e o alemão Berg, montanha, estão presentes em muitos sobrenomes. Às vezes foram as profissões, como Schumacher e Schneider, sapateiro e alfaiate, em alemão, respectivamente.


É um bom tema a onomástica. Esta foi apenas uma breve nota sobre alguns aspectos de nomes e sobrenomes.

NO SILÊNCIO DESTE DIA…QUE SILÊNCIO?

Por Deonísio da Silva

Publicado originalmente na revista VEJA, 9 mar 18

Duas orações famosas e muito bonitas, pregando a paz e supondo o silêncio, foram atribuídas a São Francisco de Assis, este improvável padroeiro de políticos que sempre defenderam o dito “é dando que se recebe”. Isto é, dando o que é dos outros, recebendo o que é não é deles.

Provavelmente estas orações sejam de autoria anônima. Da Oração do Amanhecer pouco se sabe. Da Oração de São Francisco sabe-se que seu autor é um católico anônimo, que a deu de graça ao padre da paróquia que frequentava.

Foi publicada pela primeira vez em 1912. Os jornais que mais a divulgaram originalmente foram o La Croix (francês) e o L´osservatorio romano (do Vaticano).

Nos anos 20, um folheto com a imagem de São Francisco de Assis trazia no verso a oração, então já famosa, e a autoria foi atribuída ao santo.

O silêncio está em falta no mundo inteiro. O dedo indicador sobre os lábios desapareceu ou tornou-se um sinal inútil. No máximo, por enquanto ainda podemos substituir os ruídos por música.

É frequente que a nosso lado estejam pessoas que não prestam mais atenção a ninguém, somente a elas mesmas, refugiadas em seus fones de ouvido.

Assim, não é de todo espantoso que já ocorra o que Umberto Eco imaginou numa de suas crônicas publicadas ainda no ano 2.000 e intitulada “Compreremo pacchetti di silenzio?” (Compraremos pacotes de silêncio?).

O grande professor e escritor italiano dizia que a profecia de Giovanni Papini tornara-se realidade e que, sendo impossível cancelar os ruídos desagradáveis, era necessário providenciar contrarrumores agradáveis. Dava como exemplo desta iniciativa as músicas de aeroporto, que têm como objetivo amenizar o barulho dos aviões.

Tal como na Itália, no Brasil, já de si tão expansivo em todos os sentidos, o silêncio tornou-se uma utopia. Os ruídos são invasivos, insuportáveis e, pior de tudo, ubíquos.

Não há mais refúgio. Não se encontra silêncio em lugar nenhum. Nem nos templos e nas igrejas, onde muitos sacerdotes e pastores deram em abolir o recolhimento e a transcendência inerentes a esses locais e de uns tempos para cá providenciaram diversos barulhos para animar suas missas e cultos.

Depois de um dia de trabalho, quando você pensa que se livrou do barulho e entra no elevador, vem a “música de elevador”, que às vezes é mais irritante ainda.

Você desce do elevador e eis a rua, sempre ruidosa, mesmo tarde da noite. Não há mais horas mortas. Agora somente há horas vivas, buliçosas, estrondosas..

Seja qual for o transporte que você utiliza para chegar em casa e usufruir um pacote de silêncio -, o carro, o ônibus ou o metrô, todos invadem seus ouvidos. Os olhos você fecha, o nariz você tapa, o tato você protege, mas os ouvidos não têm proteção. O máximo que você pode fazer é amenizar os barulhos ou substituí-los por outros.

Por fim, depois de um dia inteiro de trabalho, seja qual for a medida do seu dia – garçons, cozinheiros, médicos, enfermeiros e outros profissionais dos ciclos noturnos, como os professores e os jornalistas, trocam boa parte do dia por boa parte da noite – você adentrou ao sagrado recesso do lar e acha que, agora, sim, você terá direito à quota de silêncio que lhe cabe, mas eis que seu vizinho pode ser um bárbaro ainda inalcançado pelos deveres mínimos da civilização, que o obrigariam a respeitar o espaço do semelhante, coisa que ele desconhece ou finge ignorar.

