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DEU BARRABÁS NO PLEBISCITO

E depois a mãe de Jesus encontrou a mãe de Judas, segundo o relato “Les deux mères”, ainda inédito no Brasil.

Em meu romance Goethe e Barrabás, lemos no capítulo A luz que te falta: “Salomé, com os sentimentos desarrumados por amar um homem que lança abismos e pontes entre ele e ela, mistura vigília, sono e sonho, aumentando a confusão que toma conta de suas almas, depois de vinhos rascantes e de amores insensatos”.

Estava num desses eventos em que os leitores querem que o escritor fale se algumas personagens se baseiam em pessoas conhecidas, quando uma leitora muito sagaz, de 83 anos, me perguntou, respeitosa: “O senhor deu-lhe o nome de Salomé por que ela perdeu a cabeça por Barrabás num amor insensato, depois de ter feito João Batista perder a dele? Aliás, todos os amores têm um quê de insensato, mas como o senhor tomou dois personagens bíblicos, deslocando-os para atuarem unidos, pois Salomé é aquela que dançou para o rei Herodes, e Barrabás aparece na Semana Santa, eu lhe pergunto: as más escolhas de que fala o senhor são construídas por nós deliberadamente ou são obra do destino?”.

O debate acontecia bem próximo a outra Páscoa e o assunto era muito pertinente. Respondi que acredito nas transcendências de nossas vidas, que somos bem diferentes de um pé de couve ou repolho, pois nascemos para olhar o que está no alto e não para chafurdar em nossa pobre condição humana. Que isso pode ser chamado de destino, talvez!

Temperei com o célebre paradoxo de Blaise Pascal, escritor francês do século XVII, que disse: “o homem não é anjo, nem besta, mas quem quer ser anjo, acaba sendo besta.” A dulcíssima velhinha prosseguiu: “jamais esquecerei de outra passagem” – estava com o livro na mão e leu: “A moça descobre também que se na Judéia criassem frangos, em vez de cordeiros, Jesus teria sido o frango de Deus que tira os pecados do mundo, sem contar que para frangos e famintos o destino será sempre um só: a morte para todos.

Barrabás, porém, diz à amada que a vida dele é bem diferente da de um frango. Diz também que foi Barrabás quem apareceu a Goethe, no final da vida, oferecendo-lhe a luz que faltava, mas já era tarde”.

No romance, faço referência a dois personagens com o nome de Barrabás e a duas Páscoas. Na Páscoa do Antigo Testamento, os hebreus matam cordeiros e esfregam o sangue na porta das casas, para que o Anjo da Morte não mate os primogênitos.

Na Páscoa do Novo Testamento, Jesus é chamado Cordeiro de Deus. Pois bem! Semana passada, depois de proferir palestra a convite do presidente do Tribunal de Justiça, em São Paulo, José Roberto Nalini, visitei outro querido amigo ali: o poeta Paulo Bonfim.

E, em nossa agradável conversa, ele lembrou um livro Les deux mères (As duas mães), sobre um suposto encontro da mãe de Jesus com a mãe de Judas. Ainda não encontrei esse livro que já antevejo admirável pelo tema. Quem sabe, na próxima Páscoa possa falar dele a vocês. Tenho aprendido muito a cada Páscoa, principalmente com pessoas cuja amizade para mim é um privilégio! (xx)

MARX: FILHAS SUICIDAS E OUTRAS TRAGÉDIAS

Deonísio da Silva º

O suicídio é tema inconveniente em todo o mundo, não apenas no Brasil.

Quando pesquisava o tema do suicídio para escrever o romance Sfefan Zweig deve morrer, já publicado também em Portugal e na Itália, li de passagem coisas que me desconcertaram a respeito da vida de Marx, pensador referencial dos tempos modernos.

Soube então que duas filhas de Karl Marx e também seu genro, Paul Lafargue, se suicidaram. Quantos leitores sabem disso? Poucos. E quem lê isso fica às vezes tão chocado que faz o que a mídia tem por hábito fazer: omite esses fatos sombrios.

Todavia é preciso lembrar a frase emblemática que realça serem fatos e fatias da realidade circundante emissoras de clarões sobre pessoas cuja biografia deveríamos conhecer melhor. Disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em Meditações do Quixote: Eu sou eu e minha circunstância”. E se não salvo a ela, não me salvo a mim

Karl Marx está entre os vultos históricos dos quais as qualidades e o mérito das obras são realçados sobremaneira, mas pouco se diz sobre quem foi o homem, o filho, o marido, o pai, o amigo.

Faltou compaixão a Marx, que maltratou a esposa e teve um filho bastardo com Helena Demuth, empregada do casal. Helena, cujo apelido era Lenchen, tornou-se amiga da mulher de Marx, Jenny von Westphalen, que não fazia apenas as tarefas domésticas. Também cultivou flores pontiagudas na cabeça da patroa, mais conhecidas vulgarmente por cornos. Eram encontros apressados esses do amor ilegítimo sob o mesmo teto onde viviam todos. Mas certa vez Jenny viajou e ficou fora de casa por uma semana. Foi nessa temporada que o libidinoso Marx engravidou a assanhada Lenchen.

