Arquivo da tag: Etimologia

PALAVRAS DA CHUVA


Se a chuva cai do céu e esteve antes no mar, por que não é salgada como a água de onde ela saiu ao subir? Sobe salgada e desce doce?


Mais: ao sair de casa levamos guarda-chuva ou sombrinha? Há um conceito embutido nas palavras. O guarda-chuva e a sombrinha nos protegem da chuva e do sol…

Como diz a Pollyanna Brêtas, limitarei um pouco os hiperlinks, como ela chama minhas janelinhas…


Dizemos CHUVA, mas ela não é medida pelo índice “chuviométrico”, e, sim, pelo índice PLUVIOMÉTRICO. Isto porque a língua portuguesa veio pouco do latim culto e muito do latim vulgar. Não tanto o latim escrito, mas o latim falado, que depois passou ao português escrito, como palavras do português escrito passaram para o português falado, nem sempre com facilidade.


Como o latim vulgar nem sempre predominou nos registros e anotações, as águas da chuva não são águas “chuviais”, mas águas PLUVIAIS. E essas águas não são escoadas pela rede “chuvial” da prefeitura, mas pela rede PLUVIAL. E deixam a cidade pela rede de galerias PLUVIAIS.

E aí temos uma outra palavra curiosa: GALERIA, originalmente o átrio de uma igreja onde ficavam gentios (judeus, não cristãos) a serem convertidos para entrarem na igreja propriamente dita. E por ali saírem! E este lugar chamava-se GALERIA porque era comparado à GALILEIA, região oposta à JUDEIA, berço do povo eleito em Israel.


Nas outras línguas que vieram do latim, as escolhas consolidadas foram outras: “lluvia”, em espanhol; “pluie”, em francês; “pioggia”, em italiano, mas “piovere” para chover. No inglês, é “rain”, como no alemão é “Regen”, ambas do latim, mas do étimo de outra palavra, regare, que deu irrigar em português.


Em resumo, reitero que há muitos conceitos embutidos nas palavras. Para se proteger dela, usamos o GUARDA-CHUVA, que o espanhol chama de “paraguas”; o italiano de “ombrello” (do atim “umbra”, sombra); o francês de parapluie; o inglês de “umbrella” (sombrinha, vinda do latim “umbra”, sombra); o alemão de “regenschirm”, guardar e proteger-se a chuva, pois o étimo de GUARDAR veio do germânico antigo “warden”, cuidar, vigilar, hoje “wärten”, no alemão moderno, esperar, proteger, cuidar, como abajur para a língua de Goethe é “Lampenschirm”, guardar ou proteger a lâmpada, quando para o francês é suavizar, quebrar, como deixa claro em “abat-jour”, abater o dia, quebrar o dia, regular a luz da lâmpada como se regulava a luz do Sol que entrava pela janela. E deu quebra-luz.


Mas quando se trata da chuva, a proteção é providenciada para fora de casa. A menos que haja goteira dentro de casa, do latim “gutta”, gota.