E, dentro de casa, a televisão rosna. Você não a ligou? Que importância tem isso? Outros, sob o mesmo teto ou sob o teto vizinho, a ligaram. E você acompanha telejornais, filmes, seriados e telenovelas à distância ou face a face.

Em resumo, você quer ler ou ouvir música, ou as duas coisas juntas? Será que você conseguiu ler este texto em silêncio ou pelo menos escolheu de trilha sonora o barulho que você queria?

Há alguns séculos, talvez agora sejam mais bem entendidos, homens e mulheres se refugiaram em conventos, em ermidas, em grutas, longe de tudo e de todos, mas, principalmente, longe do já insuportável barulho dos começos da Idade Média para se proteger das sucessivas hordas de bárbaros que invadiram o império. Mal ou bem, o império romano e a igreja católica, sua potente aliada a partir do século IV, puseram ordem nos barulhos do mundo. Em muitos deles, ao menos.

Pois saibamos que hoje os bárbaros voltaram munidos de outras armas e querem nos destruir pelos ouvidos. Não estão mais ante portas.

Os bárbaros estão no meio de nós. Suas armas são poderosíssimas e nos alcançam onde quer que estejamos, aonde quer que vamos.

O silêncio tornou-se impossível. É um bem inacessível. Ou, pelo menos, o mais raro dos bens. (xx)

DE ONDE VEM TCHAU?

Tchau veio de uma frase que dizia: “sou seu escravo”.

Do italiano “ciao”, pronunciado “sciao” no dialeto de Veneza, reduzindo a palavra “schiavo”, escravo, na saudação feita ao encontrar-se ou despedir-se de alguém: “Sono vostro schiavo” (sou seu escravo). Sobre esse dialeto do Vêneto, ver também a variante “la tchiesa”, em vez de “la quiesa”, para “igreja”.

No Brasil, diz-se tchau apenas na despedida.

Em Gênova, virou ciau, que passou ao espanhol como chau e ao português como tchau.

Parecem estranhas essas referências à escravidão, mas há outros exemplos em antigas regras de cortesia nas quais aparecem expressões de servidão: “a seu serviço” e “fico à sua disposição”, “Sou Fulano de tal, seu criado”etc.

COVIDAR: NASCE UMA PALAVRA

Adentrou ao português do Brasil o verbo covidar. Seu étimo é “covid”, da sigla Covid-19.

Conjuga-se como cantar. Por enquanto, o modo mais frequente tem sido o pretérito-perfeito: eu covidei, ele/ela covidou, eles/elas covidaram.

Já se usa muito também o particípio “covidado”. “Ele está covidado desde a semana passada, você não soube?”. E o recinto destinado exclusivamente ao tratamento de covidados é o covidário.

A formação de palavras como estas não é planejada. Semelham rios que vão fazendo o próprio caminho. Essas palavras parodiam os versos de Antonio Machado: “falante, não há palavras, as palavras se fazem ao falar”.

O italiano designou “influenza” uma doença que ganharia o mundo pelo francês “grippe”, que nos deu o substantivo gripe e o verbo gripar, com um particípio muito frequente: gripado.

A SARS não nos deu novas palavras, mas a Covid-19 deu.

O MANUSCRITO DE MONTECÚCCOLO

Conto inédito, especial para o Correio do Povo ( 05/03/2016)


http://correiodopovo.digitalpages.com.br/#/edition/53242?page=4&section=2


Deonísio da Silva *


Parte I
Devemos ao italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, frade missionário capuchinho, a descrição de infanticídios que assombraram primeiramente os portugueses, depois o resto do mundo civilizado, e que serviram de motivo adicional para justificar a presença europeia naquelas terras, iniciada com a conquista portuguesa do litoral centro-africano, ocorrida entre os séculos XVI e XVII.

Tendo vivido treze anos na África, ele cumpriu todos os ofícios que lhe atribuíram a Cúria Romana e a Ordem de São Francisco, às quais servia, dedicando-se também, como era comum entre padres e outros letrados, a registrar tudo o que via, sentia e ouvia.