Talvez ambos tivessem sido libidinosos e assanhados todas as outras vezes, mas aquela viagem da patroa coincidiu com os dias férteis de Lenchen. E ela concebeu do patrão.

Para salvar seu casamento com Jenny, Marx escreveu a Engels pedindo que assumisse a paternidade do menino desta união, a quem foi dado o nome de Frederick: “Devo revelar-lhe um mistério tragicômico“, disse Marx a Engels, como conta Saul Padover em “Karl Marx: an Intimate Biography”.

Mas como o filho bastardo foi descoberto? Pai verdadeiro, pai adotivo e filho de ambos guardaram este segredo por toda a vida. Mas, então, Eleonora, filha de Marx,  veio a conhecer Frederick em 1895. Ele estava com 44 anos. E morreu em 1929.

Não se sabe que influências podem ter tido sobre as filhas e o genro de Marx estas e outras circunstâncias, mas o certo é que Eleonora e Laura, filhas de Marx, e o genro dele, Paul Lafargue, tiveram  os três um triste fim: os três se suicidaram.

Sobre tais fatos e sobre as hemorroidas de Marx poucos falam, embora sobre as hemorroidas Edmund Wilson assegure que elas foram decisivas para os capítulos mais contundentes contra a burguesia, pois foi nas crises da enfermidade que Marx os escreveu.

Essas circunstâncias diminuem Marx ou o engrandecem? O leitor é o senhor desta interpretação. Mas o que não podem é ser omitidas em nome do culto à personalidade.

Há mais. Um dos filhos de Marx morreu tão magro, mas tão magro, que escondia os braços finos sob o lençol para a mãe não os ver e parar de chorar. E foi o pai quem ficou ao lado da cama até o último suspiro do filho.

Não são, pois, apenas possíveis restrições nas circunstâncias. Marx era pai amoroso e gostava muito das crianças. Os filhos adoravam brincar de cavalinho com ele, montando sobre o pai, que galopava pela casa toda e depois voltava ao trabalho.

Ah, sim: e desconfiando de que sua teoria não seria lida direito, Karl Marx escreveu um romance, que estava inédito até há poucos anos. Não sei se já foi publicado. (xx)

Deonísio da Silva,  professor federal aposentado, é escritor e editor. Dirige para o grupo editorial Almedina a coleção Abelha: Mel & Ferrão.

A HISTÓRIA VISTA POR TEM-TEM

Encrenqueiros causam problemas aos outros, mas antes de tudo a si mesmos.

Tirando falhas estruturais de caráter, os contenciosos podem ser resolvidos com um procedimento mágico: imagine-se no lugar do outro, procure entender as razões de seu discordante e esforce-se por expor, com brevidade e clareza, as suas.

Brevidade e síntese nem sempre são possíveis. Mas entre lero-lero e silêncio, escolha o silêncio, é claro, pois este diz mais ao bom entendedor. Algum consenso emerge deste diálogo.

E se o interlocutor der sucessivas mostras de não ter vontade de entender o que vê, sente, ouve ou lê?

Daí você impõe a lei do silêncio. Do teu silêncio. E, se você crê nas transcendências, estenda o penúltimo manto redentor sobre o discordante que, diabólico, persevera no erro: a prece.

Penúltimo por quê? Porque sempre haverá outro recurso: aqui se faz e aqui se paga. Às vezes, no Judiciário. E nem sempre termina ali.

Em resumo, convém ir apenas até ao penúltimo recurso. Assim você evita escovar cabeça de burro com sabonete cheiroso ou perfumado xampu. O cuidado é dispensável porque talvez o animal conheça apenas sabão e não possa jamais perceber a diferença entre os produtos.

  • De pedaços de conversas com as psicanalistas Betty Milan, paulistana, e Gilda Pitombo Mesquita, gaúcha de Alegre-RS, amigas queridas.
  • Tem-tem é um passarinho. No romance “Stefan Zweig deve morrer” (Almedina, 2020), ele observa e é observado pelo escritor judeu-austríaco. Stefan, Lotte e Tem-tem vivem na mesma casa em Petrópolis (RJ), mas há um confinamento adicional para ele: a gaiola. O casal foi assassinado por nazistas. A versão das biografias, apoiadas na mídia e na delegacia de polícia, na época dominadas por um governo autoritário, é de que se suicidaram.

INFÂNCIA EM SIDERÓPOLIS: história de uma nova e antiga solidão


Toda localidade tem figuras marcantes. Da primeira minha infância, em Siderópolis, nos verdes anos, me lembro da parteira, do guarda-noturno e de um ladrão de galinha.


Este último nos assustou muito. Estávamos brincando na frente da casa, de repente uma senhora gritou “pega o ladrão!” e ele passou em disparada por nós e sumiu na escuridão de uns eucaliptos atrás da vila.

Somente as ruas eram iluminadas. Vestia uma calça cáqui, o ladrão, e estava descalço, de boné, e a camisa era de riscado.


A luz elétrica era fraquinha, todas as lâmpadas eram de 40 watts, que se dizia “velas”, nas casas e na ruas, mas pareciam muito fortes, pois quando faltava luz, o que era raro, e era preciso acender as candeias ou as lamparinas, a gente percebia a diferença.


