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COVIDAR: NASCE UMA PALAVRA

Adentrou ao português do Brasil o verbo covidar. Seu étimo é “covid”, da sigla Covid-19.

Conjuga-se como cantar. Por enquanto, o modo mais frequente tem sido o pretérito-perfeito: eu covidei, ele/ela covidou, eles/elas covidaram.

Já se usa muito também o particípio “covidado”. “Ele está covidado desde a semana passada, você não soube?”. E o recinto destinado exclusivamente ao tratamento de covidados é o covidário.

A formação de palavras como estas não é planejada. Semelham rios que vão fazendo o próprio caminho. Essas palavras parodiam os versos de Antonio Machado: “falante, não há palavras, as palavras se fazem ao falar”.

O italiano designou “influenza” uma doença que ganharia o mundo pelo francês “grippe”, que nos deu o substantivo gripe e o verbo gripar, com um particípio muito frequente: gripado.

A SARS não nos deu novas palavras, mas a Covid-19 deu.

O PRIMEIRO NOME DO RIO FOI RIA

O primeiro nome do Rio de Janeiro foi “Ria” de Janeiro.

No século XVI, assim como o latim “rivus” deu ribeiro e ribeira, deu “ria” também, palavra hoje de pouco uso, mas que designa braço de mar, canal de água salgada ou mesmo um trecho sinuoso, maior do que uma enseada e menor do que um golfo. É este o caso do que veio a chamar-se Baía da Guanabara.

O experiente navegador Gaspar de Lemos, que a descobriu no dia 1º de janeiro de 1501, jamais confundiria água salgada com água doce, e a denominou “Ria” de Janeiro.

Naquele mesmo século, mas trinta anos depois, outro navegador, Pero Lopes de Sousa, escreveria um Diário da Navegação, e cometeria o erro de transcrição que ia mudar o nome da localidade de “Ria” de Janeiro para Rio de Janeiro…

Quando Estácio de Sá fundou a cidade, ainda dia no Século XVI, a 1º de março de 1565, já não se escrevia mais “Ria” de Janeiro e, sim, Rio de Janeiro.

Estava consolidado Rio de Janeiro, nome que hoje se aplica ao estado e à sua capital, que foi também capital do Brasil, depois de Salvador, na Bahia. Mas a mudança fatal para o Rio de Janeiro não foi mudar de Ria para Rio. Foi perder para Brasília, em 1960, o posto de capital do Brasil. O Rio, mais de meio século depois, ainda não se recuperou desta perda e tem recaídas ao agir e ser considerado como se ainda fosse. Não é mais. Nem Brasília o é. A capital do Brasil é São Paulo.

O DIA DE AMANHÃ

SÃO JERÔNIMO É O ORIXÁ XANGÔ

O rapaz era de uma simplicidade extraordinária para dizer coisas profundíssimas com clareza e poucas palavras. Era um estilista do aramaico falado.

A tradução do grego para o latim, na Vulgata, feita por São Jerônimo entre os séculos IV e V, perdeu muito desta simplicidade.

Ele traduzia a bíblia rodeado de guris com o fim de fazer cópias simultâneas em papiros e couros, e alguns dos rapazes cometiam erros que nem sempre o piedoso sacerdote podia corrigir em todas as cópias.

São Jerônimo é tão conhecido de tantos que é venerado também nos cultos afro-brasileiros, como é o caso da umbanda, em que o santo é sincretizado no orixá Xangô.

BAIRROS DO RIO: POR QUE ESSES NOMES (1)

BAIRROS DO RIO
Por que esses nomes?

Ipanema quer dizer água podre. Dom Pedro, que conhecia diversas línguas europeias e também o tupi-guarani, divertia-se com os títulos nobiliárquicos que vendia à nobreza territorial para melhorar o caixa da coroa.

O Barão de Ipanema era o latifundiário dono das terras onde surgiu a povoação.

Urca, do holandês hulk pelo francês antigo hourque, barco de fundo chato, para transporte de mercadorias. Um deles ficou abandonado ali por muito tempo.

Copacabana, do quíchua Kota Kawana, imagem que um índio aimará fez de uma N. Sra. que teria aparecido aos incas: a imagem foi trazida por navegadores e comerciantes católicos.

Leme, porque visto de cima parece o leme de um navio aquela pedra que marca o limite do bairro.

Flamengo, da invasão holandesa pelo pessoal de Flandres, os flaming, flamengus em latim: os índios chamam o bairro Uruçu-mirim, abelha pequenina, pois havia muitas ali.