Ele fala com esmero das atrocidades e dos rituais violentos, que incluíam o genocídio de tribos rivais inteiras e o sacrifício de crianças que tinham a cabeça esmagada para que seus miolos fossem servidos em cerimônias religiosas, sob a alegação de que dariam mais força aos guerreiros. As mulheres, mães ou não, eram dispensadas destas refeições.

Tais atos eram perpetrados por uma etnia em especial, a dos jagas, guerreiros nômades que atacaram tribos rivais nas regiões conhecidas depois pelos nomes de Angola, Matamba e Congo, esta última transformada em país pelo rei belga Leopoldo II.

Sim, este monarca comprou um país só para ele, acumulando fortunas para si e para seus apaniguados, comercializando diamante, ouro, prata, marfim e borracha, extraídos com mão de obra grátis, explorada sob condições das mais degradantes, que, quando reveladas, deixaram o mundo enojado de tanta ambição e crueldade. Todavia, todas estas violações tiveram muito menos destaque do que o infanticídio descrito pelo religioso.

O piedoso homem de Deus livra a cara de muitas etnias e culturas primitivas da África, como os bacongos e os mbundos, mas talvez exacerbe o que presenciou ou lhe contaram sobre os jagas, registrando pormenores assustadores na sua Descrição Histórica de três reinos: Congo, Matamba e Angola, situados na Etiópia inferior ocidental e das missões apostólicas feitas por religiosos capuchinhos.

A conquista religiosa, é claro, diferiu muito das outras conquistas que compuseram a tríade sobre a qual outros governantes passaram a mandar. As outras duas eram a militar e a política, mas as três davam-se em consonância, pois padres, militares e diplomatas viajavam às vezes nos mesmos navios que ali aportavam. Contudo a conquista religiosa, se não foi cruel por meios reais, foi cruel por meios simbólicos, impondo virtudes de outro mundo, de valores e negativas a quem os desconhecia, e erradicando os vícios dos evangelizados, que, entretanto, resistiram, obrigando os europeus a algumas fusões, misturando procedimentos religiosos cristãos a superstições, e santos a entidades míticas dos cultos praticados por aqueles povos.

O frade era mais um eurocêntrico, naturalmente. Já chegou à África muito desconfiado, pois antes dele outros colegas de hábito, de outras ordens religiosas, sobretudo, haviam descrito e narrado muitas estranhezas.

Mas, além do infanticídio, o que mais reprovavam quase todos os autores destes registros? A poligamia, o concubinato e o sexo livre, praticado séculos antes de ser apresentado como bandeira juvenil no Festival de Woodstock, realizado em 1969 nos Estados Unidos, com a diferença de que neste último evento estiveram presentes 400.000 pessoas. Os donos do poder voltavam a assustar-se, vendo no fenômeno uma demonstração inequívoca de que o comunismo internacional dava sua arrancada para a vitória final sobre o capitalismo, que séculos antes vitimara a África, levando tantos negros para mão de obra escrava nas Américas, e realizaria a tarefa mediante a contracultura, vírus que então se instalara no coração dos EUA. Se uma das principais manifestações da repressão política era a sexual, os jovens teriam pensado que poderiam começar pelo sexo livre, reprovado por todos os poderes, mas especialmente pelo religioso.

Afinal, todo o clero sempre apreciou muito o assunto “vida sexual dos outros”, não apenas pelo que deveriam extrair das confissões epocais feitas pelo relato de pecadores e sobretudo de pecadoras, que deveria ser minucioso, como ordenavam os manuais dos confessores.

Parte II

Aline me ligou bem cedo. Ela sabe que eu madrugo. Ela não acha graça alguma na aurora, e prefere outras formas de luz. Tinha acabado de voltar do motel, para onde fora com o marido de sua amiga Alessandra, depois que ela deixou a sós o próprio marido, Sérgio, com a amiga, alegando estar muito cansada e precisando dormir. Mui amiga da outra, esta Aline.

Bem, a outra não foi dormir coisa nenhuma. Da despedida rumou para uma esticadinha na praia, onde Iemanjá era homenageada com flores muito bonitas. Na noite escura, Iemanjá recebia a todas, vestidas de branco, parecendo puras e belas. No dia seguinte, podia-se desconfiar de tanta pureza e beleza, pois Iemanjá devolvia, não apenas, muitas flores, como também algumas feiosas que tinha resolvido permanecer um pouco mais nas praias.