As lamparinas e suas sombras favoreciam histórias lendárias de almas mortas que apareciam assustando as vivas. O cenário noturno estava sempre armado. E as almas vinham com muita frequência.


Os aparecimentos compõem a cultura brasileira com uma força impressionante. Não é à toa que a padroeira do Brasil é uma Aparecida, Nossa Senhora Aparecida. Imagine se ela, quando apareceu aos pescadores, abrisse bem a boca e gritasse “bah”. Todos sairiam correndo.

Vim de um outro Brasil. Importantes eram os parentes, os vizinhos, a igreja, a escola, a farmácia, o hospital.

E a ponte. As cidades brasileiras, em sua maioria, cresceram à beira de rios. Você atravessava o rio e ia à escola, à igreja, à casa dos amigos. A ponte ligava os dois lados do rio.


Se fosse hoje, o verbo não era ligar, era conectar. A ponte era uma conexão.


Uma enchente que derrubasse a ponte, era uma tragédia. Hoje a tragédia é quando cai o sinal da internet.


Para muitos, até o ano passado, só quando caía a conexão da internet é que eles faziam outras coisas e talvez se lembrassem de ir à rua conversar com os vizinhos, observar os que passavam.

Mas agora, por causa do coronavírus, ninguém passa: algum covidado poderá torná-lo o mais recente convidado da Covid-19. E isso ninguém quer. Para ninguém.

Quanto a mim, nasci trinta anos depois da peste, que na época chamou-se gripe espanhola, e ela, disfarçada, com outro nome, veio me esperar em outra idade.

Por enquanto, nós, os sobreviventes, nos defendemos como no romance que mais leitores me trouxe: “Avante, soldados: para trás “.

Senão, vocês não vão. Vocês vão para a Cochinchina procurar joguinho e rede social, as duas coisas mais buscadas na internet. Cada um sozinho diante da telinha. (xx)

SABOR DE MORANGO

por Deonísio da Silva

A igreja de minha adolescência profunda era a sede ou matriz da Paróquia Santa Teresinha, em Jacinto Machado (SC). Ali fui coroinha. A foto é de meu amigo de infância, o querido Enio Frassetto.

Em certo domingo, depois da missa, um ciclista foi atropelado por um caminhão. Foi um auê danado.

Ainda paramentados, o padre e os coroinhas, Elói Semprebom e eu, os três também fomos ver o que tinha acontecido, pois era grande a perturbação no primeiro acidente de trânsito com vítimas humanas na localidade.

Cachorros e galinhas já tinham morrido ou sido machucados, mas, gente, não, nunca até então.

Estendido na rua de cascalho, em meio ao sangue e à dor, “gemente et flente”, como em famosa oração litúrgica que rezávamos em latim, o rapaz atropelado pensou que sua hora tinha chegado e aquela fosse a extrema-unção.

Sobreviveu manco e torto, o doutor Carlos Saboia fez as devidas cirurgias. Feliz da vida, apesar do susto e do trauma, ele casou-se com u’a moça tão linda como Nossa Senhora das Dores, “clemens, pia, santissima”, como na mesma prece, que passou a amar e cuidar do rapaz. Ele nunca mais andou de bicicleta.

Mas ela, sim, com uma Monark, sem varão, especial para mulheres, freiras e padres, com saia vermelha apertada, um batom lindo e unhas pintadas da mesma fascinante cor, ia confessar-se fora do horário com um padre que substituiu o pároco por algumas semanas. Ela ia todo dia nesse interstício, deveria ter muitos pecados a contar ou gostava de repeti-los.

Eu era menino estudioso, sempre, e obediente, quase sempre, e morava na Casa Paroquial para ser preparado para o pré-seminário, no Educandário São Joaquim, em São Ludgero, onde seria preparado para o Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, cujos padres me preparariam para cursar Filosofia e Teologia, em Vimão (RS). Se tudo desse certo, depois de 18 anos de estudo, por volta de 26 de idade, eu seria considerado apto para o sacerdócio e, fazendo os votos de castidade e de obediência, seria ordenado “sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec” (sacerdote, para sempre, segundo a ordem de Melquisedec) , pois é um rito radicado no Antigo Testamento que o cristianismo, dileto filho do judaísmo, aproveitou.

Nessas ocasiões, o padre interrompia meus estudos na mesa em frente à dele e me mandava colher moranguinhos no pomar atrás da igreja. E eu não gostava dessas interrupções.

Um dia voltei muito depressa, a mulher ainda estava no escritório do padre, que me mandou colher mais.

Fui de novo. Ao voltar com uma pequena bacia cheia de moranguinhos, ela tinha ido embora, e o padre disse que eu tinha colhido demais, tinha acabado com os moranguinhos.

Nunca soube a quantidade de moranguinhos a colher, mas uma coisa aprendi com Teresinha Vecchi, irmã do padre Carlos Vecchi, ambos de Laguna, ela era xará da padroeira, empregada doméstica de todo serviço e espécie de mordoma, e trabalhou a vida inteira com o padre Herval Fontanella, eterno vigário ou pároco de Jacinto Machado: “esse padre coadjutor vai ficar poucos dias, só até o padre Herval voltar, ele é diferente, quando ele atende no escritório, a gente não pode entrar lá, nem que seja para pegar alguma coisa que esqueceu”.

