BOCETA NÃO ERA PALAVRÃO

Originalmente, boceta ou buceta designou caixinha feita de uma madeira chamada buxo, do grego “búxys”, pelo latim “buxus”.

Veja o mito da Boceta de Pandora, recipiente onde estavam guardados todos os males do mundo.

As mulheres gregas e romanas da Antiguidade usavam esse tipo de caixa para guardar suas joias e outras preciosidades.

No século XVIII, a vulva já era comparada a boceta, mas com este significado, a palavra só caiu na boca do povo (epa!) três séculos depois.

No Século XIX, com o antigo significado, aparece no romance “Helena “, de Machado de Assis, de sua fase romântica. Nada do segundo significado ainda.

Os homens também carregavam consigo uma pequena boceta com rapé. Era chique cheirar a boceta e espirrar.

Boceta em casa e no bolso, escarradeiras nas residências abastadas, nenhum cinzeiro, que só chegará mais tarde, quando bocetas e escarradeiras tinham ido embora. E agora o cinzeiro também está dando adeus e já sumiu de muitos lugares.

A história das palavras revela muito dos usos e costumes.

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Leia:
“…— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa
bocetinha de joalheiro.” (Helena, de Machado de Assis, capítulo XI).

ESTAR NA PINDAÍBA

De onde veio a expressão? Com a haste da pindaíba, a planta que dá também a fruta de mesmo nome, se faz vara de pescar.

Inclusive a pequena árvore frutífera (acho que é um arbusto) tem seu nome vindo do tupi “pindá”, anzol, e “yba”, vara.


Segundo o professor emérito da USP, Francisco da Silveira Bueno, que foi um dos maiores etimólogos do Brasil, a expressão estar na pindaíba vem da situação de miséria em que ficava o índio que não conseguia apanhar peixe, pois a pesca era um dos principais meios de sustento de muitas tribos.

Sua agricultura era incipiente. Viviam de caça e pesca. Sentir-se na pindaíba é estar reduzido àquele índio, com caniço e anzol, e sem pescar nada, também no sentido metafórico.

O verbete PINDAÍBA estará no meu livro “De onde vêm as palavras”, 18a edição, http://www.almedina.com.br e http://www.almedina.net

CARNAVAL: O PRIMEIRO AUTORIZADO

Foi o papa Paulo II quem, no Século XV, redimiu o Carnaval para a Igreja e assim espalhou os festejos por todo o mundo cristão.

Sucedendo ao tio, Pio II, em descarado nepotismo, assumiu o trono de São Pedro, mas não sua homossexualidade, que continuou a exercer nos bastidores e concordou entretanto em levar adiante dois projetos que não cumpriu: combater os turcos e convocar um concílio.

Em vez disso, liberou o Carnaval, palavra que tinha ido do latim “carrus navalis” e agora voltava do italiano “carnevale” disfarçada de penitência na expressão “carne, vale “, adeus, carne, pois a comilança, a luxúria e outros prazeres seriam temporariamente suspensod ao “introitus”, entrada, da “quaresima”, na pronúncia vulgar do clássico “quadragesimam diem” , quadragésimo dia, antes da Páscoa, que resultaria em entrudo e quaresma no português.

Sobrinho de outro pontífice, tornara-se cardeal aos 22 anos. Nascido em Veneza, então matriz do carnaval italiano, usava tantas joias e enfeites de metal que num inverno muito frio morreu de pneumonia.

Seus costumes peculiares, a vivência veneziana e também sua juventude por certo influenciaram sua decisão. (…)

No primeiro Carnaval autorizado pelo papa, proliferaram as alegorias, as comparações, as corridas de corcundas e de anões, os atos de jogar farinha e ovos uns nos outros etc., que perduraram por séculos!

A sátira também teve seu lugar. Rainhas, princesas e outras autoridades eram representadas por célebres beldades, como as prostitutas mais conhecidas e devidamente disfarçadas no meio de mulheres virtuosas, sem excluir os bobos da corte, também misturados a outros bobos, tratados como reis nos desfiles.