Alessandra, amiga de Aline, estava tranquila: deixara o marido e a amiga na Barra da Tijuca, e agora estava na zona sul, pois, como se sabe, o Rio não tem zona leste: nenhum território é conhecido por esta denominação, de resto frequente em todas as outras cidades brasileiras banhadas pelo Oceano Atlântico, cujas águas, como se sabe, vacilam entre ficar na costa africana e vir para cá, estando em constante vai e vem.

Aline amava um abastado chefe de bandidos, Elevador. Ele vivia no luxo e na riqueza. E Aline, filha de um banqueiro, ao comparar a vida do amante com a vida do pai, do sogro, do marido e do ficante habitual, constatava que, de todos eles, igualmente ricos, o mais livre era justamente Elevador.

Fascinado pela amante, Elevador a recebia como a uma princesa no morro. Por fora a construção não era muito diferente dos barracos que a rodeavam, a não ser pelo tamanho, pois era imensa. Lá dentro, ela encontrava todo o conforto que a casa do pai e do marido lhe proporcionavam, acrescido de uma coisa que nenhum deles tinha: a privilegiada vista da cidade do Rio de Janeiro, posta aos pés de quem mandava nela, isto é, os bandidos, que ali viviam em casas sem grades, sem portões e até sem fecho nas portas. Ali, sim, a autoridade imperava. Havia quem mandava e havia quem obedecia, tudo na mais perfeita hierarquia. E sem as delongas judiciárias que tanto prorrogam e às vezes impedem a justiça.

A pena de morte não era rara. Na primeira visita à casa de Elevador, antes de entrarem, ela viu que um capataz do amante conduzia três jovens amarrados ao pescoço por uma corda e com as mãos atadas em cipós. Há regiões do Rio em que o século XVI ficava bem pertinho…E era um pulinho da cidade até ali!

Ela olhou espantada para o amante e este lhe disse com certa displicência: “Infelizmente ainda temos que dar este tipo de lição, que vai ficando rara”, acrescentando: “ao roubar, eles acabaram matando umas criancinhas, e isto é crime que não se pode perdoar”.

Como ela fizesse uma segunda pergunta, ele disse: “Mas logo ninguém mais teria segurança e eles poderiam matar a nós também. Segurança! Já ouviu falar nisso?”. E deu-lhe um beijo de boas-vindas, dizendo, por fim: “Esquece! Eu cuido de tudo aqui. Nada de ruim pode acontecer a ninguém, muito menos a você. E aqueles três cometeram as barbaridades em outra comunidade, mas, se eu não punir, o povo de lá vem pra cá e pune a todos nós, culpados ou não”.

Era verdade. Minutos depois, sem abrir a porta, alguém perguntou lá de fora: “Chefe, quem vai levar os recado dos “morto” ?”.

Elevador largou os lábios de Aline, interrompendo o beijo comprido de línguas entrelaçadas para dar a ordem simples: “Ninguém! Só avisa o da TV”.

E, antes de voltar ao que fazia antes com a moça, disse: “Podia avisar pelo jornal, mas ninguém lê. Aviso pela TV, assim todo mundo vê. E o rádio dá também, porque quase sempre TV e rádio vêm junto”. “No jornal vai sair também”, disse Aline. “Vai, sim, meu amor, mas para gente como vocês. Para gente como nós, é a TV e o rádio”. Aline insistiu: “E a internet? Não sai na internet?”. Elevador sorriu: “Sim, sim, sim. Mas na internet sai tudo junto e misturado, é mais difícil do nosso povo entender”.

Ele tinha um reino, incluindo local, povo e uma língua, que só os iniciados a entendiam por inteiro. E voltaram ao amor, deixando a guerra para os comandados do rei Elevador.

Parte III

Os franciscanos pertencem a uma ordem religiosa fundada em 1221 por São Francisco de Assis. Provavelmente teria vida efêmera, não fosse o apoio da rainha Isabel, da Hungria, e de Luís IX, da França, ambos santos também. Isabel nasceu no Castelo de Bratislava e seu ancestral sangue nobre (era azul, mas não por cianose) já regara outras das mais poderosas casas reais europeias.