Esqueci muito e talvez tenha omitido ou acrescentado algo a essas lembranças. Os moranguinhos tinham diversos sabores: se mais para o vermelho, como os batons, se mais para o verde, como eu ficara quando assustado pelos tapas na cara recebidos por Artur, sobrinho do padre Herval, que ficara uns dias com o tio e esquecera de apagar as velas da igreja em certa noite, podendo ter causado um incêndio que destruiria a igreja inteira, como já tinha ocorrido com o seminário que estavam reconstruindo em São Ludgero, mas que podia ter sido incendiado de propósito por um político que brigara com o bispo, Dom Anselmo Pietrula.

Outros incêndios tomaram conta do menino, em grandes ou pequenas labaredas, às vezes ocultos em brasas como nesta outra idade, quando brotam tantas lembranças, e eu cumpro o destino que me coube, segundo o vaticínio do monsenhor Bernardo Peters ao me entregar os documentos do que estudei, alguns anos depois de desligado: “Gloria in excelsis Deo, tu non eris sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec, sed bonus puer”.(Glória a Deus, tu não serás nunca sacerdote, mas um eterno bom guri).

Talvez os honrados sacerdotes preceptores tenham insistido pouco, piedosamente ou não, para que o menino fosse o que lhe estava destinado, mas de algum modo ele tomou caminhos de domínio conexo ao tornar-se escritor e professor. As tentações sempre foram muitas, para os discípulos e para os mestres.

Àquele antigo menino coube viver para escrever estas lembranças e ensinar a outros o gosto de ler boas prosas que muito admiro e degusto, diante das quais considera a apenas um pequeno pedaço de sombra do que elas têm sido para ele.

Esse menino em mim jamais morrerá, nem mesmo depois de morrer, pois descerá como barro velho e subirá como barro novo, como ouvi outro dia em vernáculo numa igreja, nesses tempos em que os antigos ritos e o latim foram abolidos para que, soberano, mas sem que ainda se tenha educado o soberano, triunfasse outra vez, como sempre, o povo, que, por sua vez, evita e dificulta o caminho novo dos meninos, sejam eles filhos, netos, alunos ou discípulos.

É grande a diferença entre alunos e discípulos. Dos primeiros, o nome deles é legião ou povo, eles estudam e leem por necessidade. Dos outros, o nome deles é outro, existem em pequeno número, cada vez menor, e aprenderam a degustar as complexas sutilezas do tempo que lhes foi dado viver.

E, por isso, são para os outros motivo de preocupação ou desprezo. Podem até saborear moranguinhos, mas se repolho, alface ou capim, daria no mesmo. Certos gostos, sabores e saberes lhes são estranhos.

Quanto àquele menino, ele um dia aprendeu com o preceptor que lhe apresentou Terêncio, o Africano, que “homo sum, humani nihil a me alienum puto” (sou homem, nada do que é humano me é estranho).

Então, sua vida mudou para sempre, e tudo lhe desperta o gosto de invocar o memorial da vida, uma tarefa iniciada quando os gregos, tendo aprendido o alfabeto com os fenícios, começaram a registrar as histórias ouvidas para que fossem lidas por outros, sem os tomentos da pressa e do tempo.

Pois “ars longa, vita brevis” (a arte é longa, a vida é breve). Nossa vida é curta quando comparada à vida breve das borboletas, e longa quando comprada à das tartarugas, que vieram dos infernos, e à dos autores, anjos caídos que pretendem voltar.

  • Escritor e professor. Esta narrativa integra livro inédito que celebra os trinta anos do romance “Avante, soldados: para trás” (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e os dez de “Stefan Zweig deve morrer”, já publicados também em outros países.

O MANUSCRITO DE MONTECÚCCOLO

Conto inédito, especial para o Correio do Povo ( 05/03/2016)


http://correiodopovo.digitalpages.com.br/#/edition/53242?page=4&section=2


Deonísio da Silva *


Parte I
Devemos ao italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, frade missionário capuchinho, a descrição de infanticídios que assombraram primeiramente os portugueses, depois o resto do mundo civilizado, e que serviram de motivo adicional para justificar a presença europeia naquelas terras, iniciada com a conquista portuguesa do litoral centro-africano, ocorrida entre os séculos XVI e XVII.

Tendo vivido treze anos na África, ele cumpriu todos os ofícios que lhe atribuíram a Cúria Romana e a Ordem de São Francisco, às quais servia, dedicando-se também, como era comum entre padres e outros letrados, a registrar tudo o que via, sentia e ouvia.

Ele fala com esmero das atrocidades e dos rituais violentos, que incluíam o genocídio de tribos rivais inteiras e o sacrifício de crianças que tinham a cabeça esmagada para que seus miolos fossem servidos em cerimônias religiosas, sob a alegação de que dariam mais força aos guerreiros. As mulheres, mães ou não, eram dispensadas destas refeições.

Tais atos eram perpetrados por uma etnia em especial, a dos jagas, guerreiros nômades que atacaram tribos rivais nas regiões conhecidas depois pelos nomes de Angola, Matamba e Congo, esta última transformada em país pelo rei belga Leopoldo II.