Até clérigos se misturavam à multidão vestindo suas roupas litúrgicas de trás pra frente, debochando dos superiores, carregando missais virados, desde que com o rosto devidamente disfarçado por trás de máscaras, pois nos dias seguintes rezariam missas, atenderiam confissões, enfim voltariam a ministrar os sacramentos.

O recurso das máscaras permitiu, como já acontecia em Veneza, que os nobres matassem a vontade de se divertir e se misturassem ao povo. Afinal, uma das coisas que o povo sempre fez melhor do que aqueles que o dominaram foi divertir-se.

Paulo II foi sucedido por Sisto IV, que contratou Michelângelo e fez a Capela Sistina. Foram dois estilos de governar que podemos avaliar pelos respectivos resultados.

QUARESMA E MARACUJÁ: POR QUE VINCULADOS?

O jornalista Ricardo Boechat e eu criamos o programa semanal de rádio “Sem Papas na Língua” em 2011. Desde então vai ao ar cinco vezes por semana na rede Bandnews FM.

Dia 18/2/2021, dei a
origem da expressão “arcar com as consequências” e das palavras “quaresma” (não são 40 dias, como indica o étimo, é número simbólico) e da bonita vinculação da flor branca e roxa do “maracujá”, comida na cuia, em tupi, pela formação mara (alimento) + cuya (recipiente) com os sofrimentos da Paixão, incluindo a semelhança das anteras com os espinhos da coroa imposta a Jesus por deboche adicional daqueles que O crucificaram.

Maracujá é fruto, mas não é fruta. Fruta é o fruto comestível. Nem todo fruto é fruta, mas toda fruta é fruto.

Esta distinção foi feita mais na fala do que na escrita. Fruta formou-se no latim vulgar do plural neutro de “fructum” (no latim culto, “fructum ” era e é “fructus “), resultando em “fructa”, depois “fruita” até consolidar-se em fruta, o fruto que se come na natureza, sem preparo algum.

A oração da ave-maria usa o latim culto em bela metáfora: “benedictus fructus ventris tui” ( bendito o fruto de teu ventre).

Para ouvir a coluna, clique aqui: http://bandnewsfmrio.com.br/colunistas-detalhes/deonisio-da-silva

PRESO NO ALEMÃO COM OS CANGURUS

Ricardo Boechat e eu rimos muito e divertimos os ouvintes no dia em que comentamos na Bandnews FM um suposto livro que ensina alemão.

O livro nos conta que os cangurus (Beutelratten) são capturados e colocados em jaulas (Kotter) cobertas de um tecido (Lattengitter), para abrigá-los do mau tempo.

Essas jaulas são chamadas jaulas cobertas de tecido (Lattengitterkotter). Assim que botam um canguru dentro delas, o bicho passa a ser identificado assim:Lattengitterkotterbeutelratten, canguru da jaula coberta de tecido.

Um dias os hotentotes capturaram um assassino (Attentater), acusado de ter matado uma mãe (Mutter) hotentote ( Hottentottermutter ), que tinha um filho tonto e gago (stottertrottel).

Essa pobre mãe se chama em alemão “Hottentottenstottertrottelmutter”. E seu assassino é chamado “Hottentottenstottertrottelmutterattentater”.

A polícia prendeu o assassino e o enfiou provisoriamente numa gaiola de canguru (Beutelrattenlattengitterkotter), mas o prisioneiro escapou.

As buscas mal tinham começado, quando surgiu um guerreiro hotentote, gritando:

— Capturei o assassino! (Attentater).

— Sim? Qual? — perguntou o chefe.

— O Lattengitterkotterbeutelratterattentater! — respondeu o guerreiro.

— Como assim? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tecido? — perguntou o chefe dos hotentotes.

— É, sim, é o Hottentottenstottertrottelmutteratentater (o assassino da mãe hotentote de um menino tonto e gago) — respondeu o nativo.

Ora , replicou o chefe, tu poderias ter dito desde o início que tinhas capturado o Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotter beutelrattenattentater.