Botafogo, porque o comandante de um galeão chamado Botafogo comprou terras ali.

Continua em próximo artigo.

BOCETA NÃO ERA PALAVRÃO

Originalmente, boceta ou buceta designou caixinha feita de uma madeira chamada buxo, do grego “búxys”, pelo latim “buxus”.

Veja o mito da Boceta de Pandora, recipiente onde estavam guardados todos os males do mundo.

As mulheres gregas e romanas da Antiguidade usavam esse tipo de caixa para guardar suas joias e outras preciosidades.

No século XVIII, a vulva já era comparada a boceta, mas com este significado, a palavra só caiu na boca do povo (epa!) três séculos depois.

No Século XIX, com o antigo significado, aparece no romance “Helena “, de Machado de Assis, de sua fase romântica. Nada do segundo significado ainda.

Os homens também carregavam consigo uma pequena boceta com rapé. Era chique cheirar a boceta e espirrar.

Boceta em casa e no bolso, escarradeiras nas residências abastadas, nenhum cinzeiro, que só chegará mais tarde, quando bocetas e escarradeiras tinham ido embora. E agora o cinzeiro também está dando adeus e já sumiu de muitos lugares.

A história das palavras revela muito dos usos e costumes.

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Leia:
“…— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa
bocetinha de joalheiro.” (Helena, de Machado de Assis, capítulo XI).

ESTAR NA PINDAÍBA

De onde veio a expressão? Com a haste da pindaíba, a planta que dá também a fruta de mesmo nome, se faz vara de pescar.

Inclusive a pequena árvore frutífera (acho que é um arbusto) tem seu nome vindo do tupi “pindá”, anzol, e “yba”, vara.


Segundo o professor emérito da USP, Francisco da Silveira Bueno, que foi um dos maiores etimólogos do Brasil, a expressão estar na pindaíba vem da situação de miséria em que ficava o índio que não conseguia apanhar peixe, pois a pesca era um dos principais meios de sustento de muitas tribos.

Sua agricultura era incipiente. Viviam de caça e pesca. Sentir-se na pindaíba é estar reduzido àquele índio, com caniço e anzol, e sem pescar nada, também no sentido metafórico.

O verbete PINDAÍBA estará no meu livro “De onde vêm as palavras”, 18a edição, http://www.almedina.com.br e http://www.almedina.net

CARNAVAL: O PRIMEIRO AUTORIZADO

Foi o papa Paulo II quem, no Século XV, redimiu o Carnaval para a Igreja e assim espalhou os festejos por todo o mundo cristão.

Sucedendo ao tio, Pio II, em descarado nepotismo, assumiu o trono de São Pedro, mas não sua homossexualidade, que continuou a exercer nos bastidores e concordou entretanto em levar adiante dois projetos que não cumpriu: combater os turcos e convocar um concílio.

Em vez disso, liberou o Carnaval, palavra que tinha ido do latim “carrus navalis” e agora voltava do italiano “carnevale” disfarçada de penitência na expressão “carne, vale “, adeus, carne, pois a comilança, a luxúria e outros prazeres seriam temporariamente suspensod ao “introitus”, entrada, da “quaresima”, na pronúncia vulgar do clássico “quadragesimam diem” , quadragésimo dia, antes da Páscoa, que resultaria em entrudo e quaresma no português.

Sobrinho de outro pontífice, tornara-se cardeal aos 22 anos. Nascido em Veneza, então matriz do carnaval italiano, usava tantas joias e enfeites de metal que num inverno muito frio morreu de pneumonia.

Seus costumes peculiares, a vivência veneziana e também sua juventude por certo influenciaram sua decisão. (…)

No primeiro Carnaval autorizado pelo papa, proliferaram as alegorias, as comparações, as corridas de corcundas e de anões, os atos de jogar farinha e ovos uns nos outros etc., que perduraram por séculos!

A sátira também teve seu lugar. Rainhas, princesas e outras autoridades eram representadas por célebres beldades, como as prostitutas mais conhecidas e devidamente disfarçadas no meio de mulheres virtuosas, sem excluir os bobos da corte, também misturados a outros bobos, tratados como reis nos desfiles.

Até clérigos se misturavam à multidão vestindo suas roupas litúrgicas de trás pra frente, debochando dos superiores, carregando missais virados, desde que com o rosto devidamente disfarçado por trás de máscaras, pois nos dias seguintes rezariam missas, atenderiam confissões, enfim voltariam a ministrar os sacramentos.