Sim, este monarca comprou um país só para ele, acumulando fortunas para si e para seus apaniguados, comercializando diamante, ouro, prata, marfim e borracha, extraídos com mão de obra grátis, explorada sob condições das mais degradantes, que, quando reveladas, deixaram o mundo enojado de tanta ambição e crueldade. Todavia, todas estas violações tiveram muito menos destaque do que o infanticídio descrito pelo religioso.

O piedoso homem de Deus livra a cara de muitas etnias e culturas primitivas da África, como os bacongos e os mbundos, mas talvez exacerbe o que presenciou ou lhe contaram sobre os jagas, registrando pormenores assustadores na sua Descrição Histórica de três reinos: Congo, Matamba e Angola, situados na Etiópia inferior ocidental e das missões apostólicas feitas por religiosos capuchinhos.

A conquista religiosa, é claro, diferiu muito das outras conquistas que compuseram a tríade sobre a qual outros governantes passaram a mandar. As outras duas eram a militar e a política, mas as três davam-se em consonância, pois padres, militares e diplomatas viajavam às vezes nos mesmos navios que ali aportavam. Contudo a conquista religiosa, se não foi cruel por meios reais, foi cruel por meios simbólicos, impondo virtudes de outro mundo, de valores e negativas a quem os desconhecia, e erradicando os vícios dos evangelizados, que, entretanto, resistiram, obrigando os europeus a algumas fusões, misturando procedimentos religiosos cristãos a superstições, e santos a entidades míticas dos cultos praticados por aqueles povos.

O frade era mais um eurocêntrico, naturalmente. Já chegou à África muito desconfiado, pois antes dele outros colegas de hábito, de outras ordens religiosas, sobretudo, haviam descrito e narrado muitas estranhezas.

Mas, além do infanticídio, o que mais reprovavam quase todos os autores destes registros? A poligamia, o concubinato e o sexo livre, praticado séculos antes de ser apresentado como bandeira juvenil no Festival de Woodstock, realizado em 1969 nos Estados Unidos, com a diferença de que neste último evento estiveram presentes 400.000 pessoas. Os donos do poder voltavam a assustar-se, vendo no fenômeno uma demonstração inequívoca de que o comunismo internacional dava sua arrancada para a vitória final sobre o capitalismo, que séculos antes vitimara a África, levando tantos negros para mão de obra escrava nas Américas, e realizaria a tarefa mediante a contracultura, vírus que então se instalara no coração dos EUA. Se uma das principais manifestações da repressão política era a sexual, os jovens teriam pensado que poderiam começar pelo sexo livre, reprovado por todos os poderes, mas especialmente pelo religioso.

Afinal, todo o clero sempre apreciou muito o assunto “vida sexual dos outros”, não apenas pelo que deveriam extrair das confissões epocais feitas pelo relato de pecadores e sobretudo de pecadoras, que deveria ser minucioso, como ordenavam os manuais dos confessores.

Parte II

Aline me ligou bem cedo. Ela sabe que eu madrugo. Ela não acha graça alguma na aurora, e prefere outras formas de luz. Tinha acabado de voltar do motel, para onde fora com o marido de sua amiga Alessandra, depois que ela deixou a sós o próprio marido, Sérgio, com a amiga, alegando estar muito cansada e precisando dormir. Mui amiga da outra, esta Aline.

Bem, a outra não foi dormir coisa nenhuma. Da despedida rumou para uma esticadinha na praia, onde Iemanjá era homenageada com flores muito bonitas. Na noite escura, Iemanjá recebia a todas, vestidas de branco, parecendo puras e belas. No dia seguinte, podia-se desconfiar de tanta pureza e beleza, pois Iemanjá devolvia, não apenas, muitas flores, como também algumas feiosas que tinha resolvido permanecer um pouco mais nas praias.

Alessandra, amiga de Aline, estava tranquila: deixara o marido e a amiga na Barra da Tijuca, e agora estava na zona sul, pois, como se sabe, o Rio não tem zona leste: nenhum território é conhecido por esta denominação, de resto frequente em todas as outras cidades brasileiras banhadas pelo Oceano Atlântico, cujas águas, como se sabe, vacilam entre ficar na costa africana e vir para cá, estando em constante vai e vem.

Aline amava um abastado chefe de bandidos, Elevador. Ele vivia no luxo e na riqueza. E Aline, filha de um banqueiro, ao comparar a vida do amante com a vida do pai, do sogro, do marido e do ficante habitual, constatava que, de todos eles, igualmente ricos, o mais livre era justamente Elevador.

Fascinado pela amante, Elevador a recebia como a uma princesa no morro. Por fora a construção não era muito diferente dos barracos que a rodeavam, a não ser pelo tamanho, pois era imensa. Lá dentro, ela encontrava todo o conforto que a casa do pai e do marido lhe proporcionavam, acrescido de uma coisa que nenhum deles tinha: a privilegiada vista da cidade do Rio de Janeiro, posta aos pés de quem mandava nela, isto é, os bandidos, que ali viviam em casas sem grades, sem portões e até sem fecho nas portas. Ali, sim, a autoridade imperava. Havia quem mandava e havia quem obedecia, tudo na mais perfeita hierarquia. E sem as delongas judiciárias que tanto prorrogam e às vezes impedem a justiça.