Como se vê o alemão é uma língua fácil; basta a gente se interessar um pouquinho…

MACHADO, BORGES, PELÉ, MARADONA

Deonísio da Silva *

Os judeus têm a palavra haftará (permissão ou despedida) para designar trechos proféticos lidos nas sinagogas depois da Torá nas manhãs de sábado, do hebraico “xabbat”, descanso, cujo étimo está em sábado, que, ao lado de domingo, compõe a dupla que não sucumbiu ao “feira” de todos os outros dias.

A Lua, Marte, Júpiter, Mercúrio e Vênus foram substituídos por “feria secunda, feria tertia” etc., o que viria a dar no português segunda-feira, terça-feira etc. A mudança começou no século VI, na Galícia e em Portugal.

O primeiro registro de segunda-feira é a lápide de uma ermida trazida para a igreja de São Vicente, em Braga, cuja inscrição informa ter a defunta morrido a 1º de maio de 618, “dia de segunda-feira, em paz, amen”.

Abro esta conversa de sábado à la haftará porque um dos quatro personagens deste artigo fazia constantes referências à herança judaica do Ocidente, cuja evidência maior é best-seller número um do mundo, a bíblia.

Num texto muito curioso de “Otras Inquisiones”, intitulado “De alguien a nadie”, Borges diz que o sujeito da primeira frase do Gênesis é o plural Eloim (Deuses), ainda que o verbo esteja no singular: “No príncípio criou Deus os céus e a terra”. Leiam-se “Deuses”, pois foi Eloim o Criador.

Muito antes de Borges, o herege luso-brasileiro Pedro de Rates Henequim destacou que o Gênesis é claro com este plural: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Se é façamos, disse ele, é mais do que um.

Interrogado por diversos inquisidores, disse que as pessoas divinas eram sete, o Paraíso ficava no Brasil, o fruto do pecado original tinha sido a banana, e o idioma do Céu era a língua portuguesa. Foi executado em 1744, aos 64 anos.

Dá-se algo semelhante com as heresias ao redor de Jorge Luís Borges, Joaquim Maria Machado de Assis, Diego Armando Maradona e Edson Arantes do Nascimento, deuses nos respectivos ofícios, que e se tornaram incomparáveis mas há outros nas respectivas listas…

Não se discute qual dos deuses é mais importante, se Eloim, Jeová, Adonai, a Trindade, o Pai, o Filho ou o Espírito Santo. Ou por outros momesco pelos quais seja conhecido, como Alá. Mas dá-se o contrário no futebol e na literatura.

Nestas considerações, talvez o primeiro erro de nosso tempo seja a velocidade. E o segundo a falta de silêncio. Coisas da modernidade líquida de que falava o filósofo e sociólogo judeu-polonês Zygmunt Baugman.

Antes dele, o nosso Machado de Assis trabalhou com o mesmo conceito ainda no século XIX. E antes de nosso maior escritor, diz o Eclesiastes, escrito no século VI a.C., enbora seu autor tenha vivido no século X a.C., caso seja mesmo o rei Salomão: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo sob o sol”.

Nós recortamos as coisas para melhor entendê-las. No caso de Diego Maradona e de Pelé sempre haverá dúvidas se eles foram de fato os melhores de sua época.

Vejamos alguém melhor do que eles nos três minutos que mudaram o futebol, em 15.06.1958, na Suécia: https://www.youtube.com/watch?v=ojLKzLuvni8

Nestas cenas, onde despontam outros deuses tão grandes como Garrincha, Didi e Vavá, o fabuloso goleiro da então URSS, Yashin, o Aranha Negra, grita desesperado para os marcadores de Garrincha “não, assim; não, assim”.

Um ano antes, no México, nasceu o costume da torcida gritar olé, como nas touradas, a cada vez que Mané Garrincha passava por seu marcador.

Todavia há bons motivos para quem insiste em Pelé como único rei do futebol.