O recurso das máscaras permitiu, como já acontecia em Veneza, que os nobres matassem a vontade de se divertir e se misturassem ao povo. Afinal, uma das coisas que o povo sempre fez melhor do que aqueles que o dominaram foi divertir-se.

Paulo II foi sucedido por Sisto IV, que contratou Michelângelo e fez a Capela Sistina. Foram dois estilos de governar que podemos avaliar pelos respectivos resultados.

QUARESMA E MARACUJÁ: POR QUE VINCULADOS?

O jornalista Ricardo Boechat e eu criamos o programa semanal de rádio “Sem Papas na Língua” em 2011. Desde então vai ao ar cinco vezes por semana na rede Bandnews FM.

Dia 18/2/2021, dei a
origem da expressão “arcar com as consequências” e das palavras “quaresma” (não são 40 dias, como indica o étimo, é número simbólico) e da bonita vinculação da flor branca e roxa do “maracujá”, comida na cuia, em tupi, pela formação mara (alimento) + cuya (recipiente) com os sofrimentos da Paixão, incluindo a semelhança das anteras com os espinhos da coroa imposta a Jesus por deboche adicional daqueles que O crucificaram.

Maracujá é fruto, mas não é fruta. Fruta é o fruto comestível. Nem todo fruto é fruta, mas toda fruta é fruto.

Esta distinção foi feita mais na fala do que na escrita. Fruta formou-se no latim vulgar do plural neutro de “fructum” (no latim culto, “fructum ” era e é “fructus “), resultando em “fructa”, depois “fruita” até consolidar-se em fruta, o fruto que se come na natureza, sem preparo algum.

A oração da ave-maria usa o latim culto em bela metáfora: “benedictus fructus ventris tui” ( bendito o fruto de teu ventre).

Para ouvir a coluna, clique aqui: http://bandnewsfmrio.com.br/colunistas-detalhes/deonisio-da-silva

PRESO NO ALEMÃO COM OS CANGURUS

Ricardo Boechat e eu rimos muito e divertimos os ouvintes no dia em que comentamos na Bandnews FM um suposto livro que ensina alemão.

O livro nos conta que os cangurus (Beutelratten) são capturados e colocados em jaulas (Kotter) cobertas de um tecido (Lattengitter), para abrigá-los do mau tempo.

Essas jaulas são chamadas jaulas cobertas de tecido (Lattengitterkotter). Assim que botam um canguru dentro delas, o bicho passa a ser identificado assim:Lattengitterkotterbeutelratten, canguru da jaula coberta de tecido.

Um dias os hotentotes capturaram um assassino (Attentater), acusado de ter matado uma mãe (Mutter) hotentote ( Hottentottermutter ), que tinha um filho tonto e gago (stottertrottel).

Essa pobre mãe se chama em alemão “Hottentottenstottertrottelmutter”. E seu assassino é chamado “Hottentottenstottertrottelmutterattentater”.

A polícia prendeu o assassino e o enfiou provisoriamente numa gaiola de canguru (Beutelrattenlattengitterkotter), mas o prisioneiro escapou.

As buscas mal tinham começado, quando surgiu um guerreiro hotentote, gritando:

— Capturei o assassino! (Attentater).

— Sim? Qual? — perguntou o chefe.

— O Lattengitterkotterbeutelratterattentater! — respondeu o guerreiro.

— Como assim? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tecido? — perguntou o chefe dos hotentotes.

— É, sim, é o Hottentottenstottertrottelmutteratentater (o assassino da mãe hotentote de um menino tonto e gago) — respondeu o nativo.

Ora , replicou o chefe, tu poderias ter dito desde o início que tinhas capturado o Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotter beutelrattenattentater.

Como se vê o alemão é uma língua fácil; basta a gente se interessar um pouquinho…

MACHADO, BORGES, PELÉ, MARADONA

Deonísio da Silva *

Os judeus têm a palavra haftará (permissão ou despedida) para designar trechos proféticos lidos nas sinagogas depois da Torá nas manhãs de sábado, do hebraico “xabbat”, descanso, cujo étimo está em sábado, que, ao lado de domingo, compõe a dupla que não sucumbiu ao “feira” de todos os outros dias.

A Lua, Marte, Júpiter, Mercúrio e Vênus foram substituídos por “feria secunda, feria tertia” etc., o que viria a dar no português segunda-feira, terça-feira etc. A mudança começou no século VI, na Galícia e em Portugal.