A pena de morte não era rara. Na primeira visita à casa de Elevador, antes de entrarem, ela viu que um capataz do amante conduzia três jovens amarrados ao pescoço por uma corda e com as mãos atadas em cipós. Há regiões do Rio em que o século XVI ficava bem pertinho…E era um pulinho da cidade até ali!

Ela olhou espantada para o amante e este lhe disse com certa displicência: “Infelizmente ainda temos que dar este tipo de lição, que vai ficando rara”, acrescentando: “ao roubar, eles acabaram matando umas criancinhas, e isto é crime que não se pode perdoar”.

Como ela fizesse uma segunda pergunta, ele disse: “Mas logo ninguém mais teria segurança e eles poderiam matar a nós também. Segurança! Já ouviu falar nisso?”. E deu-lhe um beijo de boas-vindas, dizendo, por fim: “Esquece! Eu cuido de tudo aqui. Nada de ruim pode acontecer a ninguém, muito menos a você. E aqueles três cometeram as barbaridades em outra comunidade, mas, se eu não punir, o povo de lá vem pra cá e pune a todos nós, culpados ou não”.

Era verdade. Minutos depois, sem abrir a porta, alguém perguntou lá de fora: “Chefe, quem vai levar os recado dos “morto” ?”.

Elevador largou os lábios de Aline, interrompendo o beijo comprido de línguas entrelaçadas para dar a ordem simples: “Ninguém! Só avisa o da TV”.

E, antes de voltar ao que fazia antes com a moça, disse: “Podia avisar pelo jornal, mas ninguém lê. Aviso pela TV, assim todo mundo vê. E o rádio dá também, porque quase sempre TV e rádio vêm junto”. “No jornal vai sair também”, disse Aline. “Vai, sim, meu amor, mas para gente como vocês. Para gente como nós, é a TV e o rádio”. Aline insistiu: “E a internet? Não sai na internet?”. Elevador sorriu: “Sim, sim, sim. Mas na internet sai tudo junto e misturado, é mais difícil do nosso povo entender”.

Ele tinha um reino, incluindo local, povo e uma língua, que só os iniciados a entendiam por inteiro. E voltaram ao amor, deixando a guerra para os comandados do rei Elevador.

Parte III

Os franciscanos pertencem a uma ordem religiosa fundada em 1221 por São Francisco de Assis. Provavelmente teria vida efêmera, não fosse o apoio da rainha Isabel, da Hungria, e de Luís IX, da França, ambos santos também. Isabel nasceu no Castelo de Bratislava e seu ancestral sangue nobre (era azul, mas não por cianose) já regara outras das mais poderosas casas reais europeias.

Isabel era sobrinha de Santa Edwiges, tia de Santa Cunegundes e de Santa Margarida e tia-avó de Santa Isabel, rainha de Portugal, casada com Dom Dinis I, rei, lavrador e poeta, fundador da primeira universidade portuguesa, em Lisboa, depois transferida para Coimbra.

Rezam os registros feitos por padres, fidalgos e outros cortesãos que o nascimento da padroeira da Ordem de São Francisco foi anunciado por Klingsohr da Transilvânia, um trovador medieval, com estas palavras: “Vejo uma estrela que se levanta da Hungria e brilhará no mundo inteiro”.

Isabel, como Francisco, gostava muito de pobres, de animais, de pássaros e da Mãe Natureza, enfim. O famoso Milagre das Rosas é atribuído às duas Isabel: à da Hungria e à de Portugal.

A primeira Isabel tornou-se viúva, seu marido morreu na primeira Cruzada. Expulsa do reino porque lhe usurparam o trono, recusou também casar-se de novo, como queria seu tio Otto, poderoso bispo de Bamberg, preferindo confiar a educação dos três filhos a parentes ao entrar para a Ordem Terceira de São Francisco.

Dela disse Bento XVI, antecessor do atual papa Francisco: “Ela vivia com os pobres e obtinha o sustento com o trabalho de suas próprias mãos”.

Pel’ amor de Deus, como os nobres tinham medo de trabalhar! Para isso, eles contavam com escravos ou servos, que tudo faziam para eles, às vezes explicitamente – como os serviçais da roça, da pecuária ou da casa, estes últimos até lavavam as partes de patrões e patroas quando não havia sido inventado ainda o papel higiênico – outros indiretamente, como os militares, que garantiam aquelas conquistas, feitas entretanto sob o domínio da lei, mas se sabendo de antemão que à falta do medo e do respeito às novas normas, viria a força armada.

Todavia ao tempo de Bento XVI, Igreja e Estado já não andavam lá muito unidos. Pensando bem, alguns atos daquele papa deram muito o que falar, como o que a Cúria Romana, de que era chefe máximo, inventou em 20 de novembro de 2007.

Foi assim. A Cidade do Vaticano fez emissão extraordinária de selo comemorativo da vida de Isabel com 300.000 séries completas e 10 selos por folha, vendidos a 65 centavos de euro cada um, arrecadando uma fortuna. E há quem diga que santidade é coisa de carola! Sem negar todos os outros benefícios humanitários, é também um grande negócio, pois sem dinheiro pouco se faz neste mundo e é por isso que Elevador faz o que faz no morro, vendendo um pó branco de muita pureza, pelo qual muitos ricos da orla do Rio são fascinados, devidos a seus poderes de arrebatamento semelhantes a êxtases de santidade.