Isabel era sobrinha de Santa Edwiges, tia de Santa Cunegundes e de Santa Margarida e tia-avó de Santa Isabel, rainha de Portugal, casada com Dom Dinis I, rei, lavrador e poeta, fundador da primeira universidade portuguesa, em Lisboa, depois transferida para Coimbra.

Rezam os registros feitos por padres, fidalgos e outros cortesãos que o nascimento da padroeira da Ordem de São Francisco foi anunciado por Klingsohr da Transilvânia, um trovador medieval, com estas palavras: “Vejo uma estrela que se levanta da Hungria e brilhará no mundo inteiro”.

Isabel, como Francisco, gostava muito de pobres, de animais, de pássaros e da Mãe Natureza, enfim. O famoso Milagre das Rosas é atribuído às duas Isabel: à da Hungria e à de Portugal.

A primeira Isabel tornou-se viúva, seu marido morreu na primeira Cruzada. Expulsa do reino porque lhe usurparam o trono, recusou também casar-se de novo, como queria seu tio Otto, poderoso bispo de Bamberg, preferindo confiar a educação dos três filhos a parentes ao entrar para a Ordem Terceira de São Francisco.

Dela disse Bento XVI, antecessor do atual papa Francisco: “Ela vivia com os pobres e obtinha o sustento com o trabalho de suas próprias mãos”.

Pel’ amor de Deus, como os nobres tinham medo de trabalhar! Para isso, eles contavam com escravos ou servos, que tudo faziam para eles, às vezes explicitamente – como os serviçais da roça, da pecuária ou da casa, estes últimos até lavavam as partes de patrões e patroas quando não havia sido inventado ainda o papel higiênico – outros indiretamente, como os militares, que garantiam aquelas conquistas, feitas entretanto sob o domínio da lei, mas se sabendo de antemão que à falta do medo e do respeito às novas normas, viria a força armada.

Todavia ao tempo de Bento XVI, Igreja e Estado já não andavam lá muito unidos. Pensando bem, alguns atos daquele papa deram muito o que falar, como o que a Cúria Romana, de que era chefe máximo, inventou em 20 de novembro de 2007.

Foi assim. A Cidade do Vaticano fez emissão extraordinária de selo comemorativo da vida de Isabel com 300.000 séries completas e 10 selos por folha, vendidos a 65 centavos de euro cada um, arrecadando uma fortuna. E há quem diga que santidade é coisa de carola! Sem negar todos os outros benefícios humanitários, é também um grande negócio, pois sem dinheiro pouco se faz neste mundo e é por isso que Elevador faz o que faz no morro, vendendo um pó branco de muita pureza, pelo qual muitos ricos da orla do Rio são fascinados, devidos a seus poderes de arrebatamento semelhantes a êxtases de santidade.

Além dos temas aqui aludidos, na homilia daquela semana, numa igreja da Barra da Tijuca, outro franciscano, chamado Clóvis, citando São João, lembrou aos fiéis que tudo é da terra, não sai da terra e volta para a terra. Mas falava do céu.
Nos dias seguintes, na universidade que Aline frequentava, foram travadas acaloradas discussões sobre a cara de governantes de todas as alas e matizes, insensíveis ao surto de zika, à microcefalia, à violência urbana, às mortes no trânsito, aos assassinatos e a outras mortes encomendadas, incluindo o aborto naturalmente, do qual não encontramos nenhum registro nos documentos do frade capuchinho italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo.
Está presente nos tempos atuais, como se sabe, o fio vermelho de sangue que percorreu todo o conto que o Espírito soprou, que, como se sabe, não apenas sopra onde quer, mas sopra também como quer e nem sempre de forma que podemos compreender, pois seus sinais, ai, meu Deus, às vezes são quase ilegíveis. Ontem foi Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, mas hoje foi Deonísio da Silva. (xx)
º Deonísio da Silva é escritor e professor federal aposentado. Tem 35 livros publicados.