O primeiro registro de segunda-feira é a lápide de uma ermida trazida para a igreja de São Vicente, em Braga, cuja inscrição informa ter a defunta morrido a 1º de maio de 618, “dia de segunda-feira, em paz, amen”.

Abro esta conversa de sábado à la haftará porque um dos quatro personagens deste artigo fazia constantes referências à herança judaica do Ocidente, cuja evidência maior é best-seller número um do mundo, a bíblia.

Num texto muito curioso de “Otras Inquisiones”, intitulado “De alguien a nadie”, Borges diz que o sujeito da primeira frase do Gênesis é o plural Eloim (Deuses), ainda que o verbo esteja no singular: “No príncípio criou Deus os céus e a terra”. Leiam-se “Deuses”, pois foi Eloim o Criador.

Muito antes de Borges, o herege luso-brasileiro Pedro de Rates Henequim destacou que o Gênesis é claro com este plural: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Se é façamos, disse ele, é mais do que um.

Interrogado por diversos inquisidores, disse que as pessoas divinas eram sete, o Paraíso ficava no Brasil, o fruto do pecado original tinha sido a banana, e o idioma do Céu era a língua portuguesa. Foi executado em 1744, aos 64 anos.

Dá-se algo semelhante com as heresias ao redor de Jorge Luís Borges, Joaquim Maria Machado de Assis, Diego Armando Maradona e Edson Arantes do Nascimento, deuses nos respectivos ofícios, que e se tornaram incomparáveis mas há outros nas respectivas listas…

Não se discute qual dos deuses é mais importante, se Eloim, Jeová, Adonai, a Trindade, o Pai, o Filho ou o Espírito Santo. Ou por outros momesco pelos quais seja conhecido, como Alá. Mas dá-se o contrário no futebol e na literatura.

Nestas considerações, talvez o primeiro erro de nosso tempo seja a velocidade. E o segundo a falta de silêncio. Coisas da modernidade líquida de que falava o filósofo e sociólogo judeu-polonês Zygmunt Baugman.

Antes dele, o nosso Machado de Assis trabalhou com o mesmo conceito ainda no século XIX. E antes de nosso maior escritor, diz o Eclesiastes, escrito no século VI a.C., enbora seu autor tenha vivido no século X a.C., caso seja mesmo o rei Salomão: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo sob o sol”.

Nós recortamos as coisas para melhor entendê-las. No caso de Diego Maradona e de Pelé sempre haverá dúvidas se eles foram de fato os melhores de sua época.

Vejamos alguém melhor do que eles nos três minutos que mudaram o futebol, em 15.06.1958, na Suécia: https://www.youtube.com/watch?v=ojLKzLuvni8

Nestas cenas, onde despontam outros deuses tão grandes como Garrincha, Didi e Vavá, o fabuloso goleiro da então URSS, Yashin, o Aranha Negra, grita desesperado para os marcadores de Garrincha “não, assim; não, assim”.

Um ano antes, no México, nasceu o costume da torcida gritar olé, como nas touradas, a cada vez que Mané Garrincha passava por seu marcador.

Todavia há bons motivos para quem insiste em Pelé como único rei do futebol.

Em https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8 estão os gols que ele não fez, ainda que até seus erros milimétricos sejam apreciados pela beleza com que ele tentou fazê-los: https://www.youtube.com/watch?v=sRBFzoZLGZ8

Também Maradona mostrou todos os motivos pelos quais poderia ser igual ou superior a Pelé. Vejamos dez destes motivos emhttps://www.youtube.com/watch?v=uSpX2DEvSo4

O melhor árbitro, e talvez o único, seja o leitor. Veja amostras de como escrevem Borges e Machado sobre temas semelhantes.

“Uma comunidad de musulmanes fue instigada por los demonios a reconocer a Mahoma como Dios. Para aplacar el disturbio, Mahoma fue traído a los infiernos e lo exibieron. En esta ocasión yo lo vi. Se parecía a los spíritus corpóreos que no tienen percepción interior, y su cara era muy oscura”. (Borges, El doble de Mahoma).

“Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos.” (Machado de Assis, A Igreja do Diabo).

Como se vê, sempre houve muitos deuses, ontem como hoje, que, a seu modo deixaram suas marcas no tempo deles, que é também o nosso, pois já aconteceu. Só não é nosso o que ainda não aconteceu. Mas será. Será? (xx)

Este texto foi publicado no Correio do Povo, para atender a pauta do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva.

º escritor e professor, é editor de Abelha: Mel e Ferrão, no grupo editorial Almedina, e colunista semanal na BandNews FM.