Além dos temas aqui aludidos, na homilia daquela semana, numa igreja da Barra da Tijuca, outro franciscano, chamado Clóvis, citando São João, lembrou aos fiéis que tudo é da terra, não sai da terra e volta para a terra. Mas falava do céu.
Nos dias seguintes, na universidade que Aline frequentava, foram travadas acaloradas discussões sobre a cara de governantes de todas as alas e matizes, insensíveis ao surto de zika, à microcefalia, à violência urbana, às mortes no trânsito, aos assassinatos e a outras mortes encomendadas, incluindo o aborto naturalmente, do qual não encontramos nenhum registro nos documentos do frade capuchinho italiano Giovanni Cavazzi de Montecúccolo.
Está presente nos tempos atuais, como se sabe, o fio vermelho de sangue que percorreu todo o conto que o Espírito soprou, que, como se sabe, não apenas sopra onde quer, mas sopra também como quer e nem sempre de forma que podemos compreender, pois seus sinais, ai, meu Deus, às vezes são quase ilegíveis. Ontem foi Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, mas hoje foi Deonísio da Silva. (xx)
º Deonísio da Silva é escritor e professor federal aposentado. Tem 35 livros publicados.

TPM FOI CAUSA DA ROTA DA SEDA

Disse um escritor já na idade bíblica dos setenta, portanto um homem experiente, que há outra teoria para a descoberta da Rota da Seda.

Foi assim: a poligamia já estava em vigor há algum tempo entre os árabes. Não se sabe o motivo, um dia todas as mulheres amanheceram de TPM. Os homens ficaram desesperados.

Não havia ainda bares ou restaurantes. E eles, apavorados, mesmo sem ter para onde ir, saíram todos de casa.

Alguns já corriam risco de vida por terem criticado o véu ou a burca das esposas. Alguns maridos reclamantes levaram esfirras e quibes pela cara. Marco Polo ainda não tinha trazido o macarrão da China. Portanto, ainda não havia pau de macarrão.

Outros observaram discrepância semelhante (“com essa ventania, por que ela pôs de novo este vestido arrastando pelo chão ?”), ficaram quietos, mas assustados com as mulheres da casa cortando cebola com certa violência naquela manhã, sem esvaziar o coração de sentimentos de vingança ao fazer isso. Algumas tinham vindo fazer perguntas com a faca torta na mão: “está quieto por quê?”.

Então, sem combinar, como fazem os homens, eles arrearam os camelos e saíram sem rumo pelo deserto. Estava descoberta a Rota da Seda. Sem querer. E assim tornara-se mais uma contribuição feminina involuntária para a História. Mulher não fica de TPM por querer. Ela mesma a detesta.

Mas por que os homens voltaram? Eles e elas ficaram com saudades mútuas. E homem algum resiste à saudade de uma mulher, quanto mais da mulher amada, ainda mais de duas, três ou quatro na mesma casa, querendo rosetar (ainda se usa este verbo tão bonito e delicado?).

E por que partiram de novo? Porque a TPM vem todo mês.

E por que voltaram de novo? Ora, porque na vida tudo passa. As safras da TPM são ainda mais breves do que a vida. Devem tomar em média menos da metade da existência da mulher.

200 ANOS DE ANITA

POR QUEM OS SINOS DOBRAM? POR ANITA GARIBALDI.

Desta casa, em Laguna (SC), ela saiu toda arrumadinha, aos catorze anos, para casar-se com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar.

Tão linda quanto mal amada, três anos depois, no frescor dos dezessete, viveria o grande amor de sua vida com o italiano Giuseppe Garibaldi na Guerra dos Farrapos, que proclamou duas repúblicas.

Em julho de 1839, ambos proclamaram a República Juliana, declarando a independência de Santa Catarina. A nova forma de governo durou 129 dias. A República Piratini, dos gaúchos, sustentou a independência do Rio Grande do Sul por dez anos (1835-1845).

Anita Garibaldi foi encontrada estrangulada, este é um dos mistérios. Pode ter sido eutanásia ou alguém puxou o cadáver enlaçando-o pelo pescoço.

Ela estava combatendo na Itália, aos 27 anos, depois de ter lutado no Uruguai e no Brasil, que segundo os gaúchos são repúblicas vizinhas e anteparos do RS ao Sul e ao Norte, respectivamente. Suas façanhas são conhecidas em toda a terra, como proclama o hino deles.

O casal é nome de cidades , avenidas, ruas, praças, estátuas, museus, escolas etc. Brasil afora e também em Cuba, na Itália etc.

Em 2021 faz 200 anos que ela nasceu.

Até 1998, houve controvérsia sobre o local de nascimento de Anita: se Lages ou Laguna.

A polêmica foi dirimida por sentença judicial em 5.12.1998:

“Ante o exposto, julgo procedente o pedido inicial, a fim de determinar o registro de nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro, nascida em 30 de agosto de 1821, na cidade de Laguna, filha de Bento Ribeiro da Silva, natural de São José dos Pinhais, Paraná, e de Maria Antônia de Jesus Antunes, natural de Lages, Santa Catarina, sendo seus avós paternos Manuel Collaço e Ângela Maria da Silva e avós maternos Salvador Antunes e Quitéria Maria de Sousa, o que faço embasado no artigo 50, § 4º combinado com o 52, § 2º, da Lei n.º 6.015/73. (Ação de Registro de Nascimento Tardio n.: 040.98.000395-4).