Em https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8 estão os gols que ele não fez, ainda que até seus erros milimétricos sejam apreciados pela beleza com que ele tentou fazê-los: https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8

Também Maradona mostrou todos os motivos pelos quais poderia ser igual ou superior a Pelé. Vejamos dez destes motivos emhttps://www.youtube.com/watch?v=uSpX2DEvSo4

O melhor árbitro, e talvez o único, seja o leitor. Veja amostras de como escrevem Borges e Machado sobre temas semelhantes.

“Uma comunidad de musulmanes fue instigada por los demonios a reconocer a Mahoma como Dios. Para aplacar el disturbio, Mahoma fue traído a los infiernos e lo exibieron. En esta ocasión yo lo vi. Se parecía a los spíritus corpóreos que no tienen percepción interior, y su cara era muy oscura”. (Borges, El doble de Mahoma).

“Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos.” (Machado de Assis, A Igreja do Diabo).

Como se vê, sempre houve muitos deuses, ontem como hoje, que, a seu modo deixaram suas marcas no tempo deles, que é também o nosso, pois já aconteceu. Só não é nosso o que ainda não aconteceu. Mas será. Será? (xx)

Este texto foi publicado no Correio do Povo, para atender a pauta do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva.

º escritor e professor, é editor de Abelha: Mel e Ferrão, no grupo editorial Almedina, e colunista semanal na BandNews FM.

PALAVRAS DA CHUVA


Se a chuva cai do céu e esteve antes no mar, por que não é salgada como a água de onde ela saiu ao subir? Sobe salgada e desce doce?


Mais: ao sair de casa levamos guarda-chuva ou sombrinha? Há um conceito embutido nas palavras. O guarda-chuva e a sombrinha nos protegem da chuva e do sol…

Como diz a Pollyanna Brêtas, limitarei um pouco os hiperlinks, como ela chama minhas janelinhas…


Dizemos CHUVA, mas ela não é medida pelo índice “chuviométrico”, e, sim, pelo índice PLUVIOMÉTRICO. Isto porque a língua portuguesa veio pouco do latim culto e muito do latim vulgar. Não tanto o latim escrito, mas o latim falado, que depois passou ao português escrito, como palavras do português escrito passaram para o português falado, nem sempre com facilidade.


Como o latim vulgar nem sempre predominou nos registros e anotações, as águas da chuva não são águas “chuviais”, mas águas PLUVIAIS. E essas águas não são escoadas pela rede “chuvial” da prefeitura, mas pela rede PLUVIAL. E deixam a cidade pela rede de galerias PLUVIAIS.

E aí temos uma outra palavra curiosa: GALERIA, originalmente o átrio de uma igreja onde ficavam gentios (judeus, não cristãos) a serem convertidos para entrarem na igreja propriamente dita. E por ali saírem! E este lugar chamava-se GALERIA porque era comparado à GALILEIA, região oposta à JUDEIA, berço do povo eleito em Israel.


Nas outras línguas que vieram do latim, as escolhas consolidadas foram outras: “lluvia”, em espanhol; “pluie”, em francês; “pioggia”, em italiano, mas “piovere” para chover. No inglês, é “rain”, como no alemão é “Regen”, ambas do latim, mas do étimo de outra palavra, regare, que deu irrigar em português.


Em resumo, reitero que há muitos conceitos embutidos nas palavras. Para se proteger dela, usamos o GUARDA-CHUVA, que o espanhol chama de “paraguas”; o italiano de “ombrello” (do atim “umbra”, sombra); o francês de parapluie; o inglês de “umbrella” (sombrinha, vinda do latim “umbra”, sombra); o alemão de “regenschirm”, guardar e proteger-se a chuva, pois o étimo de GUARDAR veio do germânico antigo “warden”, cuidar, vigilar, hoje “wärten”, no alemão moderno, esperar, proteger, cuidar, como abajur para a língua de Goethe é “Lampenschirm”, guardar ou proteger a lâmpada, quando para o francês é suavizar, quebrar, como deixa claro em “abat-jour”, abater o dia, quebrar o dia, regular a luz da lâmpada como se regulava a luz do Sol que entrava pela janela. E deu quebra-luz.


Mas quando se trata da chuva, a proteção é providenciada para fora de casa. A menos que haja goteira dentro de casa, do latim “gutta”, gota.

O PAPA QUE QUEIMOU GIORDANO BRUNO LIBEROU O CAFÉ

Em 17 de fevereiro de 1600, Giordano Bruno foi queimado vivo. Sem ele, talvez não tivéssemos Galileu Galilei.

Em 1999, foram encontrados diversos volumes do processo, que estava perdido ou escondido há 400 anos.

O papa Clemente VIII, presidindo aos festejos da fogueira sagrada do Santo Ofício & Inquisição, tomou algumas xícaras de café, achou saborosa a “bebida do demônio” e a liberou para o mundo cristão.

Descoberto e cultivado por povos muçulmanos, o café era até então proibido aos católicos.

Clemente VIII herdou um mundo em ebulição. Era o quarto papa depois de Gregório XIII, aquele que mudou o calendário em 4 de outubro de 1582, tirando-lhe dez dias justamente no dia da morte de Teresa D’Ávila, que foi enterrada no dia seguinte, 15 de outubro.

Entre seus antecessores, o pontificado de um durou dez meses, o de outro apenas dez dias.

E se daqui a pouco surgir um poderoso que libere certas drogas? Não mudará o calendário, mas certamente mudará o mundo.

DE ONDE VEIO A BOLACHA MARIA

Deonísio da Silva *

A famosa bolacha maria foi criada em 1874 por um padeiro inglês para homenagear a grã-duquesa russa Maria Alexandrovna, filha do czar Alexandre II, então noiva do príncipe Alfred, filho da rainha Vitória.

Mas a palavra bolacha, de bolo, do latim “bulla”, bola (por sua forma esférica), mais o sufixo “acha”, quase sempre pejorativo, estava registrada na língua portuguesa desde 1543.

Provavelmente, o padeiro inglês designou “cracker” ou “cookie” o seu invento, por influência do vocábulo holandês “koekje”, cujo étimo está em cuca, bolo coberto com farofa doce.

Da Inglaterra, a bolacha foi para a Espanha, o México, a Austrália, o Brasil, a Índia, a África do Sul e Portugal, de onde chegou ao Brasil.

Bolacha e biscoito, embora às vezes usados como sinônimos, designam alimentos diferentes.

O biscoito, como o nome indica, do latim “biscoctum”, cozido duas vezes, não é macio como a bolacha, por ser torrado, e já tinha vindo com Cabral. Pero Vaz de Caminha registra que os índios detestaram a gororoba.

Já da bolacha, todo mundo gostava e comia em outros formatos, e continuou a comê-la.

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AS VERGONHAS E AS PARTES

Por Deonísio da Silva

Talvez a primeira vez que ouvimos a palavra “vergonha” tenha sido da boca de nossa mãe para nos ensinar bons modos: “Não tem vergonha na cara, não?”. Sim, desde crianças, vigora a clássica oposição bons modos x maus modos.

“Vergonha” continuava a designar as partes pudendas, resumidas para partes apenas, aquelas partes do nosso corpo no baixo ventre das quais deveríamos ter vergonha.

A vergonha foi parar na cara, mas as vergonhas continuaram no baixo ventre.

É curioso este par singular e plural e talvez indício de machismo na língua portuguesa, uma vez que, como ensina o suíço Ferdinand Saussure, “o ponto de vista cria o objeto”.

A índia terá deixado à mostra só uma vergonha, como certificado por Pero Vaz de Caminha em sua famosa “Carta”, descoberta apenas no Século XIX, embora traduzida para o italiano ainda antes de chegar a Portugal para ser entregue a um dos magnatas genoveses ou venezianos que tinham financiado a viagem.

“E uma daquelas moças era toda tingida, de cima a baixo, daquela tintura; e era
tão bem feita e tão redonda, e a sua vergonha (que ela não tinha) era tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, faria vergonha por não terem a sua como a dela”. (Carta de Pero Vaz de Caminha).

Vergonha já designava no Século XV as partes sexuais e o sentimento.