Muito a pesquisar e a escrever sobre a heroína catarinense de dois mundos, que em vida disputou também o amor de Giuseppe Garibaldi com a gaúcha Manoela Amália Ferreira, de Pelotas (RS), filha de uma rica família de estancieiros, que já estava prometida a Joaquim, filho de Bento Gonçalves. Manoela morreu do coração, solteira, aos 83 anos, e foi sempre conhecida como a noiva de Garibaldi.

Nos anos 80, Josué Guimarães e eu escrevemos, sob encomenda, duas histórias curtas sobre essas mulheres emblemáticas da vida brasileira e da história: a de Josué chamou-se Amor de Perdição”.

Ele morreu logo após escrevê-la e, por iniciativa de sua viúva, Nydia Machado Guimarães, veio a ser publicada pela editora L&PM, em Porto Alegre. “Balada por Anita Garibaldi” está em meu livro “Contos Reunidos”, publicado em 2010 pela editora Leya.

HISTÓRIA DAS BEBIDAS

Tom Standage faz uma história do mundo em seis bebidas (está no kindle; e na Zahar desde 2005): cerveja, vinho, café, chá, destilados e Coca-Cola. Marco Neves fez uma bonita coluna sobre o tema, que se tornou assunto para mim também. Vejamos.

As bebidas definiram políticas e práticas sociais. A descoberta da cerveja na Mesopotâmia alterou a agricultura e demandou a escrita entre as tribos nômades que ali se estabeleceram.

O vinho surgiu no apogeu da civilização greco-romana. De porre, conceberam religião, direito, tribunais, cultura.

Os destilados e o chá mudaram as metrópoles europeias, e as revoltas contra os impostos sobre eles trouxeram guerras, inclusive a da independência dos EUA.

O aroma e o sabor do café, bebida de místicos árabes considerada coisa do Demônio, encantaram até o papa Clemente VIII, que o liberou depois de tomar cafezinhos enquanto queimava Giordano Bruno.

Os cafés públicos reuniram milhares de pessoas, foram ambiente propício a novas ideias e instituíram o primeiro Facebook, onde hoje só bebemos sozinhos, cada qual na sua casa.

A Coca-Cola hoje domina o mundo. Tornou-se um ícone da globalização, é consumida na URSS e na China, outrora símbolos da oposição aos EUA.

Temos ainda as primeiras bebidas da Humanidade: o leite e a água potável.

Rios trouxeram os rivais e a rivalidade, cujo étimo latino é “rivus”, o vulgar que substituiu o “flumen”.

E não nos esqueçamos dos sucos. Voltaremos ao assunto.

VIDA DE ESCRITOR (1)

O escritor Rubem Fonseca e eu caminhávamos por Ipanema. Certa moça não parava de olhar para ele numa farmácia. Ele me acompanhou para comprar neosaldina, que nesse tempo eu não tomava, comia.

Eu já sabia que Rubem não gostava de ser identificado. Senti receptividade no olhar dela e disse:

“A senhora está comprando um creme de eficiência comprovada. Meu amigo aqui, o Dr. Araújo, dermatologista, sabe tudo dessas coisas que eu ignoro. Dessas e de outras”.

Rubem Fonseca arrebatara o prêmio Status de Literatura com o pseudônimo Dr. Araújo, fazia mais de vinte anos.

E ela, dirigindo-se a Rubem,no carregado dialeto do Rio no erre francês e no esse lisboeta: “Ah, o senhor é dermatologista?”.

E ele: “sim e tenho um sócio que nos traz a maioria dos clientes”.

A conversa era nonsense total. Meio desconfiada, ela aceitou o convite para ser apresentada ao sócio.

“Ele está ali fora”, disse Rubem. “Aqui, ele não entra”. A moça que atendia quis saber por quê.

Eu disse: “O sócio dele não entra em farmácia, igreja, açougue, desses lugares ele não gosta”.

A atendente ficou desconcertada na sua cara de espanto: igreja, farmácia e açougue, o que teriam de comum?

Na calçada, Rubem Fonseca mostrou seu sócio à moça, apontando para o Sol, que brilhava lindo no céu da pátria aquele instante. E em todos os outros de um dia de verão no Rio, e para todos, sobre bons ou maus, sabemos desde o Eclesiastes.

Viveu bem até o fim, e não morreu de Covid-19, mas de infarto. Não fumava, não bebia nada com álcool e não tomava mais café. Mas gostava muito dessas três coisas.

Bebi vinho, fumei charuto e tomei café em sua companhia, menos vezes do que gostaria. “A Barra da Tijuca fica no além-túnel”, diz outro querido, o embaixador João Clemente Baena Soares : “A gente nem sabe se há vida lá, só sabe que o Deonísio mora naquele subúrbio”.

Muitas saudades do meu querido amigo, amigo desde que o conheci, em 1973. Faz tempo e ele partiu em abril de 2020, a poucas semanas de completar 95 anos. Mas não morreu de Covid-19, morreu de